Goffredo da Silva Telles Júnior: o mestre do saber, do amor e da poesia

Publicado em Sociedade, USP Online Destaque por em

Uma plateia formada por autoridades, alunos e ex-alunos tomou conta do Salão Nobre da Faculdade de Direito (FD) da USP no dia 15 passado para comemorar o centenário de um dos seus mais brilhantes professores: Goffredo da Silva Telles Júnior. Autor de livros e textos que marcaram a história do País, entre os quais a Carta aos Brasileiros – um dos principais levantes contra a ditadura militar –, o mestre levou seus ensinamentos para muito além das cadeiras da faculdade.

A atuação do jurista, que teria completado cem anos no dia 16 passado, está gravada na história de toda a sociedade. Ele ajudou a formar grandes nomes da política, da magistratura e da advocacia. Por essa razão, em sua homenagem, seus antigos alunos – como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, o diretor da FD, José Rogério Cruz e Tucci, o ex-ministro do Superior Tribunal Militar Flávio Flores da Cunha Bierrenbach e o professor e ex-ministro de Relações Exteriores Celso Lafer – compuseram a mesa do evento para não somente registrar o centenário de Goffredo, mas ampliar o legado deixado por um dos mais ilustres jurisconsultos da história do País. Também se puseram à frente os anfitriões José Carlos Madia, presidente da Associação dos Antigos Alunos, e Miguel Matos, diretor do Portal Migalhas, para, em seus discursos, assinalar um pouco do agradecimento pelos “ensinamentos adquiridos”. Afinal, como o próprio Goffredo dizia, “uma folha dobrada nunca mais voltará a ser a mesma”.

Foto: Cecília Bastos
Foto: Cecília Bastos

“Era um professor brilhante que sabia transmitir aos alunos todo o saber jurídico, e seus ensinamentos iam além dos bancos da faculdade”, lembrou José Carlos Dias, um dos idealizadores – ao lado de Goffredo e de Bierrenbach – da Carta aos Brasileiros. O texto, lido em agosto de 1977, em frente às Arcadas da FD, no Largo São Francisco, foi um grito de liberdade em pleno regime de exceção. “É impressionante como um documento passou a identificar de forma profunda a história mais recente da luta pela liberdade do País e de nossas Arcadas, símbolo da consciência do Estado democrático de direito”, destacou Tucci, agradecendo à viúva de Goffredo, Maria Eugênia da Silva Telles, bem como à filha, Olívia da Silva Telles. Para elas foi entregue a placa de Professor Emérito, título concedido ao professor Goffredo pouco antes de ele morrer. “Não tivemos tempo de entregar pessoalmente a placa a ele”, lamentou Madia.

As homenagens da noite do dia 15 ainda foram marcadas pela leitura da Carta aos Brasileiros no pátio da Faculdade pelo ator e ex-aluno das Arcadas Juca de Oliveira. O local foi tomado pela emoção, com direito a apresentação do Coral da USP.

Nesse momento foram encerradas oficialmente as comemorações pelo centenário de Goffredo, iniciadas no dia 11 passado, que incluíram exposição de fotos, concurso cultural e relançamento de livros do professor.

Harmonia

Goffredo da Silva Telles Júnior esteve presente nos momentos mais importantes da história brasileira. Também tem seu nome eternizado em grandes instituições e na memória dos juristas mais renomados do cenário nacional. Além de ter escrito o famoso texto contra a ditadura, foi deputado constituinte, em 1946. Todos os seus ex-alunos enfatizam que ele esteve à frente de seu tempo e se dizia convencido que o Brasil “vive uma democracia de mentira”.

Foto: Cecília Bastos
Foto: Cecília Bastos

Formado pela Faculdade de Direito da USP em 1937, Goffredo começou a dar aulas já em 1940. Durante 45 anos esteve lá, ensinando os mais jovens. Eram aulas de Introdução à Ciência do Direito, em que ele falava também sobre o amor, a poesia e a harmonia. Só se aposentou, compulsoriamente, quando completou 70 anos, em 16 de maio de 1985. Em agosto de 2002, voltou ao pátio da Faculdade de Direito para comemorar os 25 anos da leitura da Carta aos Brasileiros.

Seus passos foram traçados nas Arcadas da FD. Como recorda o presidente da Associação dos Antigos Alunos da faculdade, professor José Carlos Madia, a porta do professor Goffredo esteve sempre aberta aos alunos, mesmo depois da aposentadoria. “Ele continuou a receber os alunos para esclarecer as questões primordiais do direito.” E acrescenta: “Goffredo foi um dos professores mais queridos da faculdade”.

Madia revela ainda que o mestre sempre foi apaixonado pelo pátio das Arcadas. Essa paixão está registrada em uma de suas frases: “É o pátio da amizade, o pátio da convivência, da harmonia humana, da poesia. Não é sem motivo que, na porta de entrada da faculdade, gravados na pedra, estão os nomes de três meninos de nosso pátio: Castro Alves, Álvares de Azevedo e Fagundes Varella. O destino da faculdade está simbolizado desde as Arcadas da entrada”.

Foto: Cecília Bastos
Foto: Cecília Bastos

Mestre Goffredo também recebeu homenagens de outras instituições, como a Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Afinal, deixou sua história registrada em todo o mundo jurídico. Ele mesmo resumiu em uma frase o significado da advocacia para o Brasil: “Quem faz o curso de Direito recebe um diploma, que é uma chave para muitas portas”.

A ex-aluna, professora, ex-diretora da Faculdade de Direito da USP e presidente em exercício da OAB-SP, Ivette Senise Ferreira, afirma que o professor Goffredo é uma das suas melhores lembranças da faculdade. “Ele era um visionário e entusiasmava a todos os alunos para prosseguir nos estudos.”

A também ex-aluna – hoje professora de Direito Constitucional da PUC-SP – Maria Garcia revela que ainda guarda as apostilas do professor Goffredo. “Ele transmitia confiança em seus ideais e, como lecionava aos alunos do primeiro ano, fez com que muitos, hoje ilustres senhores das leis, enxergassem no direito o único meio de coexistência social e, assim, pudessem defender os direitos de todos os cidadãos.”

Professores em greve interrompem homenagem

A homenagem a um dos mais importantes e combatentes professores da Faculdade de Direito da USP, Goffredo da Silva Telles Junior, em 15 de maio, não poderia ser mais bem pautada se não pela abertura ao diálogo. Enquanto as autoridades discursavam, lembrando os passos dados por Goffredo, apitos e gritos se aproximavam do Salão Nobre da faculdade, numa tentativa de calar os presentes. Eram professores estaduais, levados por seu sindicato, em busca de reivindicações de melhores salários e condições adequadas de trabalho. Eles queriam encontrar o governador do Estado, Geraldo Alckmin, que sequer estava no local.

Aos gritos, eles se mesclaram aos que ali estavam e tornaram impossível o entendimento dentro do espaço aberto aos mais diversos ensinamentos e reivindicações, bem como à defesa do direito constitucional. Ainda assim, as falas não se findaram, na primeira parte do reconhecimento ao jurista, que faria 100 anos em 16 de maio.

Num segundo ato, o pátio tão apreciado por Goffredo foi tomado: somaram-se aos convidados mais 150 manifestantes, com seus apitos e gritos. Aí foi a vez de o ex-ministro Flávio Flores Bierrenbach subir à tribuna. Coube a ele começar a ler Carta aos Brasileiros, lida no mesmo lugar por Goffredo, em agosto de 1977: “Afirmamos aqui que a Constituição é garantidora do Estado Democrático de Direito”, disse, acrescentando: “Chamo vocês, professores como nós, a dividir esta tribuna e expor suas reivindicações, pois aqui é uma casa aberta ao diálogo”. Nenhum, porém, se encorajou a tomar o posto, depois ocupado por um ex-estudante daquela casa, o ator Juca de Oliveira, para dar voz novamente à leitura da “Carta aos Brasileiros”.

Kaco Bovi / especial para o Jornal da USP

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