Estudo traça panorama da transição do Brasil para TV Digital

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A partir de 29 de novembro, em Rio Verde (Goiás), começa o desligamento do sinal analógico de televisão aberta e a sua substituição pelo sinal do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (ISDB-t), processo conhecido como switch off. Os desafios de infraestrutura e de preparação de recursos humanos do Brasil para realizar o desligamento, previsto para ser concluído em 2018, são mostrados na tese de doutorado da jornalista Deisy Fernanda Feitosa, defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Entre outros problemas, a pesquisa aponta o desconhecimento da população em relação à TV Digital (TVD), seus recursos de interatividade e do próprio processo de switch off.

A tese A televisão na era da convergência digital das mídias. Uma reflexão sobre a comunicação comunitária, orientada pelo professor Sérgio Bairon, da ECA, teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A transmissão simultânea do sinal digital com o analógico no Brasil começou em 2007. A interrupção do sinal analógico de televisão terrestre (canais abertos) será realizada por etapas — em São Paulo está prevista para 15 de maio de 2016 — e deverá terminar em 2018. “Muitos desafios ainda devem ser superados, até em grandes cidades como São Paulo”, ressalta Deisy.

“A pesquisa identificou problemas como o desconhecimento da população em relação à TVD, à interatividade e ao desligamento, independentemente do segmento social. As pessoas ainda confundem o conceito de transmissão digital terrestre (gratuita) com o de transmissão digital a cabo e satélite (paga)”, acrescenta a pesquisadora, que aponta a ausência no mercado de conversores digitais com o Middleware Ginga e o alto custo de televisores digitais e conversores. O Ginga é o sistema operacional do ISDB-Tb, que permite, por meio de aplicativos, a troca de informações do telespectador com a emissora de televisão, por meio de áudio, vídeo ou dados (interatividade).

Deisy assinala ainda o pouco conhecimento por parte dos próprios distribuidores e vendedores sobre a tecnologia de TVD ofertada e repassada ao cliente. “No Reino Unido, que desligou o sinal analógico em 2012, eles receberam treinamento sobre o funcionamento do sistema, sobre como melhor orientar as pessoas acerca do processo de transição e sobre a utilização do equipamento digital”, informa a pesquisadora.

Apagão Analógico

A ausência de políticas informativas adequadas e direcionadas sobre o “apagão analógico”, nos anos que o precederam no Brasil, também é destacada pela pesquisadora. O estudo analisou a transição para o sinal digital no Reino Unido e na Itália (que realizaram o switch off em 2012). “Os dois países optaram por uma forma de atuação local, por intermédio de uma força-tarefa formada por várias representações (governos, indústria, sociedade civil e radiodifusores), para divulgar a transição e dar suporte às famílias”, afirma.

De acordo com Deisy, especialistas apontam que entre as recomendações para um “apagão analógico” bem-sucedido, está a necessidade de que as mensagens de conscientização divulgadas sejam claras e tenham formatos direcionados a diferentes perfis de público. “O modo humanizado pelo qual o Reino Unido conduziu a transição no tocante aos idosos, às comunidades de cidadãos estrangeiros e às pessoas com deficiência pode servir de exemplo para o Brasil”, destaca. “Mais do que a simples troca de sistema, foram estabelecidas estratégias para gerar laços de confiança e solidariedade entre os colaboradores e as famílias, a começar pelo trabalho dos antenistas”.

Em parceria com o Intermídia Cidadã, grupo de jovens da periferia da zona leste de São Paulo ligado à Fundação Tide Setubal, a pesquisadora elaborou a proposta do aplicativo “Cidade Adentro”, apresentado na tese como um recurso a ser implementado no Ginga e para celulares. Ele leva em conta os artigos 12 e 13 do Decreto 5.820/2006, que implanta o ISDB-t e estabelece a criação de quatro canais digitais de serviço, entre os quais o da Cidadania, destinado à transmissão de programações das comunidades locais. “A proposta do aplicativo é fortalecer e qualificar a participação comunitária nos processos de pensar a cidade e os seus espaços geográficos. Seus recursos foram criados visando provocar o ativismo e o monitoramento social”, ressalta.

Segundo Deisy, o switch off é uma oportunidade de trazer a televisão para mais perto do cidadão e das suas necessidades e transformá-la em uma ferramenta política, de monitoramento social e curadoria. “Em nome da própria sobrevivência e credibilidade, os canais tradicionais de televisão aberta, principalmente as TVs públicas, devem começar a se inserir neste processo de envolvimento e sentimento coletivo de participação e intervenção, como parte do tripé Assistir/Olhar, Participar e Intervir”, conclui.

Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Mais informações: email deisyfernanda@gmail.com, com Deisy Fernanda Feitosa

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