Porque o carnaval não é mais como em outros carnavais

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Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Ninguém precisa atravessar o deserto do Saara, dizer à mamãe que quer mamar ou perguntar à jardineira por que ela está tão triste para saber que, nos próximos dias, o carnaval vai mobilizar milhões de pessoas de norte a sul do País e será tema onipresente na mídia, goste-se ou não dele. Tão inevitáveis quanto a transmissão dos desfiles das escolas de samba ou as repetidas explicações sobre as origens de blocos e outras manifestações tradicionais são os comentários nostálgicos dos que, como naquele comercial de TV sobre uma coleção de livros de fotografias, garantem que bons mesmo eram os carnavais de antigamente. Quiçá os do tempo em que as folias comandadas pelo adiposo Rei Momo eram referidas pelo garboso epíteto de “tríduo momesco”.

Nostalgia e saudosismo, entretanto, não cabem mais nesse cenário, aponta o professor Waldenyr Caldas, docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e pesquisador de áreas como música e manifestações de massa. “O carnaval hoje é um produto da indústria cultural, como o futebol, a telenovela, o shopping center. Não somos nós que queremos isso. É o processo transformacional da sociedade que gera esse tipo de coisa”, diz o professor. Pode-se ser contra desumanidades e injustiças do capitalismo, afirma Caldas, mas é nele que navega a indústria cultural, e é em torno do capital e da compra e da venda – seja de produtos, ideias, imagens etc. – que giram as coisas.

Caldas localiza em meados da década de 1950 – no governo de Juscelino Kubitschek – o começo da transformação do carnaval em produto da indústria cultural. Pouco depois, durante a ditadura militar, o modelo das escolas de samba deixa de ser amador/profissional para se tornar exclusiva e irreversivelmente profissional. “Hoje as escolas são grandes empresas que trabalham o carnaval com objetivos mercantis. É importante o registro histórico, mas não tem sentido que ele se mantenha como uma coisa artesanal. Se tudo muda, por que o carnaval tem que continuar sendo aquela coisa tradicional?”, pergunta. Para o professor, não se pode imaginar que, na era digital, a festa fosse realizada como na primeira metade do século passado. Então, dê-lhe sambódromo, televisão, camarote de cervejaria, “celebridades” pagas para aparecer aqui ou ali, marketing, patrocínios, imagens e mais imagens.

Política no enredo

A origem do carnaval brasileiro está no entrudo português, que incluía brincadeiras em que os participantes se atiravam ovos e tomates. Essa festa chega ao Brasil com algumas características semelhantes, mas a partir da vinda da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, começa a passar por transformações. “Vai aparecendo uma coisa mais organizada, que não são exatamente blocos, mas brincadeiras que coincidiam com aquelas totalmente desconexas do entrudo”, diz Caldas.

Esse processo evolutivo ganha força durante a República Velha, no final do século 19 e primeiras décadas do século 20. É o período das marchinhas de Chiquinha Gonzaga e de compositores como Noel Rosa, Sinhô, Pixinguinha e João da Baiana. No Rio de Janeiro, surgem os blocos tanto nas regiões citadinas quanto nos morros. Nos dias de carnaval, esses blocos se encontravam e havia “confrontos” – não beligerantes, mas de celebração – da cultura popular vinda do morro com aquela dos moradores das classes médias. É dessa forma espontânea que nasce o carnaval.

O presidente Getúlio Vargas, especialmente no período do Estado Novo (1937-1945), institucionaliza o carnaval. “Ele percebe que isso seria politicamente interessante para ele, porque a festa já havia se tornado o principal produto da cultura lúdica da época, como a telenovela é na atualidade”, afirma Caldas. Com fins político-ideológicos, Getúlio coopta as escolas, que passam a receber ajuda governamental – apenas, porém, se os seus enredos fizessem a exaltação dos feitos oficiais. Não por acaso, é a época em que são compostos grandes sambas-exaltação, alguns populares até hoje, como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso (de 1939).

Em O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago descreve o carnaval português de meados da década de 1930 e sublinha as diferenças que o marcavam em relação ao do Brasil. Saramago coloca Reis a observar o corso, o desfile de carros enfeitados: “Estes carros rangem, bamboleiam, pintalgados de figuras, e em cima deles há gente que ri e faz caretas, máscaras de feio e de bonito, atiram com parcimónia serpentinas ao público, saquinhos de milho e feijão que acertando aleijam, e o público retribui com um entusiasmo triste. (…) Ai como é diferente o carnaval em Portugal. Lá nas terras de além e de Cabral (…) desfilam os blocos dançando avenida abaixo, com vidrilhos que parecem diamantes, lantejoilas que fulgem como pedras preciosas, panos que talvez não sejam sedas e cetins mas cobrem e descobrem os corpos como se o fossem”, tudo ao som do “samba terramoto da alma”.

Dinheiro público

O modelo de cooptação das escolas de samba pelo Estado passou por transformações, mas se mantém até hoje. Durante a ditadura militar (1964-1985), algumas escolas enfrentaram problemas por não querer prestar homenagem ao establishment e acabaram censuradas. Já no período da redemocratização houve o famoso episódio da alegoria do Cristo Redentor, proibido de aparecer como mendigo no desfile da Beija-Flor em 1989. O carro saiu mesmo assim, com a imagem coberta por uma lona preta e uma faixa com os dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós”.

As questões político-ideológicas sempre permearam o carnaval, considera o professor da ECA. A partir dos anos 50 há algumas concessões e aberturas que o próprio Vargas é obrigado a aceitar por conta de seu retorno como presidente eleito democraticamente. Mesmo com a censura, porém, nunca deixou de haver espaço para o escracho e para a crítica às questões políticas e sociais. O samba Lata d’água na cabeça é um exemplo claro, aponta Caldas. A letra (“Lata d’água na cabeça/ Lá vai Maria/ Sobe o morro e não se cansa/ pela mão leva a criança/ lá vai Maria/ Maria lava a roupa lá no alto/ Lutando pelo pão de cada dia/ Sonhando com a vida do asfalto/ Que acaba onde o morro principia”) tem um texto político fantástico que denuncia a miséria dos morros e o pouco caso do Estado em relação à periferia, considera o professor.

As escolas também continuam recebendo recursos públicos. É comum que Estados ou regiões usem verba oficial para encomendar enredos exaltando belezas naturais ou episódios históricos. Para o professor, é um ato legítimo dos governos, que podem utilizar essas verbas da mesma forma que os recursos para publicidade na mídia. Patrocinados ou não, os enredos não se furtam a mostrar a exuberância da criatividade dos compositores e carnavalescos, que conseguem fazer sambas nos quais se misturam em poucas estrofes o antigo Egito com as cataratas do Iguaçu, tudo rimando com “Sapucaí” ou “nossa escola brilhando na avenida”.

Nada escapa

As festas de rua nunca deixaram de existir. Houve períodos de baixa dos blocos, alguns desapareceram e outros foram criados, mas esse tipo de grupo se manteve. Nos últimos anos, especialmente no Rio de Janeiro, os blocos têm ressurgido com força e levado multidões às ruas, enquanto em São Paulo esse movimento também existe, mas vem enfrentando problemas (leia texto ao lado). Para Waldenyr Caldas, a nova força dos blocos inevitavelmente fará com que eles sejam “engolidos” pela força dos patrocínios e do marketing – se é que muitos já não o foram. “Nada escapa aos grandes olhos da indústria cultural”, diz o professor.

Por essa, entre tantas razões, defende Caldas, o saudosismo e a nostalgia não têm lugar quando se fala em carnaval e nas demais manifestações da indústria cultural – também no esporte. Em 1994, antes da Copa do Mundo dos Estados Unidos, a TV Bandeirantes reprisou na íntegra todos os jogos do Brasil na Copa de 1970 – afinal, eram 24 anos de jejum. Tostão, que retornava ao futebol como comentarista da Band, analisou os jogos e apontou alguns defeitos e problemas táticos e técnicos na seleção tricampeã no México. Foi uma espécie de autocrítica surpreendente a uma seleção – da qual ele mesmo fez parte – que a carência de títulos fazia sobreviver no imaginário como time perfeito. Vistos décadas depois, os jogos da Copa de 70 parecem futebol jogado em câmera lenta. O mesmo se pode dizer das disputas que marcaram a primeira geração do vôlei brasileiro a disputar títulos importantes, no início dos anos 80.

“As táticas, o preparo físico, a técnica, os uniformes, tudo mudou. No carnaval essa transformação também continua em curso. Em 2050 o carnaval não será o mesmo de hoje. Nada é estático”, compara Waldenyr Caldas. “Os românticos e nostálgicos gostam de dizer que o passado é que era bom. Mas o tempo bom é o tempo presente.”

Dificuldades para pôr o bloco na rua

Enquanto a Prefeitura do Rio de Janeiro anuncia medidas para disciplinar os desfiles dos blocos de rua – estabelecendo horários e locais para que vários desfiles não juntem multidões ao mesmo tempo e aumentando o número de banheiros químicos para facilitar os alívios fisiológicos dos foliões –, em São Paulo as restrições impostas pelos órgãos públicos criam dificuldades para que esses grupos continuem mantendo vivas as tradições dos antigos carnavais.

“Já ouvi de técnicos e políticos que São Paulo é uma cidade complexa e que não comporta mais esse tipo de coisa”, diz Rigomar Barbosa, o professor Manaus, um dos fundadores do Bantantã, que desde 1979 sai pelas ruas das imediações da USP – alunos, funcionários e professores da Universidade, por sinal, estão na origem do grupo. Que São Paulo é de fato uma cidade complexa ninguém discute, mas ainda assim ela segue abrigando megashows, grandes marchas que reúnem de religiosos a grupos GLBTT e, mais recentemente, até uma corrida de Fórmula Indy que interditou parte da Marginal Tietê em plena segunda-feira. “Não nos opomos, todos têm direito, e nós também. Nós só queremos brincar o carnaval na rua uma vez por ano”, afirma Barbosa.

Às dificuldades impostas pelos órgãos públicos – restrições de horário e de itinerário, proibição de venda de bebidas alcoólicas etc. – se juntam, em alguns casos, resistências dos próprios moradores. É o que aconteceu com o bloco Grande Família, criado há 30 anos no Itaim Bibi. “Ficamos lá por vários anos, mas o Itaim e a Vila Olímpia se transformaram drasticamente e acabamos sendo empurrados para fora, por iniciativas de associações de moradores”, conta Atílio Alves de Souza, fundador da agremiação e vice-presidente da Associação das Bandas e Blocos Carnavalescos de São Paulo (Abasp). Depois de sair alguns anos na Vila Madalena, o Grande Família passou por bairros como Tatuapé e Brooklin, e neste ano desfilou na avenida Engenheiro Caetano Álvares, na zona norte. “Fomos muito bem recebidos lá. Achamos que vamos crescer ali, que é uma comunidade de bairros mais carentes. Queremos inclusive fazer um trabalho social.”

Se em alguns locais, como a Vila Madalena, tem crescido o número de festas de rua no carnaval, em muitos bairros a situação é inversa. “Trabalhamos com cada vez mais dificuldade. O carnaval de rua está meio que morrendo”, diz Souza. O bloco já teve mais de 10 mil participantes, mas saiu neste ano, no primeiro sábado de fevereiro, com cerca de 500 pessoas. Também faltou a banda de sopros e metais para executar as marchinhas tradicionais. No trio elétrico, que acompanha os desfiles desde 1983, revezaram-se grupos que tocaram principalmente pagode, axé e sertanejo.

Poucos dias antes da saída do bloco, no dia 10 – depois do fechamento da edição do Jornal da USP –, o Bantantã ainda não tinha a autorização da Prefeitura. O mesmo ocorreu no ano passado, quando o desfile foi amparado por liminar na Justiça. Mas Rigomar Barbosa garantia que colocaria o bloco na rua. “Temos uma história bonita de lutas, que remete à época da redemocratização do País e é uma reminiscência cultural da antiga boêmia da Valdemar Ferreira”, diz o professor Manaus. “Mas é possível que o pessoal da Prefeitura esteja lá e sejamos surpreendidos por situações inesperadas. Não sei se vou ser preso e algemado por querer brincar o carnaval.”

A fiscalização da venda de bebidas alcoólicas tem aumentado, mas Barbosa lamenta que o comércio no entorno e até a presença de traficantes que se infiltram no desfile não são coibidos. Para o professor, “a Bantantã chama para caminhar juntos na perspectiva da sociedade mais comunitária”. “A gente defende o carnaval como cultura popular, se contrapondo ao carnaval das quatro paredes, televisivo, que visa ao lucro, em que as pessoas aplaudem e não participam”, afirma.

“A Bantantã, ao contrário, resiste na luta pela volta dos carnavais de rua, onde as pessoas se juntam de forma espontânea e são incentivadas a sair pela rua chamando gente humilde para brincar”, diz. “Aí vem a ordem institucional e cria todo tipo de obstáculos. Nós, como simples cidadãos defensores do Estado de Direito, respeitamos, mas a toda hora surgem novos obstáculos.”

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