Foto: Marcos Santos

Cientistas investigam ligação entre doença renal e demência

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Em experimentos realizados em ratos com doença renal crônica e déficit cognitivo, cientistas do Instituto de Ciências Biomédicos (ICB) da USP liderados pelo professor Cristóforo Scavone, do Laboratório de Neurofarmacologia Molecular, constataram altos níveis da proteína TNF-α (fator de necrose tumoral alfa, uma citocina mediadora da resposta inflamatória) e baixos níveis de Klotho (proteína ligada à longevidade). “É de conhecimento da comunidade científica que a longevidade está ligada a níveis mais altos de Klotho no organismo”, aponta Scavone. Um artigo sobre a pesquisa foi publicado recentemente na Revista Científica PLOS One.

De acordo com o docente, a prevalência de demência em pessoas com doença renal crônica chega a 30%, segundo mostram alguns estudos da literatura científica. O trabalho foi realizado no âmbito do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Neurociência Aplicada (NAPNA) e teve como base a tese de doutorado da pesquisadora Sabrina Degaspari, realizada sob a orientação do professor Scavone. A pesquisa contou com a participação dos pesquisadores Carmen Branco Tzanno-Martins e João Paulo Branco-Martins, do Centro Integrado de Nefrologia de São Paulo; além dos professores Roberto Zatz e Clarice Kazue Fujihara, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); Tania AraujoViel, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP; Hudson de Souza Buck, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; e dos seguintes pesquisadores do Laboratório de Neurofarmacologia Molecular: Ana Maria Marques Orellana, Ana Elisa Böhmer, Larissa de Sá Lima, Diana ZukasAndreotti, Carolina Demarchi Munhoz, e Elisa Mitiko Kawamoto.

Experimentos

Foto: Marcos Santos
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Os estudos foram realizados com cerca de 40 ratos, divididos em grupo controle e grupo com doença renal crônica induzida por meio da remoção de um dos rins e redução da atividade do outro rim (grupo Nx). Após a cirurgia, os dois grupos foram acompanhados por 30, 60, 90 e 120 dias, ao longo dos quais participaram de dois experimentos com intuito de mensurar a cognição dos animais.

Na esquiva inibitória, os animais são colocados em um aparelho com dois ambientes: um claro e outro escuro. Ao preferirem passar para o lado escuro, recebem um leve estímulo elétrico nas patas. Após 24 horas, o procedimento é repetido. Se o animal se lembrar da tarefa, ficará mais tempo no lado claro. Em todas as sessões os pesquisadores medem a latência (tempo que o animal levou para mudar de um ambiente para outro). Caso esteja com déficit cognitivo, o animal irá repetidamente passar para o lado escuro.

No experimento de reconhecimento do objeto novo, os animais são apresentados a dois objetos e quando já estão familiarizados com ambos, um dos objetos é retirado e um novo é inserido no ambiente. “Se o animal já estiver com déficit cognitivo, ele irá nos dois objetos, pois não consegue reconhecer o novo”, explica Scavone.

Os pesquisadores observaram que nos 30 dias iniciais os animais nefrectomizados (Nx) já apresentavam déficit cognitivo em ambos experimentos. “A presença de déficit cognitivo neste momento pode ser explicado por alterações vasculares nesses animais”, diz o pesquisador. Segundo Scavone, esses ratos estão expostos a uma reação inflamatória que, junto com outros fatores, pode fazer diferença para esta condição.

O grupo também constatou, nos animais com déficit cognitivo, que no líquor (líquido encefaloraquidiano) havia uma alta concentração de TNF-α. A TNF-α ativa uma proteína chamada de NFKB (fator de transcrição de genes pró e antiinflamatórios), sendo que todos os animais que apresentaram déficit cognitivo apresentaram ativação de NFKB. Já na análise do tecido, todos os animais apresentaram aumento da TNF-α.

Com 120 dias de experimento, os pesquisadores verificaram que os animais do grupo Nx apresentavam inflamação crônica, sendo considerados mais suscetíveis a levar uma potencialização do aumento da citocina (TNF-α) até o córtex pré-frontal, área cerebral ligada à memória.

A partir daí o grupo decidiu fazer uma correlação entre a latência encontrada na esquiva inibitória e a concentração de TNF-α. “Os animais com latência menor, ou seja, que lembravam menos diante do estímulo elétrico, apresentavam uma maior concentração de TNF-α e, consequentemente, uma inflamação aumentada”, destaca o professor.

Klotho

Foto: Divulgação
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Diante desses resultados, o grupo liderado pelo professor Scavone decidiu ir mais além. Eles resolveram associar esses resultados com a Klotho, proteína envolvida com a longevidade e que regula o fosfato e a vitamina D no organismo. A ausência de Klotho leva a uma menor absorção de fostato, ocasionando acúmulo de cálcio e fósforo no organismo.

Os pesquisadores perceberam que os animais com TNF-α aumentada apresentavam menos Klotho. “Com isso, conseguimos fazer uma associação da Klotho com a doença renal crônica”, destaca. Scavone lembra que esses resultados vão ao encontro com o fato de pacientes submetidos a diálise apresentarem altos níveis de TNF-α e baixa concentração de Klotho. “Porém, ainda são necessários outros estudos para entender os motivos que estão envolvidos neste processo”, finaliza.

Valéria Dias / Agência USP de Notícias

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