Biblioteca de Osman Lins revela processo de criação do autor

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A análise das anotações e grifos encontrados em alguns livros da biblioteca pessoal do escritor Osman Lins revela as influências literárias que ele teve para criar seus próprios livros. Pesquisa do professor de Literatura Eder Rodrigues Pereira desvendou um pouco deste processo criativo por meio da análise das notas marginais (ou marginália), que são as anotações ou grifos que alguns escritores fazem em livros de sua coleção particular com o objetivo de reunir dados que os ajudarão, posteriormente, a criar suas próprias histórias e personagens.

O foco do trabalho foram as notas marginais associadas ao romance Avalovara, publicado em 1973 por Osman Lins. O livro conta a história de Abel, homem que almeja se tornar escritor, e que se relaciona com três mulheres: Annelise Roos, Cecília e uma terceira personagem identificada apenas com um símbolo.

A biblioteca é composta por 282 livros de diversas áreas do conhecimento como pintura, literatura, crítica literária, história, história da arte, estética e arquitetura, entre outros. Com a morte de Osman Lins, em 1978, as obras ficaram sob a responsabilidade de sua mulher, Julieta de Godoy Ladeira. Com a morte dela, em 1996, a biblioteca foi dividida: 180 livros foram para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, e 102 para o arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

O pesquisador analisou essa biblioteca e encontrou 86 livros com notas marginais. Pereira se concentrou em 32 deles, pois faziam alguma referência, direta ou indireta, ao romance Avalovara. “A análise de todo esse material mostra que a literatura nasce da e na literatura”, destaca Pereira, autor da tese de doutorado Da leitura à escritura: a biblioteca de Osman Lins como parte do processo criador de Avalovara, defendida no último mês de agosto no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Entre esses 32 livros estão: A revolução da arte moderna (Hars Sedlmayr), A História do Alfabeto (A.C. Moorhouse); Obra Aberta (Umberto Eco); Dostoievski artista (Leonid Grossman), Cartas a um Jovem Poeta (Rainer Maria Rilke),Estudios sobre el Amor (José Ortega y Gasset), O jovem José e José, o Provedor(Thomas Mann), Quarteto de Alexandria (Lawrence Durrell), A Fonte (Charles Morgan) e Confissões (Santo Agostinho), entre outros.

Pereira explica que a espiral / quadrado / palíndromo encontrada em Avalovaratêm referência com algumas obras. “A espiral aparece no livro A História do Alfabeto, e o quadrado / palíndromo está em Obra Aberta“, diz. Uma outra influência, não tão explícita, é Em Busca do Tempo Perdido (Marcel Proust), onde há a personagem Albertine. “Osman Lins cria uma espécie de desmembramento da heroína proustiana nas 3 mulheres amadas por Abel que pode ser interpretado como um diálogo com o livro de Proust”, destaca. Já a questão do tempo em Avalovara têm relações com Ulisses (James Joyce), A Fonte e Confissões.

A escolha pelas notas marginais ligadas à Avalovara ocorreu porque o livro foi o tema pesquisado por ele em sua dissertação de mestrado. No entanto, o enfoque, naquele momento, foram as notas de planejamento: roteiros, esboços ou esquemas de elementos que os escritores podem utilizar para dar forma aos textos, histórias e personagens. “As notas marginais podem estar em um estágio anterior às notas de planejamento”, explica. A influência do livro de Marcel Proust e de James Joyce chegaram a ser abordados durante o mestrado, pois o pesquisador encontrou notas de planejamento que faziam referência a estes autores.

Quanto ao título de Avalovara, o pesquisador diz que sua origem está no livroMythologie Générale, organizado por Felix Guirand: “Osman Lins o ganhou de presente da Lygia Fagundes Telles e foi desta obra que ele tirou o nome de uma divindade oriental chamada Avalokiteçvara que é a origem do título Avalovara.”

 

1619 grifos

A pesquisa de Pereira não se restringe apenas ao romance Avalovara e contribui para a realização de outros estudos envolvendo o processo criador de Osman Lins. Isso porque ao analisar os 86 livros com notas marginais, o pesquisador transcreveu todo esse material, o que resultou em 1.619 grifos. “Toda essa transcrição das notas marginais abre a perspectiva para a análise das outras obras do escritor pernambucano por pesquisadores interessados”, aponta.

A pesquisa teve orientação da professora Sandra Margarida Nitrini, da FFLCH, e co-orientação da professora Therezinha Apparecida Porto Ancona Lopez, do IEB. O pesquisador contou com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes).

Imagens cedidas pelo pesquisador

Mais informações: email ederrodriguespereira@yahoo.com.br, com Eder Rodrigues Pereira

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