Núcleo investiga distúrbios que afetam fala e linguagem em crianças

Publicado em Saúde, USP Online Destaque por em

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Para Débora Befi-Lopes, a linguagem humana é infinita, por isso é essencial dar recursos para que pessoas com dificuldades consigam se desenvolver

Um número elevado de crianças enfrenta problemas na aquisição e desenvolvimento da linguagem mesmo sem apresentar qualquer lesão cerebral, síndrome ou déficit, seja intelectual ou sensorial. Para algumas delas, compreender o significado da palavra “lápis” pode até ser uma tarefa simples: a sequência de sons que a formam é associada a uma imagem e ao uso que ela pode perceber no dia a dia. Mas artigos e preposições, que não possuem conteúdo concreto, podem acabar representando um grande obstáculo, que se reflete em frases construídas de modo desordenado ou inadequado.

Estima-se que o chamado Distúrbio Específico de Linguagem (DEL) atinja 5 em cada 100 crianças, manifestando-se de diversas formas. “Há aquelas que não falam nada, outras que têm muita dificuldade de contar uma história e outras que não conseguem construir uma frase”, exemplifica a professora Débora Maria Befi-Lopes, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Embora muito estudado, ainda não se sabe com precisão o que causa o DEL, em especial porque a questão da linguagem envolve múltiplos fatores, não apenas de caráter biológico, mas socioculturais. Esse distúrbio é o foco das pesquisas que a professora Débora desenvolve no Núcleo de Avaliação da Fala e Linguagem em Crianças com Distúrbios da Comunicação (SLCD) da USP, do qual é vice-coordenadora.

Um dos principais objetivos do estudo é entender como acontece o processamento da informação verbal por estas crianças e quais as diferenças em relação àquelas com padrão normal de desenvolvimento linguístico, obtendo dados que servirão de base para a elaboração de programas de reabilitação mais adequados. Além do DEL, o núcleo estuda também distúrbios de comunicação apresentados por crianças com gagueira e síndrome de Down. Os programas terapêuticos, em geral, melhoram muito o desempenho dessas pessoas, mas um conhecimento mais profundo de como ocorre o processamento da informação pode ajudar a melhorar o diagnóstico, fazer uma intervenção mais precoce e elevar a qualidade da reabilitação.

Tecnologia como aliada

Até o momento, uma das principais questões observadas pela professora é a influência de fatores ambientais em crianças com DEL, principalmente quando se fala em escolaridade materna – característica relacionada também ao tipo de escola (pública ou privada) em que se dará a formação da criança. Acredita-se que o distúrbio apresente bases genéticas, então o que se tem tentado fazer é isolar a questão sociocultural e entender como o ambiente pode favorecer (ou desfavorecer) o desenvolvimento linguístico da criança. Para isso, são aplicados questionários e provas diversas que testam sua memória, atenção e habilidades.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens Lorem
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Fracasso escolar de crianças com problemas na fala é elevado, o que pode provocar também problemas emocionais e de socialização

No entanto, a professora Débora afirma que são necessários estudos mais objetivos, que resultem em dados concretos e, nesse sentido, a tecnologia tem oferecido diversos recursos. O SLCD aguarda a aquisição de um equipamento de eyetracking que rastreia o movimento dos olhos e indica o tempo que uma pessoa leva para ouvir um estímulo verbal, compreender o comando e executar a tarefa. Ao mostrar várias imagens para uma criança e pedir que ela aponte uma imagem específica, por exemplo, o aparelho mostra o tempo entre ouvir, procurar e encontrar a imagem solicitada. “Se eu sei que há uma dificuldade no processamento e isto é mostrado para mim de forma clara, é possível pensar em recursos terapêuticos para aliviar aquele problema”, afirma.

Os dados produzidos pela literatura internacional da área ajudam a estruturar os estudos, mas a questão da língua, conta a professora, interfere muito e exige trabalhos específicos. “A forma de produção e o tempo de decodificação de uma palavra em português e em inglês ou mandarim é muito diferente. O conhecimento de fora nos dá uma base para o que temos que estudar, mas não resolve nossos problemas”. Ela dá o exemplo da palavra “travesseiro”, cuja produção é muito mais complexa que a da palavra “pillow”, em inglês. Além disso, a organização das frases nos diferentes idiomas varia muito.

O avanço da tecnologia nos permite sair do ensaísmo e ter medidas concretas, que não sejam apenas de observação, mas palpáveis, e levem a um melhor diagnóstico e, consequentemente, a uma melhor terapêutica.

No caso de os resultados de uma atividade obtidos com uma criança com Distúrbio Específico de Linguagem se mostrarem muito parecidos com os de uma criança com síndrome de Down – condição que abrange deficiência intelectual -, então pode ser um indício de que é preciso reavaliar esta criança.

Outro aparelho que também deve ser adquirido pelo núcleo mede ainda o processamento da informação nervosa por meio de eletrodos, o que é de grande relevância em casos de crianças com impedimentos verbais.

Diagnóstico e reabilitação

O diagnóstico de DEL é feito em etapas, em que a investigação vai excluindo uma possível deficiência auditiva ou visual, e depois síndromes e distúrbios psiquiátricos que possam estar desencadeando os distúrbios comunicacionais identificados na criança. Depois, caso todas as hipóteses sejam excluídas e for confirmada a existência de alteração permanente no processo de desenvolvimento da fala e da linguagem, essas dificuldades são melhor avaliadas – isso porque a linguagem é composta por vários subsistemas e, dependendo do grau de dificuldade, são diversos os afetados, como o fonológico, o semântico ou a sintaxe.

Foto: Adauto Nascimento / HRAC / USP Imagens Lorem ...............
Foto: Adauto Nascimento / HRAC / USP Imagens

A reabilitação de crianças com DEL é montada em programas, em um processo que considera qual seu grau de desenvolvimento linguístico, independentemente da idade, e vai avançando em etapas hierárquicas.

“A linguagem humana é infinita, então precisamos dar recursos para que essas pessoas consigam se desenvolver. Não existe um remédio, mas existe a reabilitação. Pode ser que elas não se tornem advogados ou professores de língua portuguesa, mas têm capacidade de melhorar muito”, afirma a vice-coordenadora do SLCD.

Não existe um remédio, mas existe a reabilitação. Pode ser que elas não se tornem advogados ou professores de língua portuguesa, mas têm capacidade de melhorar muito.

Embora o DEL esteja presente nas catalogações nacionais e internacionais de doenças, muitas das crianças com o distúrbio nem mesmo são classificadas corretamente, confundidas com casos de autismo ou dislexia, entre outros, e deixam de receber assistência adequada. “Estas crianças estão meio sem lugar”, diz Débora. Como consequência, o fracasso escolar delas é muito elevado, o que pode provocar também problemas emocionais e de socialização.

A criação de um grupo multidisciplinar como o SLCD, dedicado aos distúrbios da comunicação em crianças, ajuda a desvendar os mecanismos do DEL, mas também de outras desordens, uma complementando o conhecimento que se tem da outra. O núcleo reúne diversos profissionais da área da saúde, como médicos, psicólogos e fonoaudiólogos, todos envolvidos de forma essencial no diagnóstico e nos programas de reabilitação. “A aprovação deste Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) dá um passo a frente no conhecimento dos distúrbios de comunicação na infância em relação ao resto do país, onde não temos nada parecido”, afirma a professora Débora Befi-Lopes.

.