Estudo da FE investiga produção científica sobre cinema brasileiro

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Valéria Dias / Agência USP de Notícias

Na Faculdade de Educação (FE) da USP, uma pesquisa buscou analisar os cadernos publicados nos encontros da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e do Audiovisual (Socine). O objetivo foi o de verificar quais são os temas abordados pela produção científica no Brasil ligadas ao cinema brasileiro. De 1996 a 2012, foram realizados um total de 17 encontros, sendo um a cada ano e em cidades diferentes. A Socine foi criada em 1995 para mapear a produção de cinema no Brasil.

“A Socine produz um caderno (anais) a cada encontro, contendo todas as inscrições realizadas, bem como os resumos dos trabalhos científicos apresentados. Posteriormente, eles produzem um livro com esse material”, explica a professora universitária Suely Silva, autora da tese de doutorado A Socine e a produção do conhecimento em cinema brasileiro: de 1996 a 2012, defendida em dezembro de 2013, na FE, sob a orientação do professor Afrânio Catani.

Suely conta que uma das primeiras coisas que percebeu foi uma ausência de preocupação em conservar a memória. “Na sede da Socine não consegui encontrar todos os cadernos publicados”, diz. Ela conta que o órgão não tem sede própria e funciona, atualmente, de modo provisório, na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Segundo Suely, os cadernos estavam espalhados, e em edições variadas: 3 estavam na FE, 7 na ECA, 3 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), e 8 na Cinemateca Brasileira.

Para conseguir todos os exemplares, a pesquisadora consultou o site Estante Virtual, uma plataforma online que abriga sebos e livreiros de todo o País e também ficou seis meses catalogando em bibliotecas de vários estados. Atualmente, esses livros foram digitalizados e estão disponíveis para consulta online no site da Socine.

Ao analisar o material, Suely constatou que há uma tendência a se pesquisar mais o cinema de ficção em relação ao documentário e que as pesquisas que envolvem cinema de animação são incipientes. Ela também encontrou muitos artigos com críticas ao cinema brasileiro. Outros temas abordados são: a cultura e a utilização do corpo; a relação entre literatura e cinema; o modo como ocorreu a construção do cinema brasileiro; os estudos históricos e a análise de filmes; as questões de gênero, ligadas ao feminino; e a pornochanchada. Ela encontrou também artigos de pesquisadores da área de ciências sociais sobre o Mazzaropi. Outros temas foram: melodrama, culturalidade, estudos de imagens, sons e violência e suas relações com cinema.

Interdisciplinaridade

Para a pesquisadora, o formato dos Encontros da Socine é bastante democrático, pois reúne pesquisadores de várias áreas do conhecimento, e de todas as idades e gerações, interessados em cinema. “A maioria tem formação em comunicação social e jornalismo, mas encontrei muitos com formação variada como medicina, direito, letras, filosofia, arquitetura e educação.”

Outro dado verificado é em relação ao número de cursos de graduação oferecidos entre 1996 e 2012. Em 1996, existiam 14 cursos de graduação em cinema; em 2012, 60 já haviam sido aprovados para funcionamento.

Suely também buscou elementos para sustentar a tese de que o surgimento da Socine coincide com a redemocratização do País mais favorável à produção de bens simbólicos, como é o caso do filme e do audiovisual. A tese comprova que a produção cinematográfica brasileira não pára de crescer, o que ajuda a firmar o setor no mercado: em 1975, foram finalizados 12 filmes; em 2012, 83.

Blockbusters

“O brasileiro está sendo cada vez mais retratado no cinema, novos diretores passaram a diversificar as temáticas roteirizadas e filmadas, deixando a “estética da fome”, onde somente se falava sobre miséria, e agora há produções de diversos gêneros”, aponta. Ela destaca a importância que as comédias desempenharam neste processo. “O filme “De Pernas Para o Ar” concorreu com os chamados “blockbusters” [grandes produções cinematográficas norteamericanas] e fez um milhão de espectadores com uma semana em cartaz”, lembra a pesquisadora.

Ela diz que o espectador acostumado com a estética hollywoodiana presente nos filmes blockbusters (alto investimento em computação, efeitos especiais e som alto) acaba cansando. “Registra-se nova abertura a outras cinematografias, européias e asiáticas, por exemplo, e gradativamente ocorre um movimento de valorização das produções brasileiras, e cresce também as co-produções”, diz.

A tese destaca o crescente espaço ao cinema brasileiro tanto nos encontros que a Socine vem realizando quanto nas pesquisas sobre as quais os investigadores se debruçam. “Essa consolidação ancora a produção do conhecimento sobre cinema no Brasil e a produção da cultura brasileira, além de impactar na educação”, finaliza.

Mais informações: email suelysilvausp@gmail.com, com a pesquisadora Suely Silva

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