Núcleo de pesquisa avança nos intrincados caminhos das células

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Izabel Leão / Jornal da USP

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Da esq. para a dir.: Emer Ferro, Leandro Castro, Fábio Luís Forti, Marco Stephano e Marcelo Gomes (na tela do computador)

Descobrir e caracterizar os peptídeos – moléculas que resultam da degradação da proteína pelas enzimas – é o trabalho do Núcleo de Apoio à Pesquisa na Interface Proteólise-Sinalização Celular (NAPPS) da USP, que pode resultar em novas formas de tratamento do câncer e outras moléstias

Um intrincado e fascinante fenômeno ocorre no interior de cada uma das bilhões de células do corpo humano. Ali, proteínas produzidas pela célula são “digeridas” ou “quebradas” por enzimas – mecanismo que os especialistas chamam de “proteólise” – e, como resultado, surgem moléculas chamadas peptídeos. Responsáveis por atividades essenciais para a regularização da própria célula, essas moléculas – muitas ainda desconhecidas pela ciência – podem ser rastreadas, decifradas e aplicadas diretamente na medicina, em favor da saúde pública.

É isso o que fazem os pesquisadores do Núcleo de Apoio à Pesquisa na Interface Proteólise-Sinalização Celular (NAPPS), sediado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Segundo o coordenador do núcleo, professor Emer Suavinho Ferro, os peptídeos possuem grande potencial para o desenvolvimento de novos fármacos. “Temos o objetivo de identificar essas moléculas derivadas da degradação de proteínas e encontrar aplicações para elas”, afirma o professor, que é docente do Departamento de Farmacologia do ICB.

Num trabalho que já dura mais de dez anos – e incorporado ao NAPPS, fundado em 2012 –, Ferro e sua equipe descobriram uma centena de peptídeos. Um deles, denominado pep5, apresenta potencial terapêutico contra o câncer. De acordo com o professor, esse peptídeo é capaz de eliminar células através de um mecanismo chamado apoptose (morte celular programada) – o que pode ser útil para combater cerca de uma dúzia de tumores humanos –, ao mesmo tempo em que tem efeitos colaterais insignificantes para as células normais. “Resultados in vivo realizados no tratamento de tumores cerebrais em ratos mostraram que o pep5 reduziu em 50% o tamanho desses tumores, que representam cerca de 30% dos tumores do sistema nervoso central e 80% dos iniciados apenas no cérebro”, conta o professor do Instituto de Química (IQ) da USP Fábio Luís Forti, co-coordenador do NAPPS.

Dos peptídeos já descobertos, uma dezena deles é estudada atualmente pelos pesquisadores do núcleo. Entre eles estão as moléculas chamadas hemoprecina, RVD e VD hemoprecinas, AGH, pep EL28, DBI e LDI. Conforme explica Emer Ferro, todos são identificados de acordo com o nome do primeiro aminoácido do peptídeo. A fim de verificar o potencial terapêutico dessas moléculas, já foram realizados testes in vitro e em animais, faltando o salto final: o teste clínico, com seres humanos.
Ainda segundo Ferro, as células humanas apresentam cerca de 30 mil proteínas. Cada uma delas fornece em torno de 50 peptídeos. Ou seja, há uma infinidade de moléculas a ser estudadas do ponto de vista do seu potencial farmacológico.

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