Laboratório do IFSC investiga resistência de superbactérias

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Da Assessoria de Comunicação do IFSC

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Foto: Divulgação

O Laboratório de Epidemiologia e Microbiologia Molecular (LEMiMo) do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP desenvolve pesquisas para desvendar o mecanismo de resistência de algumas bactérias multirresistentes encontradas em hospitais brasileiros. Os trabalhos tiveram como base amostras de Staphylococcus aureus, Enterococcus faecalis e Enterococcus faecium, enviadas por hospitais de São Paulo e Minas Gerais. Coube ao LEMiMo, coordenado pela professora Ilana Lopes Baratella Cunha Camargo, caracterizar as amostras para identificar as diferentes linhagens e detectar as bactérias multirresistentes presentes.

“O principal objetivo de nosso trabalho foi classificar as linhagens e clones das bactérias encontradas nas amostras para identificar se houve disseminação no hospital. Também determinamos a concentração inibitória mínima para vários antimicrobianos disponíveis no mercado para saber a qual deles as bactérias podem ser resistentes”, explica a professora.

Todas as amostras analisadas pelo LEMiMo foram de pacientes que estavam internados nos hospitais e apresentaram infecções em alguma região do corpo. No caso de um hospital de Belo Horizonte, foi feita uma vigilância epidemiológica pelo hospital, quando suabes coletaram amostras nas axilas, nariz ou ânus de pacientes para verificação de colonização por enterococos resistentes à vancomicina e Staphylococcus aureus resistentes à oxacilina. “A intenção é justamente encontrar bactérias multirresistentes que estão colonizando esses pacientes e tentar isolá-los dos pacientes não colonizados para minimizar a disseminação destas bactérias entre os pacientes neste hospital”, conta Ilana.

Uma surpresa nos resultados foi justamente encontrar bactérias resistentes até mesmo aos antimicrobianos que ainda não estavam em uso pelo hospital, o que gera uma preocupação ainda maior com a disseminação das mesmas. “No Brasil, a daptomicina foi aprovada pela Anvisa em 2008, e a tigeciclina em 2005, ou seja, são dois antimicrobianos considerado novos, e já temos bactérias resistentes a eles, o que é realmente preocupante, pois nas amostras que analisamos, as superbactérias encontradas já eram resistentes sem nem mesmo terem contato direto ou serem selecionadas pelo fármaco”, conta Ilana. “Embora seja algo raro, encontramos bactérias resistentes a esses medicamentos”.

Mecanismo de resistência

Para entender esse fato, outro estudo realizado no LEMiMo tratou de avaliar quais os mecanismos de resistência desenvolvidos por estas superbactérias raras. Os resultados ainda não estão completamente claros, mas Ilana acredita que a causa tenha sido mutações ocorridas nos genes das bactérias. A certeza só será conseguida após a finalização do sequenciamento do genoma dessas bactérias que Ilana e sua equipe estão realizando no LEMiMo. Após o sequenciamento, por comparação entre as bactérias sensíveis e resistentes de mesma linhagem, será possível encontrar as diferenças e verificar se tais diferenças estão relacionadas às resistências descritas. Nas análises também serão testados todos os antimicrobianos já existentes para se descobrir, inclusive, alternativas de tratamento às superbactérias encontradas.

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Foto:Marcos Santos / USP Imagens

Estas bactérias também servirão para o estudo no Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), centro de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que é coordenado pelo também docente e pesquisador do IFSC, Glaucius Oliva. Através das características encontradas nestas bactérias estudadas pelo LEMiMo, pesquisadores do CIBFar poderão propor novos antimicrobianos para combatê-las. Em razão dos estudos descritos anteriormente, o LEMiMo conseguiu ter um projeto contemplado na modalidade Pesquisador Visitante Especial no programa Ciência sem Fronteiras. Por esse motivo, o pesquisador da Universidade de Harvard (Estados Unidos), Michael Gilmore , será um dos colaboradores das pesquisa realizadas no LEMiMo, e durante os próximos três anos, tempo de duração do projeto, fará visitas esporádicas ao referido laboratório.

Sua contribuição será relacionada ao sequenciamento do genoma das superbactérias, que serão feitas paralelamente no laboratório brasileiro e estadunidense. “No momento, ainda estamos aprendendo como utilizar essa tecnologia, enquanto em Harvard eles já a dominam há algum tempo”, conta Ilana. Além disso, doutorandos do LEMiMo poderão realizar parte de seu doutorado no Department of Ophthalmology (Microbiology and Immunobiology) de Harvard, que é coordenado por Gilmore, podendo, dessa forma, ter o know-how para o sequenciamento gênico e análises das sequências das superbactérias e trazê-lo ao Brasil.

Para aqueles que estiverem interessados em saber mais sobre a técnica de sequenciamento gênico e sua aplicação, Gilmore participará do Café com Física no próximo dia 29 de outubro, às 16h30, na sala Celeste no prédio do IFSC, localizado no Campus I da USP, em São Carlos (Av. Trabalhador São-Carlense, 400, São Carlos) e proferirá um seminário sobre o tema. No dia 5 de novembro, Gilmore realizará outra palestra intitulada “Emergence of epidemic multi-drug resistant Enterococcus faecium from animal and commensal strains” na sala 101, piso 1, no prédio do IFSC no Campus II da USP, em São Carlos (Av. João Dagnone, 1.100, São Carlos). Os seminários são gratuitos e todos estão convidados a participar.

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