Berlim e São Paulo discutem sustentabilidade nas cidades

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Sylvia Miguel / Jornal da USP

USP e Universidade Humboldt de Berlim, na Alemanha, promovem workshop na busca de talentos e do fortalecimento da interdisciplinaridade na pesquisa e no ensino

A permacultura é um tipo de cultura agrícola que teve seu conceito sustentável ampliado para aplicações também em sistemas humanos, como vilas e comunidades. Ainda não é estudada sistematicamente pela ciência. Mas foi trazida ao meio acadêmico durante o encerramento do São Paulo Kosmos Workshop – Berlin meets São Paulo: Cities for All – Livable and Sustainable, que reuniu, de 6 a 10 de abril, pesquisadores da Universidade Humboldt de Berlim, na Alemanha, e professores e estudantes da USP.

Tecnologias integradas para a criação de infraestruturas verdes e a preservação da biodiversidade em áreas urbanas, jardins urbanos, telhados verdes, debates sobre a destinação do lixo que se avoluma caoticamente nas metrópoles, aulas sobre educação e ética ambiental, além de visitas a alguns jardins e hortas na cidade de São Paulo, foram algumas das oficinas oferecidas.

Na aula prática sobre permacultura, os participantes colocaram mãos na massa, ou seja, apresentaram esboços para um jardim sustentável que poderá ser criado na fachada e na entrada do edifício do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP. A ideia será levada ao conselho administrativo do IRI, segundo o coordenador do Kosmos Workshop, Wolker Minks.

Dada a sua abordagem holística, a permacultura foi tema mais que adequado para encerrar o encontro, uma vez que o Programa Kosmos consolida o perfil interdisciplinar e a busca de internacionalização da Universidade Humboldt de Berlim. “Os cientistas da nossa universidade estão convencidos de que muitas questões da atualidade e do futuro só podem ser resolvidas por meio de uma rede cooperativa entre especialistas dentro de um contexto global. Essa é a razão pela qual criamos o Programa Kosmos, que é nosso carro-chefe para a internacionalização da Humboldt”, disse o presidente da Universidade alemã, Jan-Hendrik Olbertz.

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Com formato flexível, caracterizado por workshops, cursos de verão e diálogos ou debates, o Programa Kosmos vem empreendendo a troca de conhecimento entre a Humboldt e instituições parceiras, que, além da USP, incluem algumas das mais conceituadas universidades do mundo. O programa foca pesquisa e ensino e proporciona recursos para intercâmbios de professores, jovens pesquisadores, estudantes e inclusive de profissionais acadêmicos. Há inscrições abertas para diversos cursos dentro da programação da Humboldt Summer University 2015.

“O Kosmos Workshop está sendo realizado em São Paulo num momento muito especial, em que já ocorrem iniciativas isoladas de cooperação, tratando da relação entre a universidade e as metrópoles. Os arranjos de colaboração já tiveram um ótimo resultado, aproximadamente 300 artigos publicados. Precisamos estreitar ainda mais os laços e coordenar essas iniciativas”, disse o reitor Marco Antonio Zago, ao abrir uma das palestras do ciclo Conferências USP, que integrou as atividades do SP Kosmos Workshop, no dia 8 de abril, na sala da Congregação da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.

Zago destacou uma lista de unidades e institutos da USP envolvidos com a questão ambiental e as grandes cidades. “Estamos, neste momento, direcionando esforços para coordenar essa diversidade de projetos. Espero que a partir do mês que vem essas diferentes iniciativas de cooperação entre a Humboldt e a USP possam conversar umas com as outras, de agora em diante sob a coordenação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP”, disse Zago.

Desafios

Durante a palestra do ciclo Conferências USP, a professora Heide Hoffmann, da Universidade Humboldt, abordou oportunidades e limites da agricultura em ecossistemas urbanos. Heide também foi a responsável por ministrar a oficina sobre permacultura, no dia 10 de abril, na sala da Congregação do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP. O debate foi mediado pela professora Maria Cecília Loschiavo dos Santos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

Com a palestra “The Challenges of Cities in a Globalized World: Opportunities and Limits for Agriculture in Urban Ecosystem”, Heide trouxe estudos mostrando, entre outros tópicos, como pequenos núcleos verdes melhoram o microclima local em grandes cidades, amenizando os efeitos das chamadas ilhas de calor.

Os dados mostrados sobre contaminantes em agriculturas urbanas também revelou resultados empolgantes. Os níveis de cádmio, chumbo e outras substâncias foram medidos em quatro experimentos na área urbana de Berlim e o resultado é que os alimentos apresentaram níveis toleráveis dessas substâncias. Seria necessário, por exemplo, ingerir dez quilos de alface em uma semana para que uma pessoa fosse intoxicada, no caso, por cádmio. “A toxicidade de alimentos em geral está associada a cultivos em solos contaminados. Nessas situações, é preciso realizar a remoção do solo para fazer o plantio de hortas”, mostrou Heide.

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Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

Na programação do dia 8 de abril, na FEA, a professora Cornelia Oschmann, também da Humboldt, apresentou avanços em aquacultura e jardins aquapônicos. Atualmente, a metade do consumo de peixes no mundo é suprida pela piscicultura, disse. Portanto, existe aí um nicho importante a ser descoberto pela aquacultura, não só para melhorar a qualidade, mas também a quantidade de peixes e outros alimentos. A aquacultura é um conceito amplo que abrange a piscicultura junto à produção, sob controle, de outros animais aquáticos ou mesmo plantas aquáticas e algas.
Também no dia 8 de abril, o professor Decio Zylbersztajn, coordenador do Centro de Conhecimento em Agronegócios (Pensa) da FEA, destacou a importância de políticas de agricultura urbana num mundo em que as terras agricultáveis tornam-se cada vez mais escassas e caras.

No dia 7 de abril, Cornelia mostrou de que forma a Humboldt vem estudando a viabilidade de jardins urbanos na era das mudanças climáticas globais. Ecofisiologista, Cornelia mostrou algumas espécies de plantas testadas para uso urbano em situações de estresse climático.

Inovação

Com uma história pontuada pela presença de 29 Prêmios Nobel em seu quadro docente, a Universidade Humboldt de Berlim prima pela vanguarda no que diz respeito à pesquisa. A transdisciplinaridade é levada tão a sério que recentemente foi criado o que a instituição chama de “clusters de excelência”. São núcleos abrigando áreas tão distintas que, por vias normais, dificilmente seriam estudadas em conjunto.

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Os núcleos combinam humanidades e ciências naturais de uma forma única, em que cultura encontra arqueologia, ciências da computação conversam com musicologia e matemática se interliga a estudos da comunicação.
Além desses clusters, a criação de três Integrative Research Institutes (IRIs) combinam institutos de pesquisa, laboratórios de desenvolvimento e institutos de estudos avançados, de forma a levar a universidade a interagir com instituições não-universitárias e iniciativas empreendedoras.

No seu discurso, o presidente da Humboldt mostrou que esses institutos integrativos buscam respostas para os grandes desafios da globalidade. Fez um paralelo sobre as pesquisas dos IRIs da Humboldt e os temas abordados pelo ciclo de Conferências USP Desafios da Globalidade.

“Estamos muito felizes que nossos pesquisadores tenham tantos elementos em comum para trabalhar. A Humboldt está atenta às rápidas mudanças que ocorrem atualmente no cenário acadêmico. Como estratégias para a internacionalização, torna-se cada vez importante a escolha de parceiros competitivos no cenário global”, disse o presidente.

Design verde

O coordenador do Kosmos Workshop, Volker Minks, abriu os trabalhos no dia 7 de abril com a palestra “Green Urban Design and the Open Space System in Berlin”. Levou à plateia casos bem-sucedidos de jardins e hortas em centros urbanos como Berlim, Londres e São Paulo.

Minks mostrou telhados e paredes verdes com sistemas integrados de reúso de água e reaproveitamento de água da chuva. As plantas funcionam como filtro biológico, contribuindo para a economia de água e energia.

Os estudantes Henrique Kefalás e Joaquim Alves da Silva Jr., ambos mestrandos do Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental (Procam) da USP, apresentaram os estudos do projeto Criando Terra no Instituto de Energia e Ambiente (IEE): Uma Iniciativa de Agricultura Urbana, Pesquisa e Educação Ambiental Dentro e Fora da Universidade de São Paulo. Depois da palestra, os participantes visitaram o jardim cultivado no IEE como parte das pesquisas de Kefalás e Silva Jr.

O grupo também visitou o telhado verde do Centro Cultural São Paulo, onde o plantio de grama, sementes e mudas de hortaliças e flores começou de maneira espontânea, há dois anos. A horta comunitária vem sendo coordenada pelo Instituto 5 Elementos, mostrou André Biazoti, que responde pelo projeto nessa organização não-governamental.

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Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

A oficina no Centro Cultural contou com a participação do diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, Martin Grossmann. O professor mostrou as propostas arquitetônicas e culturais do Centro Cultural e sua inserção na São Paulo da década de 1970. A arquitetura de vanguarda e a proposta democrática de museu e biblioteca vão ao encontro de propostas urbanas inovadoras, como o telhado verde que atualmente existe no teto da edificação, disse Grossmann.
As oficinas do Kosmos Workshop também incluíram visitas ao viveiro Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera, e à Horta das Corujas, exemplo de horta comunitária localizada na Vila Beatriz, em São Paulo.

Lixo e energia

O ex-reitor José Goldemberg abriu as oficinas do dia 9 de abril apresentando os resultados de um estudo sobre resíduos sólidos que aborda as dificuldades enfrentadas pelos municípios brasileiros no que se refere ao tratamento e à disposição final desse produto. O volume de lixo das grandes cidades brasileiras já torna viáveis os investimentos em incineradores para a geração de energia elétrica, mostrou.
A professora Suani Teixeira Coelho, coordenadora do Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio) do IEE, mostrou que as tecnologias de conversão, que permitem transformar resíduos orgânicos e não-orgânicos em biogás, para ser utilizado na produção de energia e eletricidade, são a resposta mais adequada para o lixo gerado em pequenos municípios.

“No Brasil, 80% dos municípios possuem cerca de 20 mil habitantes e para essas cidades não é economicamente viável investir em incineração, pois a produção de energia a partir do calor gerado na queima do lixo só se torna viável em grande escala. Estamos fazendo estudos que mostram a viabilidade econômica da gaseificação aplicada a pequenas comunidades”, disse ao Jornal da USP.

Segundo Suani, apenas Barueri e São Bernardo do Campo, próximas à capital paulista, estão investindo em incineradores. Mas a adoção dessa tecnologia no Brasil ainda esbarra em desinformação e preconceito. “Não é verdade que o produto da queima irá poluir a atmosfera, pois o Brasil terá que respeitar os padrões europeus de emissão nesses incineradores. E também não é verdade que essa tecnologia irá tirar o serviço dos catadores e pessoas envolvidas com reciclagem, porque a separação do lixo antes da sua incineração continuará sendo necessária”, acrescentou.

O professor Frank Riesbeck mostrou os sistemas de coleta e as tecnologias utilizadas para a conversão do lixo em energia na Alemanha. Naquele país, o tratamento do lixo antes da sua disposição final alcançou a invejável taxa de 100%.
O Kosmos Workshop contou com a contribuição e facilitação internacional do secretário-executivo do Centro Ibero-Americano (Ciba), Gerson Damiani, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP.

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