Pesquisa do ICB busca compreender processo de reparo de DNA

Pesquisas podem ajudar pacientes com câncer e com uma condição rara chamada xerodermia pigmentosa | Foto: Wikimedia

Quando seu DNA sofre uma lesão, ele se repara, e o bom funcionamento deste processo é essencial, como revela o professor Carlos Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

Desde 1988, Menck conduz no ICB estudos sobre o assunto. Seu grupo conta com uma equipe de cerca de 20 pesquisadores, entre alunos de iniciação científica, pós-graduandos, e pós-doutorandos, que fazem análises principalmente de células retiradas de pacientes com xeroderma pigmentoso – uma das condições mais estudadas pelo grupo e pelo professor.

A doença consiste em uma deficiência na capacidade do organismo em reparar lesões causadas pelos raios ultravioleta à pele dos pacientes, aumentando a probabilidade de ocorrência de câncer de pele. A condição, apesar de grave, é rara. “Uma a cada 200 mil pessoas sofre dessa doença”, conta o docente.

Para exemplificar a diferença fundamental do funcionamento dos mecanismos entre quem tem e quem não tem xerodermia, o professor dá um exemplo comum de lesão de DNA: “quando se vai à praia, a pele se queima porque o sol está lesando o DNA, então as células da epiderme morrem e a pele começa a descascar”, descreve. “Já em pacientes com xerodermia, as lesões não são reparadas”.

Buscando compreender o funcionamento do mecanismo nestes últimos, o grupo utiliza algumas amostras de pacientes brasileiros, trabalho que a equipe desenvolve há cerca de sete anos, quando foi descoberta em Goiás uma comunidade isolada com cerca de 20 pessoas sofrendo da doença.

De acordo com o professor, através das pesquisas no ICB já foram identificadas quatro mutações em três famílias de pacientes – passo importante para tentar compreender o motivo que leva o portador desta condição a ter mais probabilidade de desenvolver um câncer. “Nós acreditamos que já temos parte da resposta”, avalia.

Filtro solar especial

O grupo de pesquisadores desenvolveu um equipamento capaz de determinar o nível das lesões causadas pela exposição ao sol e buscar preveni-las. “É possível medir a capacidade de proteger as células do sol e aplicar isso em um filtro solar”, explica o pesquisador, que já realizou o pedido de patente para a descoberta. Ele ressalva, porém, que esse será um trabalho com resultados para médio e longo prazo, mas que está em curso.

Um dos maiores avanços alcançados pelo grupo do professor Menck para o tratamento de pacientes com xerodermia pigmentosa foi a criação de um vetor para tratamento gênico, mas ele ainda enfrenta problemas. “O vetor funciona muito bem, mas apenas uma vez”, descreve. “Por ser viral, o sistema imunológico só deixa que ele tenha efeito por cerca de dois meses”. Apesar dos grandes esforços em pesquisas na área, poucos avanços foram feitos para a resolução desta problemática. Entretanto, Menk se mostra confiante: “nós não somos os únicos no mundo buscando essa solução”, lembra.

Carlos Menk | Foto: CEGH/ICB

Outra condição enfrentada por alguns pacientes com xerodermia pigmentosa é o envelhecimento precoce e a neurodegeneração. “Alguns pacientes chegam a morrer antes de completar 10 anos”, conta o docente. A partir do estudo da condição destes pacientes, ele busca compreender e retardar o envelhecimento humano. “Atualmente já está estabelecido que isso é ligado ao fato de haver mais ou menos lesões no DNA”, esclarece.

Apesar do foco da pesquisa de Carlos Menck serem as células humanas, o pesquisador também realiza diversos estudos com bactérias, buscando entender melhor o funcionamento dos mecanismos de reparo do DNA. “Nós temos genes parecidos justamente aos genes de bactérias que servem para a manutenção da estrutura da molécula do DNA”, explica.

Quimioterapia suavizada

Em outra linha de pesquisa, o professor estuda casos de câncer gerados por lesões do DNA – o que pode acontecer de várias formas. “O fumo, por exemplo, lesa o DNA e causa câncer”, conta o professor, explicando que origem desses tumores não são as lesões em si, mas sim a falta de reparo delas: “o reparo de DNA é o que nos protege do câncer”.

O docente tem estudado a possibilidade de recorrer à terapias gênicas capazes de ajudar neste processo de reparo, ajudando na prevenção dos casos de câncer. O processo ainda está em fase inicial de testes: a terapia já foi testada, mas sua aplicação dura apenas uma vez, por cerca de uma semana, já que o sistema imunológico bloqueia a segunda aplicação.

O professor adverte que o reparo de DNA nem sempre é algo favorável ao paciente que já apresenta câncer, como no caso dos efeitos colaterais derivados do uso de quimioterápicos. “A medicação lesa o DNA e causa a morte das células cancerosas, mas elas não lesam apenas o DNA das células cancerosas,  como também de outras células, causando problemas”, explica. Neste caso, o reparo de DNA joga contra o paciente: “o reparo de DNA protege as células cancerígenas das lesões causadas pela medicação, então são necessárias altas doses de quimioterápicos para matar as células”.

Para minimizar esses problemas, busca-se inibir especificamente no tumor o sistema de reparo de DNA, o que dispenderia menos medicação, diminuindo assim as lesões causadas pelos quimioterápicos. A pesquisa encontra-se em fase pré-clínica, ainda sem a realização de testes – o professor, contudo, se mostra confiante: “os avanços são lentos, mas nós estamos caminhando”.

Mais informações: (11) 3091 7423, site www3.icb.usp.br/corpoeditorial