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Um olhar interdisciplinar para a alfabetização

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A entrada da criança no universo da leitura e da escrita é um dos passos mais importantes para sua formação educacional. Apesar disso, a taxa de analfabetismo no País ainda é elevada – segundo dados de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 13 milhões de brasileiros ainda não sabem ler e escrever – e são numerosos também os indivíduos que reconhecem letras e números, ou seja, tecnicamente alfabetizados, mas incapazes de compreender textos simples. Além do fator determinante da exclusão social, outros também podem ser considerados ao pensar essa questão.

Despertar o interesse dos alunos na sala de aula é um dos maiores desafios enfrentados pelos professores da rede de ensino. Avaliando esse cenário, o professor Claudemir Belintane, da Faculdade de Educação (FE) da USP, propõe trabalhar a alfabetização a partir de uma visão interdisciplinar, utilizando diversas linguagens e suportes no processo de aprendizado.

Oralidade, leitura e escrita: diálogo necessário Foto: Reprodução
Oralidade, leitura e escrita: diálogo necessário
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A contação de histórias é uma das tradições mais antigas presentes na sociedade. Os textos de origem oral como as epopeias, provérbios, cantigas, poesia popular e parlendas (versos com temática infantil) enriquecem o universo narrativo e podem ser usados como instrumentos para atrair as crianças ao mundo da leitura.

Uma das metodologias usadas pelo professor durante as suas pesquisas é trabalhar a alfabetização a partir da oralidade. Ao ter contato com o texto oral as crianças formam em sua memória matrizes textuais, esquemas narrativos com uma certa previsibilidade, que enriquecem seu vocabulário e as auxiliam a lerem e produzirem outras histórias.

De acordo com o professor, uma estratégia interessante para incentivar a leitura é trabalhar o aprendizado usando diversas linguagens. Um dos métodos empregado pelos pesquisadores foi iniciar a contação da história até o clímax e depois, a partir desse momento, apresentar o texto integral para as crianças lerem. Isso estimulava os alunos a colocarem toda atenção possível na narrativa.

Outra iniciativa realizada pelos pesquisadores foi a apresentação da história do mundo dos Hobbits (povo ficcional criado pelo autor J.R.R Tolkien que deu origem a livros e filmes) às crianças do terceiro ano. Essa aventura épica foi contada de diversas maneiras a partir de animações, quadrinhos, trechos do filme e até mesmo com  fragmentos do livro. Os diversos suportes usados tornaram os alunos mais entusiasmados com leitura.

Belintane também comenta que os professores têm muitas dificuldades de trabalhar com os textos orais e acabam apenas realizando leituras em voz alta das narrativas. Entretanto esse recurso pode afastar os alunos, pois eles começam a ouvir expressões que às vezes não fazem parte do seu vocabulário. Já na contação de histórias há um trabalho corporal dos olhos e das mãos, para buscar a atenção das crianças.

Origem

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A partir de informações extraídas de uma pesquisa anterior feita na Escola Estadual Keizo Ishirara, zona oeste de São Paulo, e da análise dos dados de avaliações empreendidas pelo governo federal, Belintane chegou a um resultado muito preocupante: aproximadamente 60% das crianças brasileiras se alfabetizavam mal.

Com base nesse diagnóstico, o professor, junto com outros pesquisadores, iniciou uma pesquisa envolvendo três polos de ensino diferentes: as Escolas de Aplicação da Faculdade de Educação (FE) da USP e da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma escola da rede estadual da região de Pau dos Ferros associada à Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN).

Nessa experiência, percebeu-se que os professores enfrentavam um grande dilema ao trabalhar com a heterogeneidade das crianças na sala de aula.

O ensino da leitura no Brasil é muito tolerante,
subestima demais o potencial das crianças.

Um dos problemas identificados era a dificuldade de construir uma metodologia de ensino que atingisse todos os alunos. Belintane conta que ao detectarem que algumas crianças estavam se alfabetizando devagar, os professores acabavam diminuindo o nível de exigência do aluno. No entanto, a homogeneização da sala de aula prejudica o caráter desafiador do aprendizado. “O ensino da leitura no Brasil é muito tolerante, subestima demais o potencial das crianças” avalia o professor.

Em Belém, os pesquisadores realizaram uma experiência interessante para trabalhar melhor com a heterogeneidade. As crianças eram reunidas em grupos de dificuldades, baseados no diagnóstico das provas aplicadas. Assim esses alunos eram acompanhados por um professor específico e desafiados a progredirem em seu conhecimento. Por exemplo, se um grupo de alunos tivesse dificuldade com o alfabeto, um professor seria responsável por elaborar trabalhos e atividades que os incentivasse a dominar essa fase do aprendizado.

Desafios

Segundo o pesquisador, para cidades com uma quantidade muito grande de alunos, o ideal seria aumentar o número de professores por sala de aula. Desse modo os profissionais da rede de ensino conseguiriam lidar melhor com as dificuldades particulares das crianças.

Para Belintane, as avaliações do governo também não aproveitam o potencial de leitura que o aluno possui – as provas geralmente trabalham com diversos gêneros de textos, porém com conteúdos muito simples e cotidianos, que não demandam muito esforço dos leitores.

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As propagandas são um exemplo, pois nessa fase do aprendizado as crianças não possuem uma leitura crítica. Dessa forma, identificar a mensagem de campanhas publicitárias em avaliações faz com que os alunos apenas confirmem o efeito da publicidade, não sendo esta uma metodologia eficaz no processo de alfabetização.

Em seu livro Oralidade e Alfabetização: uma nova abordagem da alfabetização e do letramento, o professor observa que, na maioria das vezes, os textos abordados nas provas não exigem um nível de leitura que está relacionado com a interpretação integral do texto. As crianças chegam facilmente à alternativa correta das questões por exclusão das respostas absurdas.

A transição

Uma das fases mais difíceis para a criança é a transição do ensino infantil para o fundamental. Para tornar essa mudança menos abrupta, em 2006, uma lei regulamentou o ensino fundamental de nove anos com entrada da criança na escola a partir dos seis anos. De acordo com o professor, um dos primeiros passos para receber esses alunos é averiguar, por meio do seu portfólio, as atividades realizadas por eles na escola anterior.

Outro problema identificado na pesquisa é a dificuldade que os professores possuem de estabelecer metas para cada ciclo escolar. No primeiro ano, por exemplo, é importante que as crianças conheçam todas as letras do alfabeto e as sílabas simples. Determinar os objetivos proporciona ao sistema de ensino uma integração melhor, assim os alunos que mudassem de escola não teriam dificuldades de aprendizagem. O pesquisador aponta também que a formação dos professores ainda privilegia as metodologias importadas. “Faltam pesquisas que trabalhem com as reais dificuldades da escola brasileira”, afirma Belintane.

Mais informações: email claubelintane@uol.com.br

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