Exposição “Redes Alternativas” relaciona a arte de diferentes países sob ditaduras

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Em governos ditatoriais, diversas manifestações artísticas ficam conhecidas por contestarem o regime e lutarem pela liberdade de opinião. No campo das artes plásticas não é diferente. O que mais surpreende, entretanto, é que artistas de regiões e contextos tão distantes tenham produzido trabalhos semelhantes quando submetidos a esse mesmo tipo de governo. É esse paralelo que a exposição Redes Alternativas, que ficará aberta no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP até o dia 26 de fevereiro, pretende traçar.

A exposição apresenta as obras de artistas latinoamericanos e do Leste Europeu realizadas nas décadas de 1960 e 1970, época em que esses países se encontravam sob regimes ditatoriais. Cristina Freire, responsável pela curadoria dos trabalhos, conta que Redes Alternativas se derivou de uma pesquisa que ela havia desenvolvido anteriormente, sobre a relação entre os países da América Latina e do Leste da Europa, a partir do acervo do MAC.

O estudo, que fez parte de um projeto temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi chamado de “Lugares e modos da crítica de arte” e realizado em parceria com a Escola de Comunicações e Artes (ECA) e o Instituto de Psicologia (IP) da USP. A quantidade de trabalhos de regiões como a Hungria, a Polônia e a Alemanha Oriental chamou a atenção de Cristina, que decidiu pesquisar quais eram os canais de troca e as questões comuns entre as obras.

Na sequência da pesquisa, Cristina fez a curadoria dessa exposição, que foi logo convidada a integrar uma grande mostra internacional na Alemanha. Foi assim que, em 2009, o MAC fez parte da Subversive Practices, em Stuttgart. Cristina destaca que a exposição pôde mostrar a capacidade do MAC em articular lugares geopoliticamente muito distintos. “Eu levei a participação, não do Brasil, mas do MAC”, diz.

Obras

Entre os trabalhos selecionados para compor a exposição, a maioria é de fotografias. “A fotografia foi um meio bastante privilegiado, porque era muito fácil fotografar e mandar pelo correio”, explica Cristina. Ela acrescenta ainda que essas imagens representam o registro das apresentações das obras, que consistiam basicamente nos “artistas fazendo ações e performances usando o próprio corpo como um suporte da sua criação”.

Para vencer a barreira da censura, as obras não apresentavam críticas explícitas, mas metafóricas. Cristina cita o exemplo de Krysztof Wodiczko, um artista polonês que participa da exposição com a obra “Veículo”, de 1973. O trabalho nada mais é do que um “carro”, uma engrenagem, que coloca o artista pisando fora do chão. Na medida em que ele caminha, a engrenagem vai em direção contrária. “Todo o movimento do corpo do artista, o seu lugar no mundo, esclarece uma posição de resistência”, afirma.

Outro trabalho que a curadora destaca é o do uruguaio Clemente Padín. Na época, Padín estava sendo perseguido e foi impedido de viajar até o Brasil porque seu passaporte estava confiscado. Ele decidiu, então, enviar um projeto para o MAC, em que pedia que outro artista visitasse uma exposição e explicasse para o público visitante as obras expostas. Assim nasceu o trabalho “Um Artista a Serviço da Comunidade”, de 1974.

Redes Alternativas conta ainda com três vídeos dos artistas brasileiros Letícia Parente, Paulo Herkenhoff e Roberto Evangelista.

O papel do MAC

De acordo com Cristina, o conjunto dessas obras representa o conceito de utopia. Para ela, o que os artistas propunham se caracterizava como uma espécie de ideal, principalmente se compararmos aquela dinâmica com o sistema atual. “Ainda havia uma esperança de a arte trabalhar fora do mercado, fora dos circuitos hegemônicos, fora da mídia, com a possibilidade de troca da informação”.

Naquele período, o MAC cumpriu a função de centralizador desses esforços. Cristina conta que o então diretor do Museu, Walter Zanini, se empenhava para realizar exposições que não precisassem de muito dinheiro. Para isso, convidava os artistas através de uma rede de arte postal, meio que viabilizou a chegada de todos os trabalhos dessa exposição. Dessa forma, o MAC se tornou o museu com “o mais importante acervo de arte conceitual do Brasil”.

A curadora acredita que a importância de Redes Alternativas, assim com a de todas as exposições, sobretudo em museus, é a de trazer um contraponto às imagens que nos bombardeiam diariamente através da televisão, da internet, da publicidade, mostrando outro modo de enxergamos o mundo. “Esse é o papel do museu”, completa.

Serviço

A exposição Redes Alternativas ficará aberta ao público até o dia 26 de fevereiro, no MAC, que fica na Rua da Praça do Relógio, 160, Cidade Universitária, São Paulo.

O MAC funciona às terças e quintas-feiras, das 10 às 20 horas, e nas quartas, sextas, sábados, domingos e feriados, das 10 às 18 horas. A entrada é gratuita.

Para mais informações, visite o site do museu: www.mac.usp.br.

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