Sociólogo Peter Weingart indica caminhos para pesquisa interdisciplinar

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O sociólogo alemão defende a reestruturação organizacional das universidades como condição essencial para a interação entre disciplinas

Algumas universidades no exterior têm adotado novas configurações organizacionais para atender às peculiaridades da pesquisa interdisciplinar. Mais do que necessária, essa reestruturação é condição essencial para que se concretize o modelo interdisciplinar, segundo o sociólogo Peter Weingart, do Centro de Pesquisa Interdisciplinar (ZiF, na sigla em alemão) da Universidade de Bielefeld, na Alemanha.

Para ele, além da adoção de novas formas de organização de pesquisadores, disciplinas e unidades de ensino e pesquisa, a interdisciplinaridade exige uma sólida base epistemológica: “Sem as boas razões internas ao desenvolvimento da ciência e sem a disposição de tratar de problemas externos às áreas específicas, ela não é bem-sucedida”.

Weingart fez essas observações na conferência “Interdisciplinaridade e Nova Governança das Universidades”, que proferiu no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP no dia 28 de julho.

A interdisciplinaridade está na moda no mundo acadêmico há mais de 20 anos, (…) mas o termo era vazio de significado.

Para o sociólogo, “a interdisciplinaridade está na moda no mundo acadêmico há mais de 20 anos, com as agências de fomento à pesquisa de cada país promovendo-a como uma meta a ser alcançada, mas, até recentemente, o termo era vazio de significado”.

Pequenas e grandes interações

Weingart disse que, no período em que dirigiu o ZiF (de 1989 a 1994), o centro classificava as relações interdisciplinares em dois tipos: as pequenas, quando, por exemplo, matemáticos e físicos se unem, pois “eles conseguem se entender com certa facilidade”; e as grandes, como no caso em que um biólogo e um sociólogo discutem os fundamentos biológicos da cultura, tendo de superar diferenças maiores entre as disciplinas.

Ele vê também duas maneiras na forma como a interdisciplinaridade se realiza. Uma delas é a combinação de disciplinas, resultando em uma área como biofísica. “No entanto, não leva muito tempo para que a nova área se torne uma especialização, com a mesma dinâmica e formato tradicionais das disciplinas: proteção ‘territorial’, demarcação em relação a áreas externas e internalização da comunicação, caracterizada pela interação entre pares com ideias e posturas semelhantes.”

Foto: Cecília Bastos  / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

A outra forma de concretização da interdisciplinaridade é “a orientada por uma demanda externa às disciplinas, geralmente política”. Um exemplo disso é a pesquisa ambiental, segundo Weingart, que “até hoje não teve êxito em se tornar uma disciplina, pois é constituída por um conglomerado de diferentes disciplinas que cooperam entre si”.

De acordo com o sociólogo, esses dois tipos de interdisciplinaridade podem sofrer resistências nas universidades, pois enfrentam departamentos bem estabelecidos e com os quais competem por verbas. “Os departamentos são grupos de interesse e, evidentemente, os mais fortes alegam que apenas eles são capazes de julgar a qualidade e a competência dos pesquisadores ingressantes nas unidades e institutos das universidades.”

Experiências

Weingart citou a Universidade de Siegen, na Alemanha, como exemplo de universidade que quer se distanciar do modelo departamental, em busca da interdisciplinaridade. Ele reconhece, no entanto, que o exemplo não é tão persuasivo, por se tratar de uma universidade pequena e de pouca expressão. “A universidade reagrupou seus 12 antigos departamentos em quatro escolas que, apesar da manutenção da estrutura de disciplinas, trabalham em função de temas surgidos externamente a elas.”

Um exemplo mais radical citado por Weingart é o da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos. “Como a universidade não consegue alcançar o grupo de elite das instituições americanas, o reitor Michael Crow resolveu seguir um caminho diferente e adotou uma estratégia que ele chama de ‘empreendedorismo científico’: dissolveu todos os departamentos e criou uma mistura entre as áreas completamente nova, interdisciplinar.”

Weingart ressaltou que a euforia pela pesquisa interdisciplinar pode ser justificada também politicamente, com a pesquisa sendo responsiva a questões externas à universidade, atendendo às demandas públicas e prestando contas aos contribuintes. “É melhor que a ciência faça coisas que são valorizadas pela sociedade do que fazer apenas aquilo que é valorizado pelos cientistas”, destacou.

É melhor que a ciência faça coisas que são valorizadas pela sociedade do que fazer apenas aquilo que é valorizado pelos cientistas.

Mesmo com todas as transformações em direção à interdisciplinaridade, ele alerta que a democratização da ciência não é algo que vai abolir a especialização que temos visto ocorrer nos últimos dois séculos. “A evolução da ciência depende de uma especialização cada vez maior, de uma penetração cada vez maior, de um aprofundamento em terrenos não explorados, mas a pergunta que devemos fazer é se as disciplinas no modelo como elas foram criadas no início do século 19 marcam o fim de sua história ou se é possível que algo diferente as substitua.”

O vídeo (com tradução) da conferência de Peter Weingart pode ser assistido neste link, que também disponibiliza o texto no qual ele baseou a apresentação.

Mauro Bellesa / Especial para o Jornal da USP

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