Livro coordenado por professor da FEA investiga desenvolvimento econômico da Coreia do Sul

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Da Assistência Técnica de Comunicação e Desenvolvimento da FEA

A Coreia do Sul é comumente citada como um exemplo de sucesso. Em apenas quatro décadas, a política econômica implantada no país asiático transformou um dos países agrários mais pobres do mundo, na década de 1950, em um dos mais ricos e industrializados no final dos anos de 1980. Considerada uma das nações mais igualitárias do mundo, sua renda per capita supera os US$ 25 mil. Para explicar como aconteceu esse “milagre” de crescimento e desenvolvimento econômico, o professor de Negócios Internacionais da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP , Gilmar Masiero, lançou o livro Coreia do Sul – Políticas industriais, comerciais e de investimentos, pela Juruá Editora, com a colaboração dos pesquisadores coreanos Jo Hee-moon, Jung Seung-won e Kim Won-ho.

Gilmar Masiero estuda há vários anos fenômenos econômicos e administrativos do Leste Asiático, mais especificamente do Japão, Coreia do Sul e China. Foi professor visitante em importantes centros de pesquisa americanos e asiáticos como David Rockefeller Center for Latin American Studies da Universidade de Harvard, IDE – Institute of Developing Economics, no Japão, e KIEP – Korean International Economic Policy, na Coreia do Sul. Além das atividades acadêmicas, Masiero participou de várias reuniões bilaterais desenvolvidas no âmbito da Comissão Brasil-Coreia para o século 21, criada quando da visita do presidente Kim Young-sam ao Brasil em 1996.

“Esse trabalho visa contribuir para ampliar o conhecimento dos brasileiros sobre aquela experiência de rápido desenvolvimento econômico via crescente e consistente industrialização do país, coordenada por um governo gestor e um setor privado empreendedor”, define o professor Gilmar Masiero. Partindo de uma situação bastante precária, com pobre infraestrutura, poucos recursos naturais e população pouco instruída, Masiero afirma que a Coreia conseguiu, em poucas décadas, atingir elevados níveis de renda per capita e uma estrutura produtiva sofisticada, com empresas especializadas em produtos de alto valor agregado.

O crescimento econômico foi liderado por uma política de industrialização que enfatizou a reconstrução do país, logo após a Guerra da Coreia, em junho de 1950, a partir de um modelo de substituição de importações, que durou até o início da década de 1960. A partir dessa data, foi implementada outra estratégia de desenvolvimento voltada às exportações, sem, no entanto, abandonar a seletividade dos importados, principalmente na década de 1970, durante o surgimento de indústrias pesadas e do setor químico. Nas décadas de 1980 e 1990, com uma estrutura industrial mais completa e com a democratização do país, começaram a ser instituídas estratégicas de distribuição e de suporte a pequenas e médias empresas. Com a globalização, houve incentivos ao desenvolvimento de indústrias de alto valor agregado, relacionadas ao setor de telecomunicações e de tecnologia da informação.

No entanto, duas reformas foram essenciais para o salto de qualidade. Segundo o professor de Negócios Internacionais da FEA, logo após a divisão da península em 1948, o primeiro presidente da Coreia, Syngman Rhee, implantou a reforma agrária, que mais tarde auxiliou o país a desenvolver uma sociedade mais igualitária rumo ao processo de industrialização. A outra reforma importante foi a adoção da educação básica obrigatória, que é considerada o grande diferencial do processo de desenvolvimento econômico do país.

Para se ter uma ideia dos investimentos em educação, o percentual de gastos em relação ao orçamento total na Coreia passou de 2,5% em 1951 para 17% em 1966 e 23% em 1995. Durante esse período, conforme explica o professor Gilmar Masiero em seu livro, a fatia do governo nunca passou de um terço. “Os outros dois terços eram financiados pelo setor privado, o que mostra um forte comprometimento da sociedade coreana ao avanço educacional, pensamento que ajudou o país a erradicar o analfabetismo ainda no início da década de 1980”.

A taxa média de matrículas no ensino médio cresceu de 48,8% em 1980 para 91,9% em 2011. No caso do ensino superior, saltou de 11,4% em 1980 para 65% em 2011. Essas estatísticas ilustram bem a “obsessão por educação” na Coreia contrastando-se à experiência brasileira. Grandes empresas patrocinaram escolas e o governo tornou compulsório o treinamento de empregados em empresas com mais de 300 funcionários. Segundo Masiero, esses fatos levaram ao surgimento de diversos centros de pesquisa nacionais.

Os esforços na direção do treinamento técnico em resposta às crescentes demandas do cada vez mais tecnológico setor industrial coreano acabaram impulsionando a economia do país asiático, tornando-o líder mundial em diversos setores, como o de tecnologia da informação. “Enquanto no passado fatores como disponibilidade de recursos naturais eram determinantes no sucesso econômico de um país, no século 21 o futuro de uma nação depende cada vez mais de sua habilidade em gerar ideias, e nesse quesito, a Coreia está construindo as bases para ser um dos países mais avançados do planeta”, conclui o professor Gilmar Masiero.

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