Datação em sítio arqueológico contraria teoria de povoamento da América

Publicado em Ciências, USP Online Destaque por em

Escavações realizadas pela equipe de Fabio Grossi, doutorando do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, dataram sedimentos associados a ocupações de grupos caçadores-coletores, que revelaram a idade de 14.500 anos, no sítio arqueológico Boa Esperança 2, na cidade de Boa Esperança do Sul, no interior de São Paulo. A pesquisa de Grossi é orientada pelo professor Astolfo Araújo, ligado ao estudo de povos paleoíndios e com a pesquisa de Walter Neves sobre Luzia, fóssil encontrado em Lagoa Santa, Minas Gerais, datado com 11.500 anos.

A datação de 14.500 anos foi feita em 2010 pela Faculdade Tecnológica (Fatec) de São Paulo por meio de uma técnica chamada Luminescência Oticamente Estimulada (LOE), na qual mede-se a quantidade de radiação solar recebida pelo solo enquanto ele estava exposto. Polêmica, a data encontrada por Grossi e sua equipe entra em conflito — assim como outras que têm surgido pela América — com as teorias de povoamento do continente americano, que, segundo os livros de História, teria acontecido há 12 mil anos, no final da Era Glacial.

A história de povoamento paleoíndio de São Paulo é, segundo Grossi, um pouco nebulosa: a maior parte dos estudiosos pesquisa os indígenas, que são povos mais recentes. São Paulo é tida como uma “terra de fronteiras”, onde diferentes povos e culturas indígenas teriam se encontrado, mas não é muito claro como e quando eles chegaram aqui devido a dificuldade em se datar sítios mais antigos nos quais, muitas vezes, os únicos vestígios são as pedras.

Foto: Roberto Ávila
Foto: Roberto Ávila

O sítio arqueológico Boa Esperança 2 foi identificado em 2003, por conta de uma vistoria arqueológica para um licenciamento ambiental, e está localizado às margens do rio Jacaré-Guacú. O rio, o qual já foi muito mais extenso do que é hoje, possui uma grande cascalheira, condição favorável à instalação desses povos paleoíndios devido a grande quantidade de pedras, sua matéria prima para a sua sobrevivência. O sítio alcançou 1,9 metros de profundidade em suas escavações e pode indicar uma transição do modo de vida nômade desses povos para o sedentarismo, devido a presença intensa de material arqueológico desde a superfície.

Novas pesquisas e datações

Devido a pouco financiamento, apenas uma datação foi feita à época — o que, nas palavras de Grossi, “não é suficiente na Ciência para comprovar algo e derrubar grandes teorias”. Agora em seu doutorado, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a orientação do professor Araújo e trabalhando em conjunto com uma equipe de Geografia e Geologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e outra do Museu de Arqueologia e Paleontologia (MAPA) de Araraquara, voltou ao sítio Boa Esperança 2 para coletar mais amostras para novas datações.

Foto: Roberto Ávila
Foto: Roberto Ávila

As novas amostras serão mandadas para o laboratório Beta Analytic, na cidade de Miami, nos EUA. Segundo Grossi, a ideia dessa nova ida a campo é ratificar ou não se, de fato, a datação encontrada em 2010 é real, juntamente do mapeamento realizado pela equipe da Unicamp. “O pessoal da Geografia e da Geologia está fazendo o mapeamento pedológico do solo, datando os sedimentos que serão confrontados com a datação arqueológica para ver se ‘batem’”, completou.

O material escavado estava sobre uma antiga cascalheira com seixos muito grandes, o que, segundo Grossi, está associado ao fim da Era Glacial, que se deu a cerca de 10 mil anos atrás. Grossi explica que pedras de tamanho tão grande indicam um fluxo de água muito abundante, correspondente, no estudo geológico, a um período no qual o clima estava transformando-se de frio e seco para quente e úmido.

Foto: Roberto Ávila
Foto: Roberto Ávila

Grossi explica que as novas amostras permitirão fazer uma reconstrução em 3 dimensões de como era esse solo, ajudando-os a visualizar como se deu a deposição das camadas. Para reforçar as datas encontradas, a equipe pretende trabalhar em outros locais no estado, como o Sítio Carcará em São José dos Campos, sítios em Ouroeste, em Bauru e em Pitangueiras, além do Sítio Alice Boer em Rio Claro, com datação também de mais de 14 mil anos.

Mesmo que as datas encontradas em 2010 no Boa Esperança 2 se mostrem equivocadas após este novo estudo, Grossi ressalta que o sítio não deixará de ter sua importância. “Ele é muito específico, diferente dos outro sítios caçadores-coletores e, ainda assim, é de um grupo ancestral daquela região. Ainda que ele acabe não se mostrando tão antigo, é um dos primeiros grupos ocupantes daquela região, gerando muitos questionamentos”, completa.

Marília Fuller / Agência USP de Notícias

Mais informações: email fabiogrossi@usp.br

.