Pesquisa caracteriza a lagarta que causa a pararamose

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Valéria Dias / Agência USP de Notícias

O contato com as chamadas “lagartas de fogo” pode causar irritação na pele, mas no caso da pararama (larva da mariposa Premolis semirufa), que vive nas seringueiras da amazônia, as consequências são muito mais sérias. Após múltiplos contatos com as cerdas pontiagudas da lagarta, muitos seringueiros desenvolvem a pararamose, doença ocupacional que leva à deformação das articulações dos dedos das mãos. A tese de doutorado defendida pela bióloga Isadora Maria Villas Boas Silva, no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, ajuda a desvendar a peçonha desta lagarta que até agora havia sido pouquíssimo estudada pela ciência. A pesquisa recebeu menção honrosa no 3° Prêmio Tese Destaque USP, realizado em 2014.

Sob a orientação da professora Denise Vilarinho Tambourgi, do Laboratório de Imunoquímica do Instituto Butantan, Isadora realizou a caracterização biológica e imunoquímica do extrato das cerdas da pararama. A pesquisa começou como uma dissertação de mestrado, mas durante o exame de qualificação a banca constatou que era possível ir para o doutorado direto.

A professora conta que poucos trabalhos na literatura científica abordam a Premolis semirufa. “Encontramos apenas dois trabalhos que falavam sobre a pararama, uma tese e um resumo, mas além de não serem recentes, as citações eram muito superficiais. Então, praticamente começamos do zero”, diz. A pesquisa teve o objetivo de entender os mecanismos de ação da peçonha da pararama e de contribuir para reunir conhecimento sobre os componentes encontrados nas cerdas da lagarta.

As pararamas foram coletadas no Pará pelas pesquisadoras Rute M. Gonçalves de Andrade e Giselle Pidde-Queiroz, do Laboratório de Imunoquímica do Instituto Butantan. As cerdas foram cortadas, colocadas em solução salina, masseradas e depois centrifugadas, obtendo-se assim a parte líquida (extrato).

Os resultados das análises do extrato indicaram uma forte atividade de serino protease, uma classe de proteases comumente encontrada nos venenos de cobras. Os estudos in vitro mostraram que a serino protease provocou a ativação, em células imunes, de citocinas pró-inflamatórias. “Desenvolvemos um modelo animal e, ao aplicarmos a serino protease, houve uma reação inflamatória bastante intensa”, informa Isadora.

Pararamose

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos, publicado pelo Ministério da Saúde, a pararamose também é conhecida como reumatismo dos seringueiros e causa a periartrite falangeana: “a pararama determina, em algumas pessoas, lesões crônicas que comprometem as articulações falangeanas, levando a deformidades com incapacidade funcional”.

A professora Denise explica que apesar de provocar sintomas semelhantes aos da artrite reumatóide, uma doença autoimune, a pararamose não pode ser considerada como artrite. “Sabemos apenas que contatos múltiplos com a pararama causam sintomas semelhantes à artrite. Porém, não é possível afirmar quantos contatos são necessários para o desenvolvimento de pararamose”, informa. Segundo a professora, nos modelos animais foram utilizados sete contatos com a peçonha. “Alguns animais desenvolveram a doença; outros não”, conta. Outros estudos ainda serão necessários para entender por completo o mecanismo de ação da peçonha no organismo humano e como ela provoca a pararamose em algumas pessoas.

Como a pararama praticamente não foi estudada pela comunidade científica, consequentemente, a pararamose ainda não apresenta um tratamento adequado que possa mitigar os efeitos da peçonha da lagarta no organismo. Atualmente, a doença é tratada com anti-inflamatórios, mas eles não previnem nem revertem as alterações articulares das mãos.

O fato de a pararamose atingir apenas seringueiros e outros moradores que vivem em comunidades um pouco mais isoladas na amazônia, além de a extração de látex ser uma atividade que tem diminuído com o passar dos anos, e até o fato de as lagartas não sobreviverem durante muito tempo fora do seu habitat natural — que são os seringais da região amazônica —, são fatores que dificultam a realização de estudos.

Estes são alguns motivos que fazem a pesquisa de Isadora ser tão relevante, pois representa um primeiro passo para uma melhor compreensão da peçonha e da doença. “Mas o caminho ainda é muito longo até descobrir quais são os mecanismos moleculares que fazem a peçonha da pararama causar sintomas semelhantes à artrite”, finaliza a professora Denise.

Atualmente, Isadora é aluna de pós-doutorado no Instituto Butantan, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), sob a coordenação da professora Denise, onde pretende dar continuidade às pesquisas com o extrato da pararama.

Mais informações: email denise.tambourgi@butantan.gov.br, com a professora Denise Vilarinho Tambourgi, ou email isadora.boas@butantan.gov.br, com Isadora Maria Villas Boas Silva

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