Estudo da FMRP relaciona ansiedade com síndrome da hipermobilidade articular

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Rosemeire Soares Talamone / Serviço de Comunicação da Prefeitura do Campus de Ribeirão Preto

Mulheres são mais afetadas pela chamada Síndrome da Hipermobilidade Articular. Este quadro pode ser observado em pessoas com grande amplitude das articulações, associada a vários outros sintomas, como dores articulares, lesões musculares, deslocamentos, alteração da pele, hérnias. Essa é apenas parte de uma pesquisa inédita no Brasil, realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, e que inicialmente avaliou a associação entre a ansiedade e a Hipermobilidade Articular. Segundo a autora do estudo, a psicóloga Simone Bianchi Sanches, nem todos que têm a Síndrome têm ansiedade, mas essas pessoas podem ser mais propensas a apresentar sintomas ou quadros ansiosos.

A Hipermobilidade Articular isoladamente pode até ser vantajosa para as pessoas, em atividades específicas (como a ginástica e a dança), ou seja, algumas têm mais facilidade para essas atividades por serem consideradas “mais flexíveis”. Contudo, os resultados do estudo apontaram, principalmente, para a importância de se diferenciar a Hipermobilidade Articular da Síndrome da Hipermobilidade Articular.

Simone justifica a importância da diferenciação entre os dois casos, pois seu estudo indicou que a ansiedade está mais associada à Síndrome. A pesquisa foi composta de cinco estudos, sendo uma revisão sistemática da literatura internacional sobre o tema e quatro estudos com diferentes grupos de pessoas: estudantes universitários, bailarinas e um grupo de famílias com alta frequência de hipermobilidade e ansiedade, o que ajudou a avaliar também a importância dos fatores familiares nessa associação. Os achados, diz Simone, também indicaram que as características mais frequentes na Síndrome da Hipermobilidade Articular também aparecem como sintomas autonômicos da ansiedade: tontura, sensação de desmaio e alterações gastrointestinais, por exemplo.

A pesquisadora acompanhou e avaliou durante um ano e meio 145 bailarinas, divididas em três grupos: 59 alunas de balé, 37 professoras de balé e 49 bailarinas profissionais. Vinham de 10 escolas de balé e de cinco das principais companhias de dança do País: O Balé do Teatro Guaíra (Curitiba, Paraná); São Paulo Cia de Dança e Balé da Cidade de São Paulo (ambas de São Paulo); Cia Jovem do Bolshoi do Brasil (de Joinville, São Catarina); e Grupo Corpo (Belo Horizonte, Minas Gerais).

Hipermobilidade

Os resultados mostraram que as bailarinas profissionais apresentam mais sinais de Hipermobilidade, enquanto as professoras de balé relataram mais sintomas da Síndrome, como lesões e dores. “A inclusão das bailarinas permitiu avaliar um grupo em que se espera encontrar muitas pessoas com hipermobilidade; além disso, a decisão de incluir mulheres em diferentes etapas da carreira no balé permitiu avaliar a interferência dos sintomas na Síndrome da Hipermobilidade articular ao longo da trajetória profissional como bailarina”, reafirma a pesquisadora.

O estudo incluiu ainda os dados de um grupo de 2,3 mil estudantes, de ambos os sexos, com idade entre 17 e 35 anos, de duas universidades brasileiras. “Esse grupo nos deu a chance de estudar pessoas que têm as características bem parecidas com a da população em geral”. Ainda desse grupo de estudantes foi retirada uma amostra com 87 estudantes, divididos em dois grupos. Um, com a presença de Transtorno de Ansiedade Social (TAS) e outro, com ausência de TAS.

No geral, esse estudo, diz Simone, confirmou informações que já têm sido descritas em outros estudos internacionais. “Já se sabia que as mulheres tendem a ser mais ansiosas e mais hipermóveis. Com esses grupos, conseguimos confirmar que essa associação tende a ser mais forte entre as mulheres do que entre os homens. Mulheres hipermóveis apresentaram correlação entre ansiedade e Hipermobilidade articular, especialmente a sintomatologia autonômica da ansiedade (tonturas e sintomas gastrointestinais). Além disso, a associação parece ser mais forte com sintomas de pânico do que ansiedade social”, relata.

Para avaliar a importância do fator familiar nessa associação, foram também analisados os dados de sete famílias com alta frequência de ansiedade e Síndrome da Hipermobilidade Articular. “Essas famílias foram avaliadas em dois momentos; a segunda avaliação aconteceu oito anos após a primeira e nos deu a chance de olhar para o ‘caminho’ ou ‘trajetória’ dessa associação entre ansiedade e Síndrome da Hipermobilidade Articular”. Na primeira avaliação, foram incluídos 156 participantes. Na segunda avaliação, 98 pessoas desse grupo inicial aceitaram participar novamente do estudo e foram reavaliadas. Nesse grupo, o que chamou a atenção da pesquisadora foi o fato de que aqueles participantes com a Síndrome no início do estudo apresentaram um risco aumentado para a incidência de ansiedade. Ou seja, ao longo dos oito anos de seguimento, novos “casos” de ansiedade (especialmente pânico e fobia simples) foram mais frequentes entre aqueles que apresentaram critério positivo para a Síndrome no início do estudo.

Na revisão de literatura, foram analisados 17 artigos. A maioria deles trazia resultados, associando os sintomas da ansiedade e a Hipermobilidade Articular. Os estudos foram realizados com populações mediterrâneas, não havendo ainda dados com participantes brasileiros.  “As pesquisas ajudaram a ampliar o conhecimento da Síndrome e a associação com outros sintomas, ainda pouco conhecidos, como sendo parte desse quadro clínico”, conclui a pesquisadora.  A pesquisa de doutorado Associação entre ansiedade e hipermobilidade articular: estudos com diferentes amostras foi defendida no mês de setembro no Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento, na FMRP, com orientação da professora Rocío Martín-Santos (Universidade de Barcelona) e coorientação do professor José Alexandre Crippa e da professora. Flávia de Lima Osório.

Mais informações: (16) 3602-2201

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