Estudo da FE demonstra que abordagem divertida da Ciência gera interesse de alunos

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Paloma Rodrigues/Agência USP de Notícias

A revista educacional Ciência Hoje das Crianças, oferecida pelo Ministério da Educação (MEC) para as escolas públicas e com o selo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), é importante recurso para incentivar o estudo e leitura sobre ciência em sala de aula.  Segundo pesquisa da educadora Sheila Alves de Almeida, da Faculdade de Educação (FE) da USP, as atividades propostas pela revista, bem como seus textos teóricos, apresentam bom conteúdo e são de fácil compreensão. “A revista é muito colorida e didática. Ela trabalha textos científicos de uma maneira divertida, que induz o leitor a querer saber mais sobre o assunto”, descreve Sheila.

Sheila fez uma parceria com uma professora de uma escola municipal da periferia de Belo Horizonte, que lecionava para 26 alunos da terceira série (quarto ano). “Sugeri que ela utilizasse a revista, mas era ela quem montava as aulas, aproveitando as possibilidades da publicação da maneira que achou mais adequada”, explica a educadora. O conteúdo da aula se inspirava nos textos de várias edições da revista e podiam se originar das perguntas presentes nos artigos ou de uma matéria que interessasse aos alunos.

Foram três meses acompanhando as atividades, de setembro a novembro de 2010, totalizando dez encontros. Sheila filmou todo o trabalho pedagógico para analisar a interação das crianças com a revista e as práticas de letramento na turma.

As atividade mais recorrentes eram leituras que vinham acompanhadas de uma segunda atividade, como por exemplo um questionário. No começo do processo, as turmas eram quietas e pouco participativas. Sheila notou que, com o tempo, elas passaram a questionar mais durante as aulas, principalmente quando a atividade era a leitura de um artigo. Além disso, a postura delas na hora da fala melhorou muito. Elas se mostraram mais abertas e com maior domínio do discurso.

Letramento


“Chamamos de letramento o desenvolvimento da função da linguagem e do pensar”, coloca. As crianças desenvolveram uma rotina com a revista e isso foi crucial na evolução do repertório que elas tinham sobre assuntos científicos.

O fato de poderem levar as revistas pra casa, ler nos horários de sua escolha, fora do ambiente escolar e muitas vezes na companhia dos pais e irmãos fez com que elas criassem um vínculo com a publicação. Como disse Sheila, elas se abriram para o novo mundo, o novo dentro do universo científico.

O marco do trabalho foi quando as crianças começaram a perguntar, se mostrar interessadas pelo assunto. Isso provou a eficiência da revista em promover a discussão sobre assuntos que antes não faziam parte da gama de interesse delas. Desmitificar a ciência como algo chato ou simplesmente uma matéria obrigatória é um dos maiores méritos da Ciência Hoje das Crianças.

Acessibilidade


Segundo Sheila, a maioria dos professores não sabe da existência da revista nas bibliotecas escolares, porém ela é oferecida pelo MEC há mais de dez anos — sendo esta a grande compra que mantém a revista ainda em atividade. Um dos pontos de maior dificuldade para a propulsão da revista é o fato de que muito pouca gente sabe de sua existência e menos ainda conhece formas de trabalhar com esse periódico em sala de aula. “Meu desejo de estudar a revista surgiu quando eu comecei a utilizá-la. Vi sua enorme qualidade, mas percebi que meus colegas não faziam ideia do que era este material”.

Uma entrevista com as crianças e suas famílias mostrou o quanto a revista é conhecida no ambiente familiar: muito pouco. Mais de 90% dos alunos nunca tinham ouvido falar da Ciência Hoje das Crianças. “Nas bibliotecas, ela não está em destaque. Isso é uma grande perda, porque essa pequena mudança poderia levar muitas crianças a tomarem conhecimento da revista e, depois disso, possivelmente se interessar e se tornar um leitor assíduo, um leitor de textos informativos”, completa.

A pesquisadora ressalta a importância de um bom material na construção das aulas e sugere a revista Ciência Hoje das Crianças tendo em vista a qualidade do material. Enfatiza que a publicação é um recurso que já é disponibilizado pelo MEC e precisa apenas ser divulgado para que os professores do ensino fundamental a utilizem e também construam outros conhecimentos sobre a linguagem científica, uma vez que a revista traz conhecimentos seguros e atuais.

A teses de doutorado Interações e práticas de letramento mediadas pela revista “Ciência Hoje das Crianças”em sala de aula foi defendida em 2011 e orientada pelo professor Marcelo Giordan, também da FE.

Mais informações: email sheilaalvez@uol.com.br , com Sheila Alves de Almeida 

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