Novo presidente do CNPq, Chaimovich fala sobre pesquisa e desenvolvimento

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Paulo Hebmüller / Jornal da USP 

Foto: José Cruz / Agência BrasilPosse do Presidente do CNPq Hernan Chaimovich com Aldo Rebelo e Glaucius Oliva
Foto: José Cruz / Agência Brasil
Posse do presidente do CNPq Hernan Chaimovich (à esq.) com Aldo Rebelo (centro) e Glaucius Oliva

O professor do Instituto de Química da USP Hernan Chaimovich, que no final de fevereiro assumiu o cargo de presidente do CNPq, fala do desafio de promover a ciência,  a tecnologia e a inovação no Brasil atual

O bioquímico Hernan Chaimovich, professor do Instituto de Química (IQ) da USP, foi empossado no dia 24 de fevereiro pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, como novo presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Chaimovich sucede o também uspiano Glaucius Oliva no comando de uma das principais agências de fomento à pesquisa no País – dos cinco ocupantes do cargo desde 2003, quatro são docentes da USP. Consciente das dificuldades do cenário econômico brasileiro, o novo presidente ressalta, entretanto, que é preciso pensar para além do momento de crise – caso contrário, diz, “estamos condenando o futuro”.

Nascido no Chile, Chaimovich fez doutorado na USP e pós-doutorado nas universidades de Califórnia e Harvard, nos Estados Unidos. Entre outros cargos, foi diretor do IQ e pró-reitor de Pesquisa da USP. Antes de viajar a Brasília, o professor concedeu a entrevista a seguir em sua sala no IQ, e fez questão de citar o trecho com o qual encerraria seu discurso de posse, parafraseando o biólogo britânico Jack Haldane: “Suponho que o processo de aceitação das minhas propostas passará pelas habituais quatro etapas. Primeira: ‘isso é um absurdo sem valor’. Segunda: ‘essa é uma proposta interessante, mas perversa’. Terceira: ‘isso é verdade, mas pouco importante’. E por último: ‘eu sempre disse isso’.”

Jornal da USP – O CNPq mantém uma série de programas, dos quais provavelmente o mais conhecido fora da academia é o Ciência sem Fronteiras (CSF). De que forma o senhor pretende trabalhar para expandir o alcance deles?

Hernan Chaimovich – Quando se pensa em programas, temos que pensar primeiro no ethos e na razão de ser do CNPq, cuja história vem desde 1951: estimular e promover o desenvolvimento da investigação científica e tecnológica em qualquer domínio do conhecimento. São portanto dois princípios que quero explicitar: primeiro, em consonância com sua missão primordial, o CNPq deve financiar exclusivamente o que apenas ele pode financiar, com excelência na análise de mérito, na avaliação de impacto e observando os códigos de conduta que devem caracterizar a ética pública. O segundo é que o CNPq deve colaborar na formulação de projetos estratégicos para que a ciência básica, a pesquisa tecnológica e a inovação cumpram efetivamente o seu papel essencial no desenvolvimento sustentável e socialmente justo do País. O programa de Bolsas de Produtividade em Pesquisa mantém um mínimo de estímulo aos pesquisadores individuais que alcançaram uma certa estatura. São cerca de 14 mil pesquisadores que recebem uma bolsa que inclui, dependendo do nível, um apoio ao trabalho do pesquisador no seu laboratório. O CNPq também financia, junto com as Fundações de Amparo à Pesquisa, empresas e outros ministérios, os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Esse programa conseguiu realizar um sonho muito antigo do País: ampliar a base geográfica dos grupos que fazem pesquisa e transferem conhecimento, formando redes no Brasil inteiro. Poucos países implementaram programas dessa forma. O CSF é um programa novo e tem vários aspectos: apoia estudantes de graduação e de pós-graduação fora do País, e também a vinda de pesquisadores de alto gabarito para o Brasil. Ele tem recebido muita atenção, mas o CNPq tem que ser visto no seu conjunto.

JUSP – Quando tomou posse, o ministro Aldo Rebelo disse que é preciso defender a valorização da agenda de ciência, tecnologia e inovação no Congresso Nacional, debate que envolve orçamento público e decisões políticas. Como se compatibiliza essa dimensão da política com os interesses da área no País?

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Chaimovich – Em primeiro lugar temos que reconhecer que estamos no Brasil no ano de 2015. Se não começamos por aí, não estamos com os pés na terra. O discurso do ministro é apropriado, correto e, nesse contexto, vem no tempo certo. Num país em que a formação bruta de capital fixo decresce, como ocorreu nos últimos anos, não se pode esperar que as empresas privadas ou públicas invistam muito dinheiro em pesquisa e desenvolvimento. Um país que queira montar um ecossistema de inovação salutar precisa aumentar seu investimento em formação bruta de capital fixo. O que isso tem a ver com ciência? Tudo, na medida em que é preciso pensar em pesquisa básica, pesquisa tecnológica e inovação ao mesmo tempo, porque se trata de um sistema. Na ponta da ciência básica, temos vários problemas. Há grupos consolidados que precisam aumentar seu impacto científico e, quando a linha de pesquisa permite, têm que aumentar também o impacto da transferência de conhecimento e de tecnologia para a sociedade. Esses grupos precisam ser apoiados firmemente porque são referência. Ao mesmo tempo, o número de docentes nas universidades federais dobrou nos últimos seis anos. Boa parte desse pessoal está fora do sistema de financiamento à pesquisa porque, hoje, é pouco competitiva – mas não se pode condenar uma geração a ficar fora do fluxo de pesquisa, o que seria trágico.

JUSP – Como evitar isso?

Chaimovich – Depende de uma formulação política de integração dos grupos consolidados com aqueles novos ou em consolidação, dando condições de trabalho para que o grupo que está começando possa conversar na mesma altura. Temos que atacar ao mesmo tempo essas duas pontas – a inovação, que se faz na empresa, e a consolidação e expansão do sistema – nesse cenário de Brasil 2015. Esse é de certa forma o tom do discurso do ministro. Se, num momento de crise, só pensarmos no momento, estamos condenando o futuro.

JUSP – O senhor teme enfrentar problemas orçamentários no CNPq?

Chaimovich – Quem não teme problemas orçamentários não está no Brasil no ano de 2015. Porém, tenho enorme confiança no ministro, na sua capacidade de articulação política e na sua compreensão do sistema de ciência, tecnologia e inovação no País. O diálogo com o ministro é excelente.

JUSP – A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação, teve o recente problema de atraso no pagamento das bolsas.

Chaimovich – Estou aprendendo devagar como opera o sistema federal e como é longo, e às vezes tortuoso e difícil, o caminho que leva do orçamento ao dinheiro depositado: uma coisa é o que está no orçamento; outra, totalmente diferente, é o que chega no caixa. Em janeiro a Capes teve um problema de caixa que implicou no atraso de mais ou menos cinco dias no pagamento de bolsas. Até agora o CNPq não atrasou. Espero que nunca aconteça.

JUSP – No Brasil, ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, a universidade é a maior geradora de patentes, e não a indústria. É possível trabalhar a interação dessas duas pontas?

Chaimovich – O que determina isso é, de um lado, o crescimento econômico do País e, de outro, as parcerias ganha-ganha com o setor produtivo. Existe uma série de territórios, ainda pouco explorados, nos quais programas de pesquisa financiados com dinheiro privado são de interesse para esse setor privado. Minha experiência com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que é pioneira nessas iniciativas, é que quando se conversa sempre se encontram caminhos. Hoje a Fapesp tem programas e centros de pesquisa com empresas multinacionais ou brasileiras, com financiamento por dez anos, que não ferem a missão da universidade e ao mesmo tempo atendem aos interesses da empresa.

JUSP – O reitor Marco Antonio Zago apontou que uma de suas prioridades seria a melhoria da qualidade da graduação, e já propôs para debate uma questão: a USP deve trabalhar para ampliar o número de vagas ou melhorar a graduação que possui? Qual a sua opinião sobre esse tema?

Chaimovich – O problema da universidade brasileira parte do ensino secundário. Estamos formando menos estudantes no secundário do que as vagas oferecidas pelo ensino superior. Na USP, aumentamos o número de estudantes de forma importante nos últimos anos, sem que tenha crescido significativamente o quadro de docentes. A USP tem feito um esforço gigantesco para aumentar a sua eficiência – e não estou falando de orçamento. A USP continua gerando 25% da produção científica do País, continua formando seus estudantes e, repito, aumentou o número de vagas na graduação. Agora, para aumentar aquilo que você chamou de qualidade da graduação, a primeira coisa a fazer é medi-la. Vamos aumentar em relação a quê? Medir a qualidade do processo ensino-aprendizado é caro, e há poucos países no mundo que o fazem bem. É preciso ter um sistema de aferição de muitos parâmetros, como a empregabilidade ou o salário relativo cinco anos depois da formatura. Também é preciso saber o que o sistema pensa que o aluno deve dominar ao longo de sua formação, e isso significa que de vez em quando é preciso haver outro professor sentado na minha aula vendo se estou cobrindo a matéria. Significa também que os alunos têm que fazer provas independentemente do professor responsável. Hoje, a avaliação é feita basicamente medindo a impressão dos alunos. Não sou de jeito nenhum contra isso, mas essa avaliação é só uma parte de um sistema muito mais complexo e caro de aferição do processo ensino- aprendizado. Em minha experiência de mais de 40 anos na USP, sinto uma resistência difusa a uma mensuração adequada da nossa eficiência de ensino.

JUSP – E em termos da estrutura do ensino universitário brasileiro?

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Chaimovich – Tive a honra de participar de uma reflexão sobre o ensino superior em São Paulo há alguns anos e o que ficou claro na época é que o ensino superior, para ser eficiente num país da dimensão do Brasil, só pode ser diferenciado. Quase todos os países que chegaram a um grau de cobertura maior do que 40% da população no ensino superior na faixa etária correta (dos 18 aos 24 anos) têm um sistema diferenciado. O aluno termina o secundário e pode entrar, por exemplo, num sistema que em dois anos lhe dá uma cultura geral e o coloca no mercado numa posição muito melhor. Nos Estados Unidos, a grande maioria dos estudantes faz college de dois anos. Você pode ter sistemas puramente tecnológicos, que formam profissionais adaptados às necessidades não do mercado, imediatas, mas do País. Também pode haver um sistema de universidades que formem profissionais em mais tempo e de universidades de pesquisa. É um sistema diferenciado, em que cada parte está consciente de seu valor e de sua missão: o college de dois anos não é mais ou menos importante que uma universidade de pesquisa, mas constitui uma parte fundamental do sistema, tanto quanto as outras. Já a missão da universidade de pesquisa é também formar doutores – de excelência, com muito impacto. Aliás, acredito que a excelência acadêmica tem que dominar a gestão universitária. Sempre fui muito claro em relação a isso e não vou voltar atrás a essa altura do campeonato.

JUSP – A que distância estamos desse sistema?

Chaimovich – Há seis anos havia 30 ou 40 Faculdades de Tecnologia (Fatecs) em São Paulo, e hoje existem duzentas. Ou seja, parte do que se pensou há dez ou quinze anos foi implementado – e ninguém se queixa da qualidade dos alunos formados nas Fatecs. Há exemplos de que é perfeitamente possível fazer coisas assim. O que não é possível é pensar que temos dinheiro, ou necessidade, de replicar a USP no Brasil todo.

JUSP – O senhor mencionou a formação de doutores de excelência. Como avalia a pós-graduação brasileira?

Chaimovich – O aumento explosivo da produção científica brasileira é paralelo ao aumento da pós-graduação. Existe, por exemplo, um paralelismo entre o número de doutores formados e o de trabalhos publicados. O esforço para fazer isso é um dos poucos exemplos de planejamento estratégico na área educacional que deu certo e que foi mantido nos últimos trinta anos. Se a pós-graduação não tivesse crescido do jeito que cresceu, o Brasil jamais teria alcançado a posição que tem no mundo em produção científica, que varia entre 13ª e 15ª. O impacto relativo dessa produção em relação à produção científica do mundo, entretanto, continua baixo. Temos caminho a percorrer, mas se não tivéssemos construído esse sistema isso seria impossível. Já temos a base sólida e ampla; agora se trata de tomar medidas para que nossa produção intelectual tenha mais impacto científico, social e econômico.

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