Fórum apresentou propostas para ampliar impacto da ciência brasileira

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Diretrizes políticas para ciência e tecnologia e novas propostas para a colaboração em pesquisa no Brasil e no exterior foram os temas que nortearam o Fórum Nacional do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). O encontro entre diretores científicos e presidentes de fundações estaduais de amparo à pesquisa, gestores públicos, legisladores e cientistas de todo o País aconteceu nos dias 26 e 27 de agosto passado, na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na capital paulista.

A preocupação das entidades financiadoras de ciência está voltada para a qualidade e o baixo impacto das pesquisas produzidas no Brasil. O seleto público que lotou o auditório da Fapesp busca padronizar ações e coordenar procedimentos para mudar os índices de qualidade, impacto científico e visibilidade da produção nacional de ciência.

Relativamente ao contexto internacional, os meios e recursos disponibilizados para a ciência mostram que o Brasil não está tão mal assim. Além disso, o volume de artigos científicos e patentes cresceu consideravelmente nos últimos anos. Porém, trata-se ainda de uma ciência considerada de baixo impacto internacional.

Numa escala de zero a um, que mede o impacto e número de citações de artigos, no período entre 1981 e 2013, o Brasil caiu de um índice de 0,8 para abaixo de 0,7 em relação à média de alguns países selecionados, entre eles Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Espanha, México, China, Coreia do Sul e Argentina, mostrou o diretor científico da Fapesp, professor Carlos Henrique de Brito Cruz.

“Vemos países e instituições que investem muito menos em pesquisa e, no entanto, possuem uma inserção internacional muito maior, com um alto índice de citações. Ainda não sabemos onde estamos errando, mas temos que descobrir”, disse Cruz.

O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron: ciência brasileira cresceu nas últimas décadas, mas ainda apresenta baixo impacto internacional Foto: Marcos Santos/Jornal da USP
O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron: ciência brasileira cresceu nas últimas décadas, mas ainda apresenta baixo impacto internacional
Foto: Marcos Santos/Jornal da USP

Ousadia e qualidade devem nortear as novas propostas de pesquisa, disse Cruz, durante a palestra “O desafio de aumentar o impacto da ciência brasileira”, que proferiu logo após a cerimônia de abertura do evento. “Fazer a ciência que vai dar certo, com artigos pequenos, só para ter volume, não interessa. Se um pesquisador tiver 200 artigos e apenas duas citações, por exemplo, pode ter certeza de que terá dificuldades para novos financiamentos”, enfatizou.

Na abertura, o vice-governador do Estado de São Paulo, Márcio França, anunciou que o governo estadual irá criar um mecanismo para integrar e otimizar as políticas de Estado com a ciência produzida na academia. Inspirado no modelo que já existe no Reino Unido e Israel, cada secretaria deverá contar com um cientista chefe, que terá o papel de identificar as demandas importantes para a pasta e apoiar projetos científicos e soluções mais eficientes para atender a essas demandas.

Após a fala do vice-governador, Cruz explicou que não se trata de um “direcionamento” para a ciência e que, ao contrário, a ciência deve manter sua autonomia e independência. Mostrou diversos exemplos de ciência básica produzida no Brasil que inicialmente não tinham uma aplicação. Mas, sem esse conhecimento básico, que leva muitos anos para ser construído, não teria sido possível chegar a algumas soluções de tecnologia e engenharia usadas atualmente, por exemplo, na indústria aeronáutica, citou.

Mais colaboração

A Fapesp propôs um modelo de acordos de cooperação para financiar projetos conjuntos entre os diversos Estados. Uma das ideias é que uma das FAPs (Fundações de Apoio à Pesquisa) seja eleita como agência primária para analisar cada projeto, sendo que cada uma das FAPs envolvidas indicariam assessorias ad hoc. É um modelo semelhante ao que já é feito com os acordos de cooperação internacional, comparou Cruz. A agência primária compartilha os pareceres ao final e cada FAP discute em seus comitês internos e decide se aprova o projeto.

O outro modelo, que pode funcionar, mas também gerar muitas recusas, é que cada uma das FAPs envolvidas analise o projeto separadamente, e só contrate se todas aprovarem. “A colaboração sempre ajuda a pesquisa a ter maior qualidade, visibilidade e impacto. Do mesmo jeito que nos empenhamos em acordos internacionais, agora também queremos impulsionar a colaboração nacional para melhorar a conexão entre os pesquisadores”, disse Cruz ao Jornal da USP.

O diretor enfatizou que o pesquisador precisa de maior apoio institucional, pois, muitas vezes, acaba se ocupando de funções burocráticas que nada têm a ver com a pesquisa. Citou a necessidade de mecanismos que melhorem a visibilidade e o impacto de revistas científicas nacionais e destacou que as citações de cada artigo devem ser mais valorizadas do que o fator de impacto da revista em que ele sai publicado. “O conteúdo tem que valer mais que a capa.”

A Constituição do Estado de São Paulo garante que 1% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) seja direcionado para a pesquisa via Fapesp. “Isso não é pouco e corresponde aproximadamente ao que ocorre em outros países, dentro de seus Estados. E essa não é a única fonte de financiamento para a pesquisa, pois há também verbas federais e da iniciativa privada”, disse ao Jornal da USP o novo presidente da Fapesp e ex-reitor da USP, professor José Goldemberg.

Com isso, a Fapesp tem um papel semelhante ao que a National Science Foundation, dos Estados Unidos, desempenha, disse Goldemberg. “Vemos que a Fapesp atende bem aos anseios dos cientistas. Mas precisamos de formas mais eficazes de identificar problemas, e acredito que a iniciativa de cooperação entre os Estados é muito importante porque permite que as secretarias organizem suas demandas internamente”, destacou Goldemberg.

Além do presidente e do diretor científico da Fapesp e do vice-governador do Estado, estiveram na mesa de abertura do evento Sergio Luiz Gargioni, presidente do Confap, Aldo Rebelo, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Lafer, presidente da Fapesp em exercício, Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente da Fapesp, e Joaquim Engler, diretor administrativo da Fapesp.

Fapesp e Finep lançam editais

Dentro do contexto de maior cooperação entre os Estados, o diretor científico da Fapesp, professor Carlos Henrique de Brito Cruz, anunciou, durante o fórum, a publicação de novos editais em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Abertas a microempresas e empresas de pequeno e médio porte brasileiras, as chamadas visam a fomentar pelo menos três segmentos. Uma das linhas de financiamentos conta com R$ 30 milhões, sendo um total de até R$ 1,5 milhão para cada projeto voltado ao Fortalecimento e Qualificação em Manufatura Avançada das Cadeias Produtivas da Indústria Aeroespacial e de Defesa do Estado de São Paulo. O edital está no link .

Outra chamada apoia projetos de inovação em todas as áreas do conhecimento no setor comercial e industrial, sendo de R$ 1 milhão o valor máximo para cada projeto. Edital no link .

A terceira seleção apoia produtos, processos e serviços inovadores para o novo anel acelerador Sirius, do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Os recursos serão da ordem de R$ 20 milhões, ou até R$ 1,5 milhão para cada projeto. Detalhes do edital no link .

Sylvia Miguel / Jornal da USP

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