Cultura de formação da ginasta envolve exigência e pressão, avalia estudo

Publicado em Esporte, USP Online Destaque por em

Hérika Dias/ Agência USP de Notícias

Foto: Wikimedia Commons
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Ginásio é o espaço no qual foram cunhadas e são transmitidas idiossincrasias culturais da modalidade, transmitidas de geração a geração

A ginástica artística é um esporte que exige do atleta controle do corpo, força, coordenação, flexibilidade, equilíbrio e, sobretudo, elegância. Atributos conquistados à base de muito treinamento e disciplina. Esses aspectos são influenciados por uma cultura própria da modalidade em que as ginastas aprendem, desde o início do seu processo de formação, a lidar com as exigências e a pressão em busca da perfeição técnica.

De acordo com o educador físico Mauricio Santos Oliveira, isso ocorre porque, a partir do momento em que as ginastas são inseridas no ambiente do ginásio, elas são submetidas a um processo de aprendizagem cultural, no qual são ensinados valores como a disciplina, a dedicação, a subserviência ao técnico e o sacrifício à dor.

“Além disso, as atletas são instruídas a se inserir e a respeitar a hierarquia do ginásio, por isso muitos comportamentos como abuso físico, coerção social, obediência sem questionamentos e a ausência de diálogo podem ser considerados normais e, até mesmo, necessários para se alcançar o alto rendimento esportivo. Muitas dessas atitudes, fora desse contexto do ginásio, seriam repreendidas e condenadas”, destaca.

Muitos comportamentos como abuso físico, coerção social, obediência sem questionamentos e a ausência de diálogo podem ser considerados normais e, até mesmo, necessários.

Esses são alguns padrões de comportamento, relações humanas, formas de comunicação, rituais e valores característicos da ginástica artística encontrados por Oliveira em sua tese de doutorado A microcultura de um ginásio de treinamento de ginástica artística feminina de alto rendimento, defendida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, sob a orientação da professora Myrian Nunomura.

Ele acompanhou 19 ginastas femininas, de diferentes categorias, que estavam em treinamento para competições de alto rendimento esportivo – algumas das atletas se preparavam Olímpicos de Londres em 2012 – e construiu um retrato da ginástica artística fundamentado em traços culturais da modalidade.

Microcultura de um ginásio

O pesquisador explica que as microculturas são organizações nas quais as pessoas apresentam e compartilham valores, crenças, padrões de comportamento e um sistema simbólico que os distinguem da cultura hegemônica. “Por exemplo, uma equipe esportiva pode ser compreendida como uma microcultura, a qual está inserida na macrocultura do conjunto de equipes que competem em um campeonato nacional”, compara.

Para retratar a microcultura de um ginásio de treinamento de ginástica artística, Oliveira focou na relação interpessoal entre os técnicos e as ginastas. “Da mesma forma em que nós passamos por um processo de aprendizagem cultural no nosso cotidiano, os ginastas passam por um processo de endoculturação no ginásio. E, assim, assimilam peculiaridades da modalidade e da equipe na qual pertencem. O ginásio é o espaço no qual foram cunhadas e são transmitidas as idiossincrasias culturais da modalidade e que são transmitidas de geração a geração de técnicos e de ginastas”.

Influência externa

Foto: Wikimedia Commons
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A ginástica artística é um esporte tradicional, principalmente, no leste europeu onde surgiram grandes atletas mundiais. O fato reflete sobre a ginástica artística brasileira que apresenta similaridades culturais com esses países. Segundo o pesquisador, essa influência abrange desde as formas de comunicação até o processo de ensino de elementos da modalidade.

“A influência cultural dos países de tradição consolidou-se no Brasil com a vinda de técnicos estrangeiros, os quais foram os responsáveis por trazer a modalidade para o país e continuam a impactar na formação de nossos atletas. Ainda hoje, no cenário brasileiro presenciamos técnicos russos e ucranianos, de grande expressão internacional, e que atuam com as principais atletas do Brasil”, disse Oliveira.

O atual técnico da seleção brasileira de ginástica artística feminina é o russo Alexander Alexandrov. Ele treinou grandes nomes da modalidade, como Svetlana Boginskaya (Bielorrússia), Dominique Moceanu (Estados Unidos), Aliya Mustafina (Rússia) e, no masculino, Dmitri Bilozerchev (Rússia).

De acordo com a professora Myrian Nunomura, essa influência externa está enraizada na ginástica artística brasileira e não apresenta sinais de mudanças em curto prazo. “Técnicos estrangeiros atuam nas seleções masculina e feminina, que estão em preparação para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Certamente, há técnicos brasileiros muito competentes, mas o fato sinaliza que ainda dependemos dos modelos internacionais de formação de ginastas.”

Outros contextos

A pesquisa mostra que em busca da perfeição, as ginastas desenvolvem o respeito, a disciplina, a perseverança, a responsabilidade e também adquirem hábitos saudáveis, “os quais são importantes, não apenas no esporte de competição, mas para a vida toda”, ressalta Oliveira. Ele lembra que a ginástica artística como atividade física, formativa e de lazer também apresenta características dessas particularidades culturais encontradas no contexto do esporte de alto rendimento.

“A prática da modalidade pode ocorrer em um espaço de vivências de valores humanos e que permita, ao mesmo tempo, a aprendizagem de elementos da ginástica por meio de atividades prazerosas e sem a preocupação com o rendimento ou desempenho perfeito”, finaliza o pesquisador.

Mais informações: email mauricio.s.oliveira@ufes.br, com Mauricio Santos Oliveira

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