Exposição no Catavento traz réplicas dos mais antigos ancestrais humanos

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Sylvia Miguel / Jornal da USP

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

Com um recorde de visitação em apenas um dia, 5 mil pessoas foram ao Museu Catavento Cultural e Educacional no feriado comemorativo da Revolução Constitucionalista de 1932. O dia 9 de julho marcou também a estreia da exposição “Do Macaco ao Homem”. Aberta em caráter permanente, a maior exibição da América Latina sobre a evolução humana é uma parceria do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) do Instituto de Biociências (IB) da USP com o museu.

Concebida inicialmente em 2006 para ser apresentada na Estação Ciência da USP, a exibição passou por uma readaptação, dadas as diferenças do espaço que agora a acolhe. Os subterrâneos do histórico prédio do Palácio das Indústrias passaram por uma reforma complexa, assinada pelo arquiteto Ricardo Pisanelli. As arcadas e paredes de tijolo à vista, o teto baixo do subsolo e a iluminação escura proporcionam ao visitante uma sensação de mistério, como numa expedição arqueológica, aguçando a curiosidade.

Oito módulos temáticos caracterizam a evolução da espécie humana. Réplicas de esqueletos, ferramentas, artefatos de pedra lascada e objetos do cotidiano compõem as representações de nossos ancestrais. As ossadas vão desde os Sahelanthropus tchadensis, o exemplar mais antigo da linhagem humana, com aproximadamente 7 milhões de anos, até chegar ao Homo sapiens, com origens datadas em 200 mil anos atrás.

Pedra lascada

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Para o professor Walter Neves, coordenador do LEEH, a separação em módulos evita a dispersão, permitindo que o conhecimento de cada tema seja absorvido de forma integral. O primeiro deles mostra a árvore evolutiva humana, seguido pelo módulo que situa o homem no reino animal. Os seguintes apresentam a evolução da locomoção, da dentição, do cérebro, da aparência física e da tecnologia da pedra lascada. Finalmente, um generoso módulo sobre a evolução do simbolismo e da produção artística, com um sepultamento ocorrido há 28 mil anos onde hoje é a Rússia. O esqueleto está num buraco escavado no próprio solo, isolado por um vidro sobre o qual é possível caminhar.

Outras aventuras sedutoras estão no subsolo do Catavento, como a viagem interativa ao fundo do mar simulada por um submarino, a “nave espacial”, que permite ao visitante tornar-se um astronauta por 45 minutos e conhecer o sistema solar, e ainda um lego gigante. Um borboletário construído entre os muros do palácio aguarda liberação do Ibama do Pará para sua inauguração, segundo Maurício Goulart Sabatino, assistente-técnico educativo do museu.

A exposição permanente “Do Macaco ao Homem” está em cartaz no Museu Catavento Cultural e Educacional, no Palácio das Indústrias, antiga sede da Prefeitura (Praça Cívica Ulisses Guimarães, sem número, Parque D. Pedro II, Centro, São Paulo), de terça-feira a domingo, das 9 às 16 horas. Entrada: R$ 6,00. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3315-0051 e no endereço eletrônico www.cataventocultural.org.br.

“É a maior mostra sobre evolução humana”

Na entrevista a seguir, o professor Walter Neves, do Instituto de Biociências da USP, fala da concepção da exposição “Do Macaco ao Homem”.

Jornal da USP – Qual a importância dessa exposição para a cidade de São Paulo?

Walter Neves – Em São Paulo há uma grande demanda por uma exposição representativa da evolução humana, porque é um tema de alto interesse do público. Mas, como não temos um museu de história natural em São Paulo e na Universidade, o que acho imperdoável, não tínhamos nenhuma exposição dessa monta. Tais exposições são quase sempre atreladas ao contexto desses museus. Portanto, a cidade está recebendo a maior exposição da América Latina sobre a evolução humana, à altura da importância cultural de São Paulo. Isso só foi possível graças à colaboração entre o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da USP e o Museu Catavento.

JUSP – Fale um pouco sobre como surgiu a exposição “Do Macaco ao Homem”.

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

Walter Neves – O Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências, que fundei em 1994 e até hoje coordeno, dispõe do melhor acervo de réplicas de evolução humana de toda a América Latina. Em 2006, o professor Wilson Teixeira, então diretor da Estação Ciência, soube da existência desse acervo e de minha frustração por não poder expor ao público. Então ele me convidou para realizar o projeto de uma grande exposição de evolução humana para a Estação Ciência. Conseguiu recursos iniciais do CNPq para a parte gráfica e a produção das réplicas. Depois da saída de Wilson Teixeira da Estação Ciência, as outras diretorias não conseguiram recursos para a exposição. A montagem ficou cerca de dois anos no limbo. O diretor do Museu Catavento soube dela, e então recebi esse convite.

JUSP – Todas as réplicas são do LEEH? O que o visitante verá na exposição?

Walter Neves – Verá basicamente réplicas de esqueletos, crânios, objetos de pedra lascada e sepultamentos. São réplicas dos mais importantes fósseis já encontrados desde o início do século 20 sobre a evolução humana. As peças foram importadas de diversos museus e instituições e servem basicamente como material didático, tendo sido utilizadas também em eventuais exposições.

JUSP – Por que a estrutura em módulos?

Exposição do Macaco ao Homem, Museu CataventoWalter Neves – Em geral, esse tipo de exposição possui uma estrutura cronológica. Preferi não fazer esse recorte porque, se o indivíduo não visita sistematicamente todo o percurso da exposição, sai dela com muito pouco conhecimento acabado. Usei um conceito que chamei de módulos autocontidos. São oito temas sobre, por exemplo, a evolução do cérebro, a tecnologia da pedra lascada, a locomoção, de modo que, se o visitante vir apenas um módulo, sairá dele com algum conhecimento sobre aquele tema. Com essa separação, o visitante não enxerga os módulos seguintes, evitando a dispersão da sua atenção.

JUSP – Quando tempo levou até a ideia se concretizar no Catavento?

Walter Neves – A montagem da exposição no Catavento levou cerca de dois anos. Teve que ser adaptada para o local onde seria estruturada, pois ela ocupa as arcadas do subterrâneo do museu, bem diferente do local que ocuparia na Estação Ciência. As réplicas já estavam todas prontas. Mas a parte arquitetônica teve que ser transformada completamente para ajustar o espaço que o Catavento tinha disponível.

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