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Núcleo da USP dedica-se ao estudo do processo de inovação no Brasil

Publicado em Sociedade, USP Online Destaque por em

Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Estimular o surgimento de novas tecnologias, discutir políticas públicas no setor e contribuir para a formação de engenheiros são objetivos do Observatório da Inovação e Competitividade (OIC) da USP

A lanchonete na avenida Paulista, quase na esquina com a Brigadeiro Luís Antônio, chamava a atenção pelo nome: “O engenheiro que virou suco”. O local foi aberto pelo engenheiro Odil Garcez Filho e sua mulher, Neide, depois que Garcez perdeu o emprego. A inspiração para o batismo veio do filme O homem que virou suco, de João Batista de Andrade, ganhador de vários prêmios em festivais no Brasil e no exterior. Naquele ano de 1982, o País atravessava uma recessão, e a demissão de engenheiros era um dos símbolos das dificuldades enfrentadas por empresas e trabalhadores.

“Esse caso virou o estereótipo de um momento, o início dos anos 80, em que a carreira era muito pouco atraente. A engenharia é muito ligada aos ciclos econômicos”, diz Mario Sergio Salerno, docente do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP e coordenador do Observatório da Inovação e Competitividade (OIC), um dos Núcleos de Apoio à Pesquisa (NAPs) criados na USP em 2011. A própria procura de estudantes pelos cursos de Engenharia tem relação com esses ciclos, continua Salerno. Ela subiu bastante, por exemplo, no começo da década de 2000, quando a economia voltou a crescer, propiciando novos investimentos em infraestrutura e obras públicas.

portal20150430_3A discussão sobre formação de engenheiros e sua atuação no mercado de trabalho está claramente associada ao desenvolvimento econômico e é uma das vertentes do trabalho do OIC. Um dos projetos do Observatório é o EngenhariaData, que reúne indicadores sobre esses temas com o objetivo de ser um “instrumento de diagnóstico, inteligência estratégica e prospecção de ações e políticas voltadas ao apoio e ao aumento da inovação e competitividade”, explica o site do projeto na internet. “A oferta de engenheiros de qualidade e a existência de demanda por esses profissionais são pilares fundamentais de uma trajetória de desenvolvimento econômico baseada na inovação, tal como o Brasil procura trilhar.”

Uma das motivações para a realização dos levantamentos era o debate ocorrido no final da década passada sobre uma suposta falta de engenheiros no mercado. De acordo com o Relatório 2013 do EngenhariaData, trata-se de um problema localizado – um gap geracional provocado por períodos de crise econômica de décadas anteriores. “Há escassez de engenheiros experientes, na faixa de 40 a 54 anos, devido a um desinteresse pela formação em engenharia em meados da década de 80 e 90”, aponta o texto, disponível no site. O relatório registra também que “há um aumento no número de matriculados (nos cursos) e de engenheiros empregados, o que consolida um ciclo virtuoso que vem se constituindo ao longo dos anos 2000”. A formação de engenheiros no Brasil, conforme o levantamento, ainda é insuficiente em comparação com outros países: México e Estados Unidos formaram, respectivamente, 7,67 e 5,22 por 10 mil habitantes, enquanto o índice brasileiro em 2012 ficou em 2,79.

Interlocução

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Foto: Marcos Santos
Coordenador do OIC, professor Mario Sergio Salerno

O Observatório já existia desde 2007, abrigado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP a partir de uma proposta feita por Salerno em conjunto com Glauco Arbix, docente do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Com sua transformação num dos NAPs, a partir de edital específico da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP – à época comandada pelo atual reitor, Marco Antonio Zago –, o OIC passou a reunir também pesquisadores de outras unidades, como a Faculdade de Direito, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto.

Um de seus objetivos principais é discutir políticas públicas de inovação e tecnologia e fazer com que os trabalhos desenvolvidos ultrapassem os muros da academia e subsidiem a implantação dessas políticas e de estratégias de incentivo à inovação. Alguns resultados estão reunidos em publicações como os dois volumes de Inovação – Estudos de jovens pesquisadores brasileiros (Editora Papagaio, 2010), disponíveis para download no site do IEA. Outra vertente importante nessa direção é a interlocução com organismos e entidades – dos setores público e privado –, propiciada por seminários e debates organizados pelo núcleo.

O OIC tem também projetos que resultam de parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O EngenhariaData é um deles. Outros frutos da parceria são a elaboração de propostas de política pública para plataformas demonstradoras tecnológicas – uma delas já adotada para o setor aeronáutico – e a reunião de um conjunto de informações de aparelhos estatísticos oficiais para construir um sistema mais robusto de indicadores de competitividade entre países. “Há uma insatisfação geral com esses relatórios que saem, por exemplo, do Fórum Econômico Mundial, que são muito ruins. Trabalhamos com dados oficiais para evitar que tudo seja baseado só em opinião, o que distorce os resultados”, explica Salerno.

“Nossa perspectiva é continuar nessas linhas relacionadas à avaliação de políticas públicas e melhoria dos instrumentos para inovação nas empresas”, diz o coordenador do OIC, salientando que o sistema nacional de inovação vem se tornando mais complexo. “Quase toda grande universidade do mundo tem um centro de apoio e análise sobre política. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) faz isso, mas, no Brasil, de modo geral, inclusive na academia, é uma prática muito pouco comum. A USP deveria fazer mais, e creio que vamos pegar esse veio.”

Incentivos existem, mas são pouco utilizados

portal20150430_2Para o professor Mario Sergio Salerno, o cenário da inovação no Brasil começou a mudar estruturalmente na década passada, especialmente a partir da promulgação da Lei da Inovação, de 2004, e da chamada Lei do Bem, de 2005, ambas nascidas no primeiro governo Lula. Elas criaram os marcos legais de uma política de Estado para inovação, permitindo, por exemplo, que o Estado faça compras públicas de produtos inovadores e que as empresas abatam do imposto de renda os dispêndios em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e obtenham recursos públicos não-reembolsáveis para investimentos em P&D.

Outro fator positivo nos últimos anos foi a expansão da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, presidida de 2011 até o mês passado por Glauco Arbix, professor da FFLCH e integrante do OIC. Para Salerno, que foi diretor de Estudos Sociais do Ipea (2003-05) e diretor de Desenvolvimento Industrial da ABDI (2005-07), o importante é que haja continuidade no financiamento.

O professor saúda a consolidação dos instrumentos legais, mas defende que eles sejam mais utilizados. “O número de empresas que estão usando esses incentivos é crescente, mas ainda pequeno em relação ao tamanho do País. Temos que andar mais”, conclui.

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