Ação voluntária do HU completa 11 anos e busca novos colaboradores

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Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Na primeira vez em que visitou o jovem Afonso, de apenas 15 anos, internado no Hospital do Câncer, dona Magdalena Felippelli Veiga notou que o quarto estava cheio de adereços e penduricalhos referentes ao Palmeiras. O futebol, então, foi o caminho que ela escolheu para interagir com o rapaz. “Nós nos apegamos muito e eu sempre falava que um dia ia levá-lo para assistir a um jogo”, relembra. Ao chegar para mais uma visita, dona Magdalena soube pelo médico que Afonso estava piorando bastante e que, se ela realmente quisesse levá-lo ao estádio, era melhor se apressar.

“Eu disse: ‘Doutor, tem jogo do Palmeiras hoje à noite no Pacaembu. Posso ir com ele?’. O médico autorizou e eu juntei meu sobrinho, meus vizinhos, todos palmeirenses, e fomos ver o jogo”, conta. Dona Magdalena não esquece a emoção e a alegria do garoto ao vislumbrar as arquibancadas do Pacaembu – a vitória do alviverde por 4 x 1 sobre o Santos também ajudou. Não muito tempo depois, um telefonema do hospital a avisou que Afonso havia falecido. “Fiquei muito triste. Isso acaba com a gente. Mas continuei na batalha.”

Essa batalha, que a dona de casa começou em 1979 no Hospital do Câncer e passou pelo Hospital São Paulo, encontrou em 2001 um novo campo. Dona Magdalena foi uma das pioneiras a ingressar na Ação Voluntária do Hospital Universitário (HU) da USP, que completou 11 anos no último dia 15. Uma semana antes, a voluntária comemorou 79 anos de idade. Durante algum tempo ela conseguiu conciliar o trabalho no HU com o Hospital São Paulo, mas ultimamente tem doado seu tempo somente à instituição da USP. “Há 30 anos eu tinha mais fôlego”, brinca. “Mas enquanto Deus me der força eu continuo vindo aqui.”

Acolhimento

A Ação Voluntária do HU, vinculada ao Serviço Social, não existe para substituir as tarefas próprias do pessoal especializado, explicam suas coordenadoras. A ideia é auxiliar, por exemplo, os pacientes que chegam desacompanhados ao pronto-socorro e têm dificuldade em se orientar dentro do hospital. “O voluntário leva para fazer um exame e traz de volta, conversa com a pessoa etc. Enquanto isso, os funcionários podem continuar fazendo seu trabalho”, diz Ana Maria Chagas Pedrosa, administradora de empresas que, desde a aposentadoria, dedica parte do seu tempo ao voluntariado.

“Se há alguém ao lado dando um acolhimento, a pessoa já se sente um pouco mais protegida”, completa Zilda Maria Zapparoli. Zilda também se integrou ao serviço após se aposentar como professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, onde ainda atua na pós-graduação. A necessidade do hospital, como constatam as duas coordenadoras, de fato é grande. O HU é centro de referência na região do Butantã, englobando uma população de cerca de 400 mil pessoas. Só em 2010, realizou quase 12 mil internações, mais de 253 mil atendimentos de emergência e 138 mil consultas ambulatoriais.

Em pelo menos um setor a Ação Voluntária é dirigida especialmente para os funcionários: uma biblioteca com cerca de 3 mil volumes funciona na área de convivência dos servidores. Ali, nas trocas de turno do almoço e jantar, os funcionários podem ler ou retirar livros. “O último lugar em que eu queria ficar era na biblioteca”, conta Wilson Santana, voluntário há seis anos. “Mas na terceira vez que vim, percebi por que estava aqui: para fazer a informatização do acervo, ainda todo em fichas de papel, e por causa do contato com as pessoas.”

Esse contato, que muitas vezes começa com um pedido de indicação de leitura, acaba evoluindo para conversas mais profundas e intensas com os funcionários que procuram a biblioteca. “Você percebe uma transformação em si mesmo, uma mudança de valores, quando serve”, diz Santana, para tentar explicar o ganho no trabalho voluntário. Agora que a informatização está praticamente concluída – Santana fez parte do trabalho em sua casa, quando a biblioteca ainda não possuía computador –, o voluntário foi convidado para trabalhar em outro setor, diretamente com os pacientes.

Necessidade

Circulando pelos quartos e corredores da Clínica Médica, Marta Cristina Guerra Trigo vai colecionando histórias e amizades com seu sorriso cativante. Revistas, jogos ou material para desenho são algumas das “estratégias” que ela usa para se aproximar dos pacientes. A partir daí, estabelece contato e percebe as necessidades. “Uma senhora estava sendo transferida da UTI para o quarto, mas vinha com uma carinha muito triste, desanimada. Então eu perguntei o que ela faria se estivesse em casa, se queria assistir à televisão. Ela respondeu que estaria fazendo tricô. Então fui atrás de lã e agulhas e a carinha dela mudou por causa disso”, lembra Marta. Funcionários e residentes do andar acabaram ganhando cachecóis tricotados pela paciente.

Voluntária há cerca de cinco anos, Marta cita o caso de um rapaz que ficou três meses internado depois de sofrer uma hemorragia. Ele havia vivido três anos na Cracolândia e não tinha nenhum parente na cidade. Agora segue o tratamento em Fortaleza (CE), onde vive sua família, e continua em contato pela internet. “Tenho filho adolescente e essa troca me ajuda até a entender o mecanismo que leva às drogas e como ele saiu de lá”, diz Marta. “Quando alguém me fala que estamos fazendo um ‘trabalho muito bonito’, eu respondo que nós é que ganhamos muito com essa troca.”

Os voluntários também verificam se os pacientes precisam de recursos enquanto estão internados – como itens de higiene pessoal – e quando saem. Alguns não têm sequer roupa ou chinelos para receber alta, além de precisar de muletas ou cadeira de rodas. O dinheiro arrecadado pela Ação Voluntária em dois bazares anuais é destinado a esse fim.

O próprio serviço tem suas necessidades. No momento, são 40 pessoas atuando nos diversos setores – como pronto-socorro e brinquedoteca –, mas há diversos “claros” em todos eles por falta de voluntários. Uma das áreas desatendidas é a da musicoterapia – excelente oportunidade, por exemplo, para alunos de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA).

Para atuar como voluntário no HU, é necessário ser maior de 21 anos, ter disponibilidade de três a quatro horas uma vez por semana, e residir próximo ao HU (quem circula pelo campus, a estudo ou a trabalho, também é bem-vindo). É preciso fazer entrevista com as coordenadoras e passar por treinamento. Para mais informações, a Ação Voluntária pode ser contatada pelos telefones (11) 3091-9460 e 9332 e e-mail voluntarios@hu.usp.br.

Nas telas, o futebol-arte

O novo Espaço Cultural do HU recebe neste mês a exposição Os Onze – Futebol e Arte – África 2010, Brasil 2014, uma homenagem às seleções que colocam em campo o futebol-arte. A exposição reúne obras de 12 artistas plásticos, como Antonio Peticov, Cláudio Tozzi, José Zaragoza e Rubens Gerchman. A montagem no HU tem a parceria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

A visitação é gratuita e está aberta até o dia 3 de abril, de segunda-feira a sábado, das 8 às 19 horas, no Espaço Cultural do HU (Av. Prof. Lineu Prestes, 2.565, terceiro andar, Cidade Universitária). 

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