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Aparecido do Nascimento, o “Jacaré”: relação histórica com a Esalq

Publicado em Gente da USP, USP Online Destaque por em

Nem todo mundo conhece Aparecido Messias do Nascimento, mas se perguntarmos quem foi ou por onde anda o Jacaré, boa parte dos professores, funcionários e ex-alunos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP saberão indicar um sujeito bem humorado, falante e cheio de histórias para contar. “O apelido ganhei ainda menino, pois eu não saía do Ribeirão Piracicamirim, ia nadar, tarrafear, pescar, naquele tempo tinha peixe…”. Sua relação com a Esalq é histórica. “Meus tataravós eram escravos da fazenda da família do Luiz de Queiroz”. Jacaré nasceu em 21 de novembro de 1937. “Meu avô, meu pai, depois eu e meus filhos, todos nascemos na Esalq”.

Da sua infância diz que havia mais liberdade, mais amizades e um bonde cheio de lembranças. “Na Esalq também aprendi a ler, estudei na Escola Mista São João da Montanha, que ficava dentro da Esalq e era frequentada pelos filhos de professores e funcionários. Depois fui estudar na escola Prudente de Moraes e aí eu passava uns apertos. Eu pegava o bonde e os estudantes passavam sabão nos trilhos e o trem derrapava na subida!”.

Jacaré lembra também, ainda menino, das ocasiões em que conheceu por aqui gente ilustre. “Eu conheci na Esalq o Getúlio Vargas. Ele descia no campo de aviação, pegava uma charretinha e entrava para passear e seguia até a casa do diretor, que ficava em frente ao gramado lateral do Edifício Central. Eu era molequinho e minha avó era cozinheira na residência do diretor e assim conheci também o Ademar de Barros, o Fernando Costa, estavam sempre por lá visitando o diretor José de Mello Moraes”.

Eu conheci na Esalq o Getúlio Vargas. Ele descia no campo de aviação, pegava uma charretinha e entrava para passear e seguia até a casa do diretor.

Jacaré: “Andei muito de charrete, de bonde, nadei e pesquei bastante, vi muita gente nascer e morrer”
Foto: Gerhard Waller / Esalq

Em 1956, Aparecido se casou com Yolanda Nogueira e, aos 21 anos, ingressou na Esalq como servente de pedreiro. “Ajudei a levantar a Casa do Estudante Universitário. Aquele terreno é um cascalho só, abrimos o chão na picareta, nossa equipe tinha quase quarenta pessoas. Certa vez estávamos enchendo a primeira coluna de concreto e o encarregado trabalhava de terno, gravata e chapéu. Aí ele ficava apressando o pessoal pra lançar o concreto e aí me descuidei e lancei uma lata de concreto no chapéu dele, que acabou ficando concretado junto com a coluna (risos)”.

Na juventude, foi goleiro e defendeu a camisa do São João da Montanha Futebol Clube, time de funcionários da Esalq que disputava torneios amadores na cidade. “Além do São João da Montanha, havia o time dos alunos, chamado Samambaia, que sempre jogava contra o XV de Novembro. Nós defendíamos o nome da Escola”.

A pinga salvadora

Em 1961, uma perua levou até São Paulo três pedreiros e três serventes, Jacaré era um deles. A missão era retirar os ossos de Luiz de Queiroz e da viúva Ermelinda, que seriam transportados para Piracicaba. “Quando começamos a quebrar, chegaram funcionários do cemitério e um investigador de polícia dizendo que estávamos destruindo a sepultura e naquela época não tinha telefone, não tinha computador, e só não prenderam todo mundo porque levamos pinga da Esalq e eles acreditaram que éramos da [Escola Agrícola]. Mas nós tivemos que prestar depoimento. Se não fosse a pinga da Esalq… (risos).

Em 1962, José Ayres Nogueira, seu sogro, faleceu, o que mudaria sua história na instituição. “Ele trabalhava na Zootecnia e então o diretor Hugo de Almeida Leme me chamou para trabalhar no lugar dele. Lá eu fiz de tudo um pouco, tirava leite, ajudava na limpeza, cortava capim, aprendi até fazer inseminação”.

De 1988 até 2007, ano em que se aposentou, Aparecido acompanhou funcionários do campus em consultas, exames internações em hospitais na capital. “Passei a ser funcionário do Serviço Social da Prefeitura do campus. Quando eu trabalhava na Zootecnia, eu já fazia esse serviço, as pessoas faleciam e ninguém conhecia os trâmites, como fazia para liberar um corpo etc. Naquele tempo não existia socorrista, eu levava o corpo até o velório, arrumava no caixão. Assim conheci muita gente, levava café, pinga e manteiga da Esalq para o pessoal em São Paulo e fiquei muito conhecido por lá. Acompanhei muita gente nas horas boas e nas horas ruins. Em Piracicaba não tinha muita infraestrutura e as pessoas da Esalq diziam que a melhor UTI que tinha na cidade era a Rodovia Anhanguera e o Jacaré (risos)”.

Foto: Gerhard Waller / Esalq

Assim, Jacaré construiu uma relação curiosa com a morte. “A morte é normal, corri com tanta gente, ajudei a salvar muita gente, mas minha patroa eu não pude salvar. Perdi ela faz um ano e até agora tem sido difícil, afinal foram 59 anos de casado…”.

Sempre preservou, também, boas relações com os alunos. “Eu e minha patroa morávamos lá na colônia da Zootecnia e o ministro Roberto Rodrigues era aluno, quando me pediu para fazermos uma canja para servir na república para um professor. Daí anos depois – ele já ministro – o encontrei no churrasco dos ex-alunos e eu perguntei a ele se ele ainda gostava de canja e aí ele me reconheceu e me deu um grande abraço!”.

Aparecido é devoto de São Judas e guarda no canto da sala uma estátua de quase um metro que era da sua mãe. “Essa estátua tem mais de sessenta anos”. Na mesma sala tem também uma tela pintada pelo filho Jorge, retratando a colônia da Zootecnia, local onde nasceu e se criou. “Andei muito de charrete, de bonde, nadei e pesquei bastante, vi muita gente nascer e morrer. Hoje ainda vou na Esalq pra bater papo”.

Caio Albuquerque / Assessoria de Comunicação da Esalq

(Publicado originalmente em “ESALQ notícias”, n.40, Junho/2015 – Projeto Memória)

 

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