Pressão sobre pulmão indica efeito da ventilação artificial

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Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Reduzir as oscilações da pressão motriz inspiratória dos pulmões (driving pressure) influencia diretamente a queda da mortalidade entre pacientes submetidos à ventilação artificial em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A conclusão faz parte de uma pesquisa com 3.562 pacientes em seis países, coordenada pelo professor Marcelo Brito Passos Amato, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O ajuste da ventilação reduz o risco de inflamação nos pulmões e de sua propagação para outras partes do corpo. O estudo é descrito em artigo publicado no The New England Journal of Medicine no último dia 9 de fevereiro.

Os equipamentos de ventilação mecânica são utilizados em doentes graves que apresentam problemas respiratórios. “A pressão motriz inspiratória, ou pressão de distensão respiratória indica a quantidade de energia mecânica que o ventilador descarrega sobre o parênquima pulmonar ao forçar a entrada de ar até os alvéolos”, conta o professor. “O parênquima é o tecido responsável pelas trocas gasosas no pulmão, recebendo oxigênio e expelindo gás carbônico do organismo”.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Amato ressalta que grandes oscilações de pressão comprometem o parênquima pulmonar. “A energia excessiva provoca a síndrome do desconforto respiratório agudo e desencadeia um processo inflamatório que passa para o sangue e chega a outras partes do corpo”, relata. “Os pacientes começam a apresentar insuficiência renal e lesões internas, até morrerem de falência de múltiplos órgãos”.

Embora a influência da ventilação artificial na sobrevida em UTIs já fosse conhecida, o professor diz que havia uma dificuldade para determinar qual indicador tinha maior influência nos níveis de mortalidade. “Por essa razão, durante a pesquisa foram analisados 3.652 casos de doentes graves a partir das informações de nove bancos de dados no Brasil, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, França e Espanha, todos incluídos em estudos prospectivos e randomizados”, relata. “O levantamento demonstrou que as grandes oscilações de pressão entre a inspiração e a expiração prejudicavam mais os pulmões e levavam a maior mortalidade”.

Ajustes

Com base nas conclusões do trabalho, é possível determinar um ajuste nos equipamentos de modo a que a ventilação artificial seja mais gentil. “O processo envolve o controle do limite inferior e superior da ventilação, do volume corrente, dos níveis de frequência respiratória, gás carbônico e da pressão média das vias aéreas”, diz Amato. “Também são indicadas estratégias de pré-condicionamento para melhorar a elasticidade do tecido pulmonar e otimizar a ação da ventilação mecânica”.

Foto: Marcos Santos / USP ImagensMarcelo Brito Passos Amato
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Professor Marcelo Brito Passos Amato

A pesquisa foi desenvolvida a partir de outro estudo realizado por Amato na FMUSP e publicado no The New England Journal of Medicine em 1998. “O trabalho mostrou que a ventilação mecânica está relacionada com os altos níveis de mortalidade em UTIs e propôs um protocolo baseado num tratamento menos agressivo dos pulmões, que reduziu a taxa de mortalidade de 70% para 40%”, aponta. “Em 2000, um estudo realizado pelo National Institute of Health (NIH), nos Estados Unidos, utilizou parte do protocolo e conseguiu reduzir a mortalidade para 30%”.

Segundo o professor Amato, a descoberta da pressão motriz inspiratória como fator mais importante associado a sobrevida de pacientes em UTIs pode aumentar a eficiência da ventilação artificial. “Em 1985, a mortalidade era de 70% e hoje está em torno de 40%. Na medida em que a ventilação for mais otimizada, pode cair para 25% dentro de alguns anos”, calcula. “Excetuado-se as medidas de controle infeccioso, ainda hoje um ajuste mais adequado da ventilação mecânica potencialmente salva mais vidas do que qualquer medicamento antiinflamatório introduzido na UTI”.

A pesquisa foi realizada no Laboratório de Pneumologia (LIM-09) da FMUSP, com a colaboração do setor de Pneumologia do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP, além do Instituto do Coração (InCor) do HC. O professor destaca que o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep) ajudou a equipar o laboratório e a manter contato com os pesquisadores que forneceram informações de seus bancos de dados para o estudo, por meio de participações em congressos e eventos científicos.

Mais informações: email marcelo.amato@limpneumo.fm.usp.br, com o professor Marcelo Brito Passos Amato

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