Estatística para todos é lema de oficinas educativas do NeuroMat

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No final do século 19, o matemático inglês Karl Pearson defendeu que a estatística era “a gramática da Ciência”. Dominá-la significava compreender a linguagem que está por trás de todos os fenômenos que afetam nossa vida cotidiana. Em abril deste ano, pesquisadores do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Cepid NeuroMat), localizado no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, se reuniram com cerca de 30 educadores para realizar o primeiro Ciclo de Atividades do CEPID NeuroMat para Professores da Escola Básica (Matemática, Ciências e Áreas Interessadas). O projeto tinha como principal objetivo complementar a formação em estatística dos professores, conferindo a eles novos instrumentos para serem trabalhados na escola.

Para Lisbeth Kaiserlian Cordani, professora aposentada do IME e coordenadora do primeiro dia de atividades, a iniciativa queria “ajudar os professores com exemplos possíveis de serem replicados em sala de aula a partir de materiais tangíveis”, dando a eles a segurança de propor, juntamente com os estudantes, projetos de natureza interdisciplinar. “Com isso o aluno se torna protagonista do processo gerando mais interesse e envolvimento”, salienta.

Foto: Simone Harnik / Divulgação
Foto: Simone Harnik / Divulgação

A ação foi resultado de uma parceria da Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima com o Cepid NeuroMat, criado em 2013 e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Junto com a professora Lisbeth, estavam André Frazão Helene, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP acompanhado por docentes e bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), coordenados pelas professoras do IB Daniela Scarpa e Suzana Ursi.

“No primeiro dia desenvolvi algumas atividades ligadas à Estatística e Probabilidade no estilo ‘oficina’ trabalhando dados coletados em sala de aula (tamanho do palmo da mão direita) e discutindo a partir dos dados coletados do grupo as ideias poderosas da estatística que são a distribuição, medidas de  posição e a variabilidade”, esclarece Lisbeth. Assim, por meio de exemplos do cotidiano, educadores do ensino básico puderam trabalhar situações corriqueiras para reproduzir cálculos que alunos visualizariam com facilidade.

Já no segundo dia de formação e debate, coube ao professor Frazão convidar o público para dinâmicas que envolvem o conhecimento de neurociências e matemática. Em uma delas, Frazão explicou que as regiões do cérebro que registram as informações do tato são proporcionais ao número de receptores pelo corpo. Assim, em um experimento simples, que pode ser executado em sala de aula, foi possível perceber que a região do cérebro para a sensibilidade do antebraço tem praticamente o mesmo tamanho que a região para a sensibilidade dos dedos.

Dos professores para os alunos

Foto: Simone Harnik / Divulgação
Foto: Simone Harnik / Divulgação

Para Simone Harnik, mestre em políticas públicas, aluna do Bacharelado em Estatística no IME e participante ativa do projeto, trazer o conhecimento da estatística para o cotidiano de educadores, e especificamente, de seus alunos é dar a eles a “oportunidade de lidarem com a incerteza desde cedo”. Uma das responsáveis por um dos produtos da primeira oficina, Simone atua diretamente nas salas de aula, ministrando, em parceria com professores de matemática que participaram do projeto do NeuroMat uma oficina de uma hora por semana na grade horária do 8º ano.

São quatro turmas, com cerca de 20 alunos cada uma. “Entre as atividades, tivemos discussões sobre medidas e suas incertezas, representação gráfica das informações, investigação em dados públicos, análise e interpretação e até a materialização das informações em cartazes, redações”, elenca.

As aulas são oferecidas semanalmente e continuam até o final do ano letivo. A ideia começou a partir de uma conversa com os educadores que sugeriram a participação dos envolvidos na Oficina em atividades dentro da sala de aula. Nelas, os alunos tomam contato com gráficos, estudam gráficos de pizza, de setor e aprendem a avaliar dados públicos. Perguntas sobre a falta de água em São Paulo e a incidência de dengue em comunidades são alguns dos exemplos que se tornaram material para o aprendizado da estatística.

“Além de ser uma oportunidade de trabalhar com uma política pública de educação, aplicar o conhecimento da estatística é uma experiência muito interessante”, revela Simone.

Segunda Etapa

Foto: Simone Harnik / Divulgação
Foto: Simone Harnik / Divulgação

Para o novo semestre, já está prevista a continuidade da oficina de estatística, com a etapa que será chamada “Data Amorim”, focando em pesquisas sobre a realidade interna da escola, com temas de saúde e nutrição e hábitos culturais. Além disso, os educadores que integraram o primeiro módulo do primeiro semestre receberão mais oito horas de formação, completando 20 horas totais de curso.

“A continuação está sendo construída e contará com mais atividades ligadas a análise de dados”, afirma Lisbeth, relembrando que está prevista também a construção de sequências didáticas pelos professores para a continuidade da atividade e sua correpondente aplicação aos alunos.

Os resultados da iniciativa pioneira na área devem ser disponibilizados publicamente em breve, para que mais educadores tenham a chance de aproveitar os conhecimentos gerados pelas oficinas.

Na opinião da professora Lisbeth, é papel da Universidade fazer tudo o que estiver ao seu alcance para minimizar as dificuldades do ensino básico, já que, especificamente na área da Matemática, o conhecimento da Estatística não é o foco nem da graduação da maior parte dos educadores, nem do currículo das escolas. “Este projeto nos dá um alento no sentido de que há pessoas na Universidade que se interessam pela educação básica, e se preocupam com a qualidade de ensino e com o direito de aprender.”

Mais informações: site http://neuromat.ime.usp.br/ , email neuromat@numec.prp.usp.br

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