Exposição de tecnologia durante a reunião: inovações  Foto: Matheus Mazzini / Ufscar

Debates e propostas: a USP na Reunião da SBPC

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A 67ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) – realizada de 12 a 18 de julho no campus da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) – contou com a participação ativa das unidades do campus da USP de São Carlos, reconhecido como um dos grandes centros de tecnologia do Estado. Os docentes dessas unidades ministraram cursos e palestras sobre diferentes áreas do conhecimento, além de integrar mesas-redondas e debates. Professores de outros campi da Universidade também participaram do evento.

Neste ano, a Reunião da SBPC teve como tema “Luz, Ciência e Ação”, em referência ao Ano Internacional da Luz, celebrado em 2015. Ela foi aberta oficialmente no dia 12, em cerimônia com a presença dos ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, e da Educação, Renato Janine Ribeiro – professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP –, e da presidente da SBPC, Helena Nader.

O professor Roberto Gomes de Souza Berlinck, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, foi um dos especialistas que participaram da mesa-redonda “Biotecnologia Marinha na Amazônia Azul”, reunida no dia 13. Nela, o professor lembrou que o tema da mesa estava intimamente relacionado com o tema da Reunião da SBPC. “Os organismos que constituem o microplâncton são responsáveis por 70% da fotossíntese do planeta Terra. Essa fotossíntese depende de luz, que por sua vez assegura a manutenção da vida. Dessa forma, esses sistemas estão intimamente relacionados (luz, fotossíntese, vida, oceanos), demonstrando a importância em melhor conhecê-los.”

“Sabe-se muito mais sobre a biodiversidade brasileira terrestre do que marinha, o que torna o estudo desta última extremamente importante, porque a costa brasileira é, ao lado dos microbiomas de diferentes biomas e ecossistemas, a última fronteira do conhecimento sobre a biodiversidade brasileira”, afirmou Berlinck.

O professor acrescentou que a manutenção da Zona de Exclusão Econômica da costa brasileira deve ser preservada não apenas por sua exploração econômica, mas também pelo potencial de conhecimento que pode ser atingido através de um programa intenso de pesquisa científica. Conhecer melhor os recursos da biodiversidade marinha pode gerar produtos e ferramentas científicas úteis para um maior conhecimento e também eventuais aplicações biotecnológicas. Berlinck usou como exemplo uma de suas pesquisas, feita em colaboração com a professora Lara Sette, da Unesp de Rio Claro, que descreve um fungo marinho capaz de degradar um corante usado na indústria têxtil, transformando-o numa molécula bioativa, com potencial farmacológico.

Segurança hídrica

Demonstração de experiências: a ciência para jovens  Foto: Thierry Santos / IFSC
Demonstração de experiências: a ciência para jovens
Foto: Thierry Santos / IFSC

As contribuições da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP para a Reunião da SBPC se deram nas áreas de desenvolvimento industrial, inovação tecnológica e segurança hídrica. O professor João Fernando Gomes de Oliveira, do Departamento de Engenharia de Produção da EESC, proferiu palestra em que abordou ideias para potencializar a inovação tecnológica em empresas no Brasil. Segundo ele, no País, o desenvolvimento industrial sempre foi desconectado do mundo do conhecimento: as empresas não aprenderam a lidar com os pesquisadores e a endereçar todos os problemas de forma clara. “O empresário acredita que o pesquisador irá resolver a lacuna de conhecimento, quando, na verdade, é ele que pode resolver essa lacuna, se for muito bem especificada.”

Oliveira apresentou algumas tendências, como o conceito Problem Service System (PSS), que permite que o produto seja projetado com maior durabilidade, com o objetivo de vender o uso, um negócio mais rentável à indústria. “O PSS é uma grande tendência, além de permitir uma redução no consumo de bens e a otimização do uso.”

Já o professor Eduardo Mario Mendiondo, do Departamento de Hidráulica e Saneamento da EESC, discutiu em sua palestra a segurança hídrica. De acordo com ele, o tema está ligado diretamente a uma política que integre a pegada hídrica, o monitoramento e o trabalho com o saneamento, pois hoje, nos planos diretores, ainda se usam os rios para diluir o esgoto. “Se existisse um sistema de saneamento funcionando com altíssima eficiência e tratando o esgoto produzido diariamente, não seria necessária tanta água para diluição e sobraria para outras finalidades, como a irrigação”, destacou.

Num gráfico apresentado pelo professor, foi possível comparar a oferta e a demanda dos recursos hídricos nos anos de 2010, 2025 e 2050 nas regiões atendidas pela Bacia do Tietê. O gráfico mostra que a oferta não cresce, fica estagnada ou tende a diminuir, enquanto a demanda aumenta. “Se tivéssemos utilizado o gráfico de 2010 como um alerta, talvez tivéssemos chegado a esta atual crise hídrica mais bem preparados. Para o futuro, o balanço entre a oferta e a demanda já começa a ficar mais complexo”, afirmou.

Ele também explicou que o contexto de segurança hídrica não se define apenas pela falta de água, mas também pelo outro extremo, o excesso do líquido, que ocasiona inundações em diversas regiões do País. Na apresentação, ele mostrou algumas medidas mitigadoras que contribuem para o monitoramento da precipitação da chuva, com os pluviômetros, e do nível e da vazão dos rios, com a instalação de réguas de medidas. Com o monitoramento diário é possível fornecer informações em tempo real para diversos profissionais da área, como hidrólogos, engenheiros, meteorologistas e geógrafos, que podem verificar onde acontecem os casos mais extremos, possibilitando enviar a tempo alertas aos municípios e prefeituras, para que adotem medidas de segurança.

Na ExpoTec – um espaço para exposição de tecnologia instalado na Reunião da SBPC –, os professores Marcelo Becker e Daniel Magalhães, também da EESC, expuseram o robô Mirã, projeto realizado em parceria com a pesquisadora Debora Milori, da Embrapa Instrumentação. O equipamento foi projetado para realizar análises de propriedades físicas e químicas de solo e de plantas diretamente no campo. O robô foi construído com a técnica LIBS (Espectroscopia de Emissão Óptica com Plasma Induzido por Laser), que permite quantificar simultaneamente diversos elementos, incluindo macro e micronutrientes.
Os pesquisadores trabalham há mais de um ano com o robô Mirã, em uma versão simplificada para utilizar no campo e aplicar a técnica. Atualmente eles desenvolvem uma versão mais complexa, que terá uma suspensão passiva que se adapta à rugosidade do terreno e permite encontrar a posição ideal para dar o tiro de luz, similar ao robô Curiosity, desenvolvido pela Nasa – a agência espacial dos Estados Unidos – para explorar a superfície de Marte.

Em solos, o robô pode estimar a quantidade de matéria orgânica, seu pH e fertilidade. Em plantas, é capaz de realizar uma análise nutricional e eventualmente detectar doenças. Ainda não há uma previsão de quando a tecnologia estará disponível para agricultores e outros profissionais do campo.

Empreendedorismo

O robô Mirã e seus criadores: aplicações na agricultura  Foto:  Keite Marques / EESC
O robô Mirã e seus criadores: aplicações na agricultura
Foto: Keite Marques / EESC

Dentro da programação da Reunião da SBPC, o evento “Empreendedorismo Inovador – Como Estimulá-lo nas Universidades e Instituições de Pesquisa?” teve a participação do professor Jarbas Caiado Neto, do Grupo de Óptica do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, especialista em inovação. Em sua apresentação, o professor disse que o conceito de inovação tecnológica está associado à vontade de ganhar dinheiro e à ideia de conhecimento tecnológico. Segundo ele, é necessário quebrar o paradigma latino-americano que rotula a ambição e o dinheiro como pecados, já que são itens essenciais para o desenvolvimento. Na ocasião, Caiado afirmou que os empreendedores têm a enorme responsabilidade de fazer transformações e mostrar aos estudantes que ter ambição é importante, pois ajuda a ganhar dinheiro e a desenvolver a sociedade.

Caiado citou uma série de rankings que mostram que as marcas mais conceituadas do mercado atual são de jovens empresas, como Apple, Samsung, Microsoft e Google. Ele destacou que um dos principais desafios enfrentados por empreendedores é conseguir definir quando uma ideia merece investimento. “O segredo do sucesso é pegar um milhão de ideias que surgem e saber ‘pescar’ aquela que renderá sucesso.”

Outra unidade do campus da USP de São Carlos, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) marcou presença na Reunião da SBPC através do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (Cemeai), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) financiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), instalado no ICMC. Na Reunião da SBPC, a Fapesp dedicou seu espaço na exposição à apresentação dos 17 Cepids que financia, entre eles o Cemeai. Ali, era possível assistir a um vídeo institucional que explica as áreas de pesquisa do centro e apresenta algumas parcerias com indústrias. Integrantes do Cemeai estavam presentes para explicar os trabalhos do centro e tirar dúvidas dos interessados.

Além disso, um minicurso de Estatística foi dado por professores do Cemeai na Reunião da SBPC. Os docentes Jorge Luis Bazán e Mariana Cúri escolheram o tema “Avaliação Educacional: Entendendo a Teoria da Resposta ao Item”. A atividade fez parte das ações para divulgar a estatística promovidas pela Associação Brasileira de Estatística, com apoio do Conselho Regional do setor.

Ao longo de toda a Reunião da SBPC houve a Sessão de Pôsteres, em que pesquisadores – professores e estudantes – expuseram resultados de seus estudos. Um desses trabalhos, sobre degradação eletroquímica de herbicidas, foi exposto pela aluna de mestrado Rafaely Ximenes de Sousa, orientanda do professor Artur de Jesus Motheo, do Instituto de Química de São Carlos. “A exposição serve para nos aperfeiçoar como pesquisadores, porque neste evento temos a oportunidade de conhecer o ponto de vista de outros profissionais da área acerca do nosso trabalho”, diz Rafaely. “Também é importante para conhecermos o que está sendo produzido na ciência, o que nos ajuda a abrir um leque de opções para a realização de novos trabalhos.“

Colaboraram: Rui Sintra e Thierry Santos, do IFSC, Keite Marques, da EESC, Leonardo Zacarin e Carla Monte Rey, do Cemeai, e Sandra Zambon, do IQSC

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