Pesquisa da EEFE liga imigração japonesa ao início do judô no país

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Paloma Rodrigues / Agência USP de Notícias

A imigração japonesa foi fundamental para a consolidação do judô no Brasil. Pesquisa do doutorando Alexandre Velly Nunes, da Escola de Educação Física  Física e Esporte (EEFE) da USP, montou uma árvore genealógica da formação dos atletas brasileiros, desde o ingresso das primeiras gerações do esporte no País, na década de 1960, até os nossos mais recentes medalhistas olímpicos e mundiais. Nunes foi orientado pela professora Katia Rubio, também da EEFE.

Para montar essa árvore genealógica, Nunes entrevistou todos os medalhistas olímpicos e mundiais brasileiros da história. Durante quatro anos, foram realizadas 90 entrevistas. Elas partiram de 23 atletas medalhistas, que conquistaram 38 medalhas, sendo 15 em jogos olímpicos e 23 em campeonatos mundiais. A trajetória da carreira desses atletas, bem como seus mentores e professores foram anotadas e ajudaram a compor um panorama geral da formação do judô no Brasil. “O meu foco principal era entender como eles tinham chegado ali e quem foram as pessoas que os influenciaram”, explica Nunes, que atua como professor de Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).

A partir das entrevistas desses atletas, Nunes foi atrás de seus professores e fez o mesmo processo: uma entrevista que pedia o relato de suas carreiras e as suas principais influências. O ciclo se manteve até ser alcançada a primeira formação de judocas brasileiros.

Genealogia

A grande contribuição desse trabalho está na construção das árvores genealógicas dos nossos principais atletas, campeões olímpicos e mundiais. Essas árvores são as que Nunes chama de “Famílias Judoísticas”.

Elas evidenciam a influência japonesa ao ilustrar a base desses atletas, uma base quase que é inteiramente formada por japoneses.

Popularidade

Nunes diz que há registros do judô no Brasil desde 1914. Após a segunda guerra mundial, a “esportivização” da modalidade e o seu ingresso no programa olímpico, em Tóquio (1964) e definitivamente em Munique (1972) contribuíram para a difusão do esporte para fora da colônia japonesa.

No pós-Segunda Guerra Mundial, o Japão estava arrasado e muitos japoneses foram em busca de melhores condições de vida em outros territórios. O Brasil foi um dos países que receberam um contingente enorme desses imigrantes. Esses novos assentamentos serviram para popularizar o judô em algumas regiões onde a prática do esporte não era comum. “Isso fica claro quando reparamos nos anos em que surgiram as federações regionais e seus primeiros dirigentes”, observa Nunes.

Com essa oficialização do esporte no País, uma série de novos personagens passa a integrar essa história. “Antes da guerra, a influência era totalmente nikkei. Depois, notamos que as formações regionais e o número de professores começam a ter mais integrantes brasileiros”. O esporte se transforma e passa a ser mais do que uma atividade cultural. Ele se torna uma competição e isso internacionaliza o judô.

Esse teor competitivo torna o judô mais comercial, porque o esporte passa a render muito dinheiro. Isso faz com que os aspectos educacionais e culturais fiquem um pouco marginalizados na formação dos atletas, como afirma Nunes:

“A internacionalização tirou um pouco da preocupação dos orientais de manter a ética e a disciplina durante a atividade.”

O perfil dos atletas muda. O judô, além de ser um negócio, vira um show.

Ele diz que “como qualquer movimento cíclico, os excelentes resultados de competição já começam a ser estudados e eles tem como uma conclusão clara que os aspectos educacionais precisam ser retomados para que os bons desempenhos sejam alcançados”. Por isso, as organizações nacionais tem sim de sobreviver como responsáveis por grandes eventos esportivos, que rendem muito dinheiro, mas sem prejudicar a formação de seus atletas.

Mais informações: email alexandre.nunes@usp.br, com Alexandre Velly Nunes

 

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