Carnaval paulistano foi da participação popular ao privado

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Hérika Dias / Agência USP de Notícias 

Durante quase 20 anos, após a construção do Sambódromo em 1991, o carnaval de São Paulo ficou sem ocupar devidamente o espaço público da cidade e está voltando agora, em um movimento que começa no fim da década de 2000 e se estabelece com uma maior presença nos últimos quatro anos, com um número cada vez maior de blocos de rua. A análise é feita pelo historiador Bruno Sanches Baronetti que investigou como a oficialização da festa, em 1968, e a inauguração de do Sambódromo transformaram o carnaval paulistano de participação popular para espetáculo privado.

Essas modificações foram retratadas na dissertação de mestrado Da oficialização ao sambódromo: um estudo sobre as escolas de samba de São Paulo (1968-1996), apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e orientada pelo professor Maurício Cardoso.

O período analisado começa em 1968, quando ocorre a oficialização do carnaval de São Paulo pelo Estado, e se encerra em 1996, com a formatação do modelo atual da festa. Entre as principais mudanças apontadas pelo historiador está o fim dos cordões carnavalescos, agrupamentos que desfilavam pelas ruas da cidade, em sentido de cortejo, como as escolas de samba, mas com forma de organização diferente. Por exemplo, nos cordões havia balizas e contrabalizas, porta-estandarte, além de corte carnavalesca.

“Esses cordões surgiram, principalmente, nos bairros negros e pobres da cidade. O primeiro se forma na Barra Funda, em 1914. É onde a população pobre e negra brincava o Carnaval na primeira metade do século 20. Na segunda metade daquele século, há um processo de hibridização com o carnaval do Rio de Janeiro e o fenômeno das escolas de samba começa a ganhar maior contorno em São Paulo”, explica o historiador.

Os cordões desfilavam sempre no seu bairro de origem, no entanto, também faziam um circuito no centro da cidade participando de diversos concursos. Segundo Baronetti, eles desfilaram ao longo de sua história no Ibirapuera, Brás, Parque da Água Branca, entre outros lugares, de acordo com a sociedade que promovia o desfile, como jornal, rádio, empresas. O circuito tradicional era no centro, na região da Rua Direita, XV de Novembro e Praça da Sé.

“Não tinha nenhum tipo de cobrança de ingresso. Era só uma corda que separava o bloco, mas as pessoas iam atrás, desfilavam com os cordões. Eles nasceram e morreram na rua, não tinham sede como as escolas de samba”, afirma o historiador.

O último desfile dos cordões ocorreu em 1971, quando haviam apenas três agremiações: Vai-Vai, Fio de Ouro e Camisa Verde Branco. O Fio de Ouro encerrou as atividades e os outros dois cordões se organizaram em escolas de samba.

Escolas de samba

Em 1967, a Prefeitura de São Paulo enviou um projeto à Câmara que autorizava o poder municipal a promover festas de carnaval na cidade e a patrociná-las. “Essa oficialização do carnaval paulistano partiu dos sambistas e não do Estado, foram os sambistas que procuraram o então prefeito Brigadeiro Faria Lima para oficializar os festejos. Eles viam no que faziam uma possibilidade de ascensão social e profissional. São vozes pobres, negras, que historicamente não são ouvidas, e acharam na festa carnavalesca um canal de interlocução com o poder público”, ressalta Baronetti.

No ano seguinte, iniciam os desfiles oficiais de carnaval em São Paulo, a partir de regras e normas criadas pela Prefeitura, com a organização inspirada nas escolas de samba do Rio de Janeiro e mudanças estéticas em relação aos cordões. São introduzidos o mestre-sala e a porta-bandeira, ala das baianas, comissão de frente, há proibição de instrumentos que não são percussivos dentro das baterias, etc.

Com a oficialização, os desfiles passaram a ser na Avenida São João, de 1968 até 1976. A partir de 1977, vai para a Avenida Tiradentes, na zona norte. Em 1991, é inaugurado um local específico para os desfiles: o Sambódromo. Na Avenida São João, o desfile era aberto e gratuito, na Avenida Tiradentes, no início era aberto, mas depois há cobrança de ingressos, com construção de arquibancadas móveis.

Federações de carnaval

O historiador destaca que “os próprios sambistas participaram desses processos de mudança, por isso são criadas as federações de carnaval, como a União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP). A partir de negociações com o poder público, as escolas se adaptam e se transformam”.

Em 1986, há uma divisão na UESP ocasionada, principalmente, pela disputa da verba da televisão para exibir os desfiles.Nesse período, as escolas passaram a depender mais do dinheiro da TV porque o ex-prefeito Jânio Quadros diminuiu as verbas das escolas de samba. E a televisão passou a ser o principal canal de financiamento.

“A televisão propõe um grande contrato para a exibição das escolas do grupo principal, como a UESP representava todas as escolas de samba, as pequenas também queriam receber uma parte do dinheiro. As escolas grandes não achavam justo porque só elas seriam exibidas. Gerou um impasse e as grandes resolveram sair da UESP e formaram uma Liga das Escolas de Samba, que hoje organiza o carnaval principal do grupo especial e do grupo de acesso”, conta o historiador.

A UESP existe até hoje, mas ela é responsável apenas pela organização das escolas menores dos grupos I ao IV. Apenas o grupo I desfila no Sambódromo, na segunda-feira, sem transmissão pela TV. Os outros grupos desfilam nas ruas da cidade, nos dias de carnaval, em lugares como a Vila Esperança, Butantã e Autódromo de Interlagos.

“Percebemos que houve uma substituição do carnaval de participação popular, presente até a década de 1960, para o carnaval de atores e espectadores com a inauguração do Sambódromo, em 1991. Nos cordões, as pessoas iam atrás, entravam no bloco, participavam e viviam junto o Carnaval. O Sambódromo é um espetáculo, com desfile para espectadores, a separação entre os que desfilam e participam é muito maior do que no período que estava no espaço público. É um espaço mercantilizado, onde apenas os mais abastados têm acesso. O carnaval paulistano do grupo especial deixou o espaço público para um espaço privatizado pelo poder público e pela iniciativa privada que exclui os mais pobres desse desfile das principais escolas, mas a festa popular continua nas ruas com os blocos e com as pequenas escolas nos desfiles da UESP” conclui o historiador.

Mais informações: email bruno.baronetti@usp.br, com Bruno Baronetti

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