Encontro debate os impactos da academia, desde as origens

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Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Roberto C. G. Castro / Jornal da USP

No quarto e último encontro do ciclo de debates A USP e a Sociedade, o professor Eduardo Krieger destacou grandes contribuições da USP para a sociedade – como a descoberta da bradicinina – e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou a importância da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras para a ciência brasileira

A descoberta da bradicinina – um vasodilatador que forma a base dos remédios hoje utilizados para combater a pressão alta – é um dos grandes exemplos de ciência gerada na USP que trouxe enormes benefícios para a sociedade. Foi o que disse o professor Eduardo Moacyr Krieger, ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e hoje vice-presidente da Fapesp, durante o quarto encontro do ciclo de debates A USP e a Sociedade, realizado no dia 24 de novembro, na sala do Conselho Universitário da USP.

Com a presença do reitor Marco Antonio Zago e a coordenação do professor Celso Lafer, docente da Faculdade de Direito (FD) da USP e presidente da Fapesp, o evento teve a participação do ex-presidente da República e professor aposentado da USP Fernando Henrique Cardoso e do ex-reitor da USP José Goldemberg, além de Krieger. Com o tema “USP como geradora de conhecimento em padrão de excelência”, o encontro foi o último do ciclo A USP e a Sociedade, que comemorou os 80 anos da USP e promoveu quatro eventos voltados para debater as relações entre a Universidade e a sociedade.

Professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e também especialista em mecanismos de regulação da pressão arterial, Krieger destacou o trabalho pioneiro do farmacologista Maurício Oscar Rocha e Silva, que em 1949 – primeiro no Instituto Biológico e depois na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP – descobriu o potencial terapêutico da bradicinina. “Esse é um exemplo emblemático de algo que a USP fez e provocou tremendo impacto na sociedade”, disse. “Dificilmente alguém que tem pressão alta deixa de tomar remédios derivados dessa descoberta feita na USP.”

Foto: Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Krieger constatou que, embora a quantidade de artigos tenha aumentado, chegando a 41.300 papers em 2012, o impacto da produção científica não acompanhou esse crescimento. No quesito impacto, o Brasil ocupa a 23ª posição no mundo, citou, defendendo a importância de ampliar este indicador. E a estratégia mais eficiente para conseguir esse objetivo, acrescentou, é a cooperação internacional. “Há uma relação direta entre impacto e colaboração internacional”, analisou.

Há uma relação direta entre impacto e colaboração internacional.

Krieger deu sugestões para aumentar o impacto da pesquisa produzida na USP. Disse que as políticas de expansão do sistema de pesquisa e de fortalecimento dos núcleos já existentes devem ser complementares, mas distintas. “Temos que diferenciar as duas coisas. Precisamos ter políticas para a expansão e políticas para a concentração”, propôs.

Por fim, o pesquisador destacou a importância de promover a interdisciplinaridade. “Ciência de qualidade hoje é interdisciplinar”, insistiu o professor. Ele sugeriu ainda a incorporação de pós-doutores nos grupos de pesquisa. Para ele, o projeto de pesquisa para doutor é um “treinamento”, deve ter começo, meio e fim e não pode ser arriscado, ambicioso. “Já um projeto de pós-doutorado está na vanguarda da ciência”, afirmou.

Método

O professor e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez menção às origens da USP – fundada em 1934 – para explicar o impacto da Universidade na ciência brasileira. Ele lembrou que, ao entrar na USP em 1949, com 17 anos, verificou que ali se buscava introduzir na Universidade um método de fazer ciência, que se distanciava do estilo “ensaístico” característico da obra de autores como Gilberto Freyre, com Casa Grande e Senzala, e Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil. “Mais do que conteúdo, aprendia-se o método: o que perguntar, como perguntar, que passos dar para chegar a responder às perguntas que estão sendo propostas”, lembrou Fernando Henrique Cardoso.

Para o professor, a introdução desse rigor científico nas ciências humanas representou uma conquista importante da Universidade, que também exerceu forte impacto na sociedade. “A excelência do trabalho realizado na USP veio dessa busca por utilizar métodos mais rigorosos para fazer análise de problemas de ordem social.”

A excelência veio dessa busca por utilizar métodos mais rigorosos para fazer análise de problemas de ordem social.

Discutindo o impacto da ciência feita na USP, Fernando Henrique Cardoso destacou que não há como avançar nesse sentido sem a interdisciplinaridade – que, segundo ele, é uma característica marcante da Universidade desde sua fundação, quando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) integrava professores e alunos de diferentes áreas, da sociologia à filosofia, passando pela matemática, economia, física e química. “A USP já nasceu integrando.”

Fronteiras

O professor José Goldemberg também se referiu às origens da USP ao falar sobre o impacto da pesquisa da USP na área tecnológica. Lembrou que, já naquela época, ficou embutida no “DNA” da Universidade a busca pela fronteira da ciência. Na área da física, o professor Gleb Wataghin – que foi discípulo de Enrico Fermi, Prêmio Nobel de Física de 1938 – publicava artigos no exterior e formou uma geração inteira de físicos brilhantes, como César Lattes, Oscar Sala, Mário Schenberg e Marcelo Damy. “Quando eu entrei na USP, percebi que existia uma noção clara de onde estava a vanguarda da ciência, uma característica essencial do cientista”, disse Goldemberg. “Essa tradição permeia a vida dos setores da USP e se tornou permanente.”

A Universidade detém o conhecimento, mas os programas e as políticas têm que vir do governo e da sociedade.

Para Goldemberg, faltam políticas macroeconômicas voltadas para o desenvolvimento científico e tecnológico, que demandem o conhecimento gerado na Universidade. “O argumento de que a USP se isola é canhestro. Não somos nós que nos isolamos. É que ninguém nos procura.” Ainda de acordo com o professor, sempre que a Universidade foi solicitada, ela correspondeu plenamente às expectativas. Exemplos disso foram as políticas voltadas para o desenvolvimento do plantio de soja e para a produção de combustíveis a partir de biomassa, como o etanol. A participação da Universidade foi essencial para o sucesso das duas iniciativas. “A Universidade detém o conhecimento, mas os programas e as políticas têm que vir do governo e da sociedade.”

Leia mais informações sobre este evento na próxima edição do Jornal da USP, que circulará a partir do dia 1º de dezembro.

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