USP e MIT desenvolvem projeto de inovação com comunidades carentes

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Pelo segundo ano consecutivo, uma parceria entre o Laboratório de Sustentabilidade (LaSSu) da Escola Politécnica (Poli) da USP, a Universidade Federal de São Carlos (USFCar) e o MIT D-Lab (Design Lab), do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), reuniu um grupo de estudantes na busca por soluções sustentáveis para problemas de comunidades carentes brasileiras.

Concentrando-se, em 2012, no estado de São Paulo, o time formado por aproxidamente 25 alunos de diversas áreas colocou a mão na massa junto a moradores de periferias de Sorocaba e Embu das Artes, na tentativa de solucionar alguns de seus problemas mais urgentes. Divididos em três grupos em cada uma das cidades, eles tinham como objetivo desenvolver tecnologias apropriadas para o atendimento de necessidades das comunidades escolhidas, trabalhando junto aos moradores o sentido abrangente do princípio da sustentabilidade.

Para os integrantes do LaSSu, sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais globais. É através dele que os alunos devem repensar saídas para grande parte dos problemas estruturais que enfrentam. “Não se trata apenas de desenvolver tecnologia, mas sim de integrá-la com ações em todas as esferas”, afirma Karine Yuki, estudante de Física e Ciências Políticas no MIT.

Orientados pela professora Tereza Cristina Carvalho, coordenadora do LaSSu, os alunos e pesquisadores implementam essas ações utilizando materiais de baixo custo e recicláveis, facilmente encontrados na comunidade, como pneus velhos, plástico PVC, madeiras, baldes e canos.

Mãos à obra

Entre o planejamento, iniciado em meados de setembro, e a implementação, que esse ano se deu entre os dias 9 e 23 de janeiro, os grupos não apenas identificam seu local de trabalho, como também se comunicam com a comunidade na busca por um maior entendimento das dificuldades locais. Com um total de seis projetos, os estudantes atuaram em diferentes frentes nas duas cidades escolhidas.

Em Embu das Artes, os alunos se dividiram entre três ações:

1) Entretenimento – Após a análise inicial da área, e na tentativa de abranger o maior número possível de pessoas da comunidade, o grupo identificou a necessidade de um centro cultural que reunisse crianças da região, acostumadas normalmente as brincadeiras de rua em regiões afastadas de onde moravam. Com um espaço cedido por uma ONG local, recursos vindos de uma cooperativa (Copermape), além da ajuda entidades religiosas e de um vereador da região, a equipe montou em apenas uma semana um espaço com biblioteca e brinquedoteca, abrindo também uma pequena sala para a prática de artesanato e para o recebimento futuro de computadores. “Criamos um espaço modelo junto com os moradores e estimulamos a busca por parcerias com iniciativas como ‘Escola da Família’ ou ‘Amigos da Escola'”, conta Leonardo Iwaya, mestrando na Poli na área de Sistemas Digitais.

2) Iluminação – Sabendo que a comunidade que iriam ajudar não tinha acesso oficial a energia elétrica, o coletivo de estudantes encabeçado por Vinícius Romero, de engenharia industrial e Bruno Rossener, engenharia de produção, ambos da UFSCar, entendeu que deveria convencer a população de que utilizar o projeto pioneiro – implementado originalmente nas Filipinas – de garrafas plásticas usadas para captar a luz natural do sol era “um exemplo a ser seguido por essa e outras comunidades”, revela Vinícius. A ideia era simples: Com materiais como placas de metal, misturas para vedação, garrafas pet, água e cloro seria possível iluminar ambientes sem a necessidade de eletricidade. Um furo deveria ser feito nas telhas para que a garrafa fosse encaixada e a luz do sol, refletida na mistura líquida seria suficiente para iluminar espaços pequenos com poucas janelas. Com a formulação de um panfleto sobre como a técnica poderia ser praticada pelos próprios moradores, os alunos solucionaram com criatividade parte do problema dos habitantes de Embu.

3) Drenagem – Com a intenção original de resolver a situação precária do piso das casas da região, os alunos André Mitsuoka, do curso de Ciência da Computação da UFSCar e Amelia Carver, estudante de graduação de Música e Composição no MIT, perceberam que nem sempre é possível atender às próprias expectativas durante o trabalho de campo. Com a ajuda dos colegas, a dupla formulou em sete dias um sistema de tubulações capaz de drenar a água dos pisos irreparáveis. “Era preciso pensar num jeito de jogar aquela água para fora das casas, num só lugar”, explica Amelia. Interconectado, o sistema de tubulações feito com a ajuda da comunidade e materiais disponíveis atenuou o problema das enchentes que assolavam os moradores dentro de suas próprias casas.

Não muito distantes dali, em Sorocaba, outros grupos formados por alunos de áreas tão diversas quanto engenharia, turismo e fisioterapia, utilizaram sua criatividade coletiva em três empreendimentos:

1) Caminho a escola – A insegurança do caminho pelo qual alunos do ensino Fundamental e Médio tinham que transitar para chegar a escola foi encarada como prioritária pelo grupo. Entre eles, André Bonfatti, aluno de Ciência da Computação na UFSCar, avaliou a necessidade de iluminação adequada e de limpeza da pequena passarela de terra que ficava intransitável em dias de chuva forte. Cavando um desvio calculado para água com a ajuda de crianças e adolescentes locais, o grupo conseguiu abrir caminho até a escola e garantir maior segurança para todos os que por ali passavam diariamente. Orientando os jovens voluntários sobre como fazer a manutenção da área, inclusive plantando grama nas margens do caminho para absorver o excesso de água, o grupo concluiu seu trabalho consciente de que havia muito a ser feito ainda.

2) Habitação – O crescente problema de enchentes não era apenas uma preocupação em Embu das Artes, mas também na periferia de Novo Mundo, em Sorocaba. Reduzir seus danos envolveria um trabalho conjunto dos alunos em duas frentes. A primeira envolvia diretamente habitação, pois exigia criar uma barreira física que impedisse córrego, que corria por entre as casas, de vazar e inundar as ruas. Com materiais do próprio entorno, os alunos de engenharia formularam uma maneira simples de elevar a terra ao redor do córrego. Com pedaços de bambu fincados na terra e pneus preenchidos com terra molhada, ergueu-se uma barreira que, atestadamente, foi capaz de proteger os moradores do avanço da água num dia de chuva forte.

3) Saneamento – Para que a barreira de pneus, bambu e terra funcionasse, seria necessário envolver a população num grande ato de limpeza das margens do córrego. A partir desse gesto, a comunidade pôde discutir a criação de uma associação de moradores que pudesse articular seus próprios interesses junto às instâncias políticas e econômicas de Novo Mundo. Entre o debate, a limpeza e a edificação da barreira, tanto os moradores quanto os estudantes puderam atribuir um novo significado à noção de engajamento que tinham antes da experiência.

Cientes de que o segredo da sustentabilidade de qualquer iniciativa está no envolvimento de seus participantes, os jovens crêem no sucesso dessa e de outras iniciativas com objetivos similares no futuro. Com a esperança de continuar o projeto pelo terceiro ano em 2013, a professora Tereza acredita que o envolvimento de mais alunos de diversas universidades e da própria USP deve criar uma rede de parcerias cada vez mais sólida, para continuar disseminando práticas sustentáveis efetivas.

Mais informações: (11) 3091-1092, (11) 9603-3790 ou email terezacarvalho@usp.br, com a professora Tereza Cristina Carvalho.

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