Do sabão à marcenaria, a matemática para emancipação social

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Luciene Antunes, especial para o USP Online

A mestranda Geisa Zilli Shinkawa participa grupo de pesquisa EduMatEcoSol, ligado ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos,  e acompanha um empreendimento em economia solidária de um grupo de mulheres para produção caseira de sabão em pó e em pedra. Geisa acompanhou a rotina de trabalho do grupo de mulheres para observar como a matemática está presente no empreendimento, de que conhecimentos elas precisam, de que forma pensam e que deficiências tinham para desempenhar melhor suas atividades.

Em sua dissertação, a pesquisadora relata, por exemplo, detalhes sobre como as sócias do empreendimento não se preocupam com os valores exatos dos produtos vendidos e fabricados. “Elas realizam o controle mensal, mas o fazem com base em valores aproximados por meio de contagem dos produtos em estoque, o que para elas é suficiente para saber qual o valor médio do excedente e das despesas mensais do empreendimento. Esse é um importante elemento da Etnomatemática desse grupo”, diz.

Arredondando

O trabalho de Geisa, que teve apoio da Fapesp, incluia observar como as empreendedoras trabalhavam e como conhecimentos de matemática que elas ainda não tinham poderiam ajudá-las. Dentre os detalhes observados, ela descreve as unidades de medida utilizadas, como garrafas pet e caixas de leite, a importância da organização de dados para as sócias, a forma de calcular valores aproximados e sempre arredondados para lidar com dinheiro e a utilização dos conceitos de proporcionalidade quando precisam pensar na quantidade matéria prima para a confecção de diferentes quantidades de produto.

“Ao identificar o uso desses saberes, vemos que no campo da educação matemática, as atividades realizadas pelas integrantes do grupo de empreendedoras são orientadas, motivadas e induzidas pelo meio, refletindo em seus conhecimentos matemáticos prévios”, avalia a mestranda. Dentre as limitações que as sócias revelaram com a matemática e outros conhecimentos necessários para o negócio do sabão caseiro,  foi identificado e trabalhado, por exemplo, o cálculo de valores proporcionais e questões de leitura e escrita, importantes para a elaboração de orçamentos.

Área e volume na marcenaria

Ricardo Kucinskas, aluno do quarto ano de Licenciatura em Matemática na Universidade Federal de São Carlos, faz iniciação científica sob orientação de Renata Meneghetti desde 2010, no EduMatEcoSol. Kucinskas acompanha uma marcenaria coletiva feminina em seu projeto, também financiado pela Fapesp. “Interessei-me pelos temas estudados pela professora durante uma palestra sua sobre Etnomatemática e economia solidária, durante um evento na UFSCar em 2009”, conta o pesquisador. “Queria saber mais sobre a Matemática inerente ao cotidiano, mais palpável e preocupada com o aspecto social.”

Acompanhando o dia-a-dia das empreendedoras na marcenaria, a pesquisa de Kucinskas pretendia identificar a matemática já usada e as deficiências no conhecimento da disciplina para realizar as tarefas.

Na marcenaria, as sócias em geral já utilizavam com frequência e domínio as operações básicas, como a adição e subtração de números naturais, tinham noções de medida e certa habilidade para utilizar a calculadora. O que era necessário aprimorar, entre outros pontos, eram as operações com números naturais e racionais na forma decimal, porcentagem, e cálculo de área e volume – algumas das necessidades comuns às marcenarias.

“Trabalhamos algumas situações matemáticas do cotidiano dessa marcenaria, desde o cálculo da quantidade de madeira necessária para a confecção de uma cama ou cadeira, até discussões sobre calculadora, ábaco e equações. Buscamos orientá-las que o importante era entender o que faziam, para que obtivessem uma aprendizagem significativa, isto é, relacionando o conteúdo a ser aprendido com aquilo sobre o que elas já tinham conhecimento”, conclui.

Conheça o trabalho do Grupo de Pesquisa em História e Ensino da Matemática, também do ICMC:

 

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