Estudo da FMRP identifica novas enzimas produtoras de etanol

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Rosemeire Soares Talamone / Serviço de Comunicação da PUSP-RP

Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP utilizou técnicas genômicas e moleculares para analisar quais genes e vias são regulados durante o crescimento do fungo Aspergillus niger em bagaço de cana-de-açúcar explodido. A partir dessa análise, foram identificadas enzimas, que, no futuro, podem ser utilizadas para a elaboração de coquetéis eficientes na degradação de polissacarídeos, açúcares presentes na parede do bagaço da cana-de-açúcar, e com isso obter etanol celulósico. O estudo venceu o último Prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade — grupo II Aproveitamento, Reaproveitamento e Reciclagem de Resíduos e/ou Rejeitos, promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A autora da pesquisa Estudos genéticos e moleculares da produção de celulases e hemicelulases em Aspergillus nidulans e Aspergillus níger, Paula Fagundes de Gouvêa, desenvolveu seus estudos dentro do programa de Pós-Graduação em Bioquímica da FMRP com orientação do professor Gustavo Henrique Goldman, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP.

Um dos grandes desafios para a ciência nos próximos anos é o de encontrar novas fontes de energia renováveis. Além disso, no Brasil ainda é necessário um melhor aproveitamento das áreas de cultivo da cana-de-açúcar, sem que isso signifique o aumento da área plantada. No contexto dessa cultura agrícola, o bagaço da cana-de-açúcar vem sendo utilizado para a produção do chamado etanol de segunda geração, que já se encontra entre os maiores subprodutos agroindustriais do Brasil. Atualmente, os coquetéis enzimáticos utilizados nesse processo são importados e representam de 20% a 25% do custo total de produção do etanol de segunda geração.

Coquetéis enzimáticos

Segundo a autora, os coquetéis enzimáticos comercializados contêm celulases produzidas pelo fungo Trichoderma reesei, entretanto seu custo ainda é considerado alto. A pesquisadora conta que para identificar essas enzimas utilizou técnicas de genômica e de biologia molecular e, como organismo modelo, os fungos Aspergillus niger e Aspergillus nidulans. “Utilizamos uma abordagem genômica para investigar quais genes que codificam celulases e hemicelulases são regulados durante o crescimento do fungo Aspergillus niger em bagaço de cana pré-tratado”, relata.

Foi possível obter resultados de como estes fungos regulam a secreção de enzimas hidrolíticas (celulases e hemicelulases), utilizando o bagaço de cana-de-açúcar como fonte de energia. “Estes resultados colaboram para a melhora da produção destas enzimas visto que este é um dos passos mais dispendiosos para o desenvolvimento do etanol de segunda geração”.

Além da questão econômica, Paula lembra que as mudanças climáticas mundiais, agravadas pelo efeito estufa são conhecidas e trazem consigo consequências indesejáveis ao meio ambiente, causando transtornos à sociedade e até colocando em risco a existência de vida na terra. Assim, a participação de fontes renováveis na matriz energética é uma das medidas que se faz necessária para reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa e a consequente redução do aquecimento global. “Diante deste cenário, há a necessidade de se determinar novas fontes de energia que tragam sustentabilidade ao planeta, se fazendo necessário o desenvolvimento de tecnologias para obtenção de combustíveis de fontes renováveis, como é o caso do etanol de segunda geração”, completa.

Recentemente, no Brasil, foram inauguradas duas usinas que produzem o etanol de segunda geração, uma em Alagoas, Sergipe, e outra em Piracicaba, São Paulo. “Entretanto, para que estas usinas possam produzir o etanol de segunda geração economicamente viável, ainda existe a necessidade de mais pesquisas voltadas principalmente na redução do custo de produção destas enzimas”, conclui.

Mais Informações: email paulafgouvea@yahoo.com.br, com Paula Fagundes de Gouvêa

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