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Brincadeiras de muitos tempos e lugares, em livro e na Creche da USP

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Cantigas de roda, pião, bolinha de gude, pega-pega, passa anel e outras tantas brincadeiras são lembradas no livro Brincadeiras de muitos tempos e lugares, que terá seu lançamento dia 23 de outubro na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP. As narrativas foram construídas através de relatos e memórias dos profissionais da educação da Creche Central e da Escola de Aplicação da USP.

A ideia surgiu da inquietação de uma professora de dança ao ver que as brincadeiras de antigamente não faziam parte do repertório do divertimento das crianças da creche onde trabalhava. Acreditou que se fosse possível resgatar as brincadeiras que adultos viveram em sua infância e apresentá-las às crianças da creche, poderia contribuir para enriquecer o mundo infantil, além de a experiência também agregar conhecimento aos pequenos. A partir dessa premissa, Cristina Mara da Silva Correia, uma das coordenadoras do projeto que deu origem ao livro, começou a pensar como poderia trazer para o dia a dia daqueles meninos e meninas as brincadeiras de muitos tempos e lugares.

Cristina Mara percebeu também que as fontes onde buscaria inspiração para suas histórias estavam mais perto do que pensava – o porteiro, a merendeira, o ajudante geral e, claro, os próprios professores. Todas as pessoas que de algum modo faziam parte daquele universo escolar seriam protagonistas do livro. Para a professora, as experiências e os saberes das pessoas têm um importante papel na educação básica e, no entanto, são frequentemente desprestigiados e deslegitimados. “O esforço de nosso trabalho vai na contramão do que se elege como conhecimento dentro da escola.” A proposta da obra é mudar esse cenário, valorizando tais saberes como conteúdos importantes a serem ensinados às crianças.

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A coleta das histórias foi feita em vídeo. Fosse no campo ou na cidade, há 20 e poucos anos ou 50 anos atrás, brincar na rua e no quintal fazia parte do dia a dia da infância. Assim, professores, funcionários da manutenção, auxiliar de serviços gerais, bibliotecário, técnicos acadêmicos e administrativos e de projetos foram revisitando suas vidas e resgatando suas histórias vividas em cidadezinhas de Minas Gerais, do interior de São Paulo e Rio de Janeiro, e até de locais mais distantes, como Teixeira de Freitas (BA), Sertânia (PE) e Brejão dos Negros (SE).

As brincadeiras lembradas foram tomando corpo: bolinha de gude jogada no boxe e no triângulo, passa anel, bolinha de sabão, boneca de sabugo de espiga de milho, tratorzinho de pau e pique-esconde.

O senhor Airton Pedro da Silva, por exemplo, funcionário da manutenção que viveu sua infância no interior de São Paulo, falou dos contos de assombração que ele e seus irmãos escutavam quando viviam no sítio, em Presidente Prudente. Brincavam com bolinha de gude, faziam cavalinho de pau e construíam tratorzinho a partir de pedaços de madeira, lata e outros materiais que encontravam por perto. O senhor Sizino Maciel, de Brejão dos Negros (SE), lembrou de como fazia pião de fieira com maçaranduba, madeira originária do nordeste do País. Já dona Anazuiede Estefania de Oliveira, de Goytacazes (RJ), lembrou das bonequinhas feitas a partir de espigas de milho colhidas na roça onde morava. “Como não tinha condições de ter uma boneca de verdade, eu fazia a boneca de sabugo de milho e costurava as roupinhas também.”

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Recuperar e compartilhar

Lucas Tadeu Marchezin cita o filósofo alemão Walter Benjamin para falar da linha norteadora do livro “Recuperar e compartilhar a experiência das pessoas para a construção de uma narrativa”. Marchezin, que é formado em história, esteve envolvido em todo o processo de produção da obra, inclusive com seu próprio depoimento. Sua maior contribuição, porém, foi formar o grupo de funcionários e dar suporte em questões sobre história oral e memória. “Nosso trabalho contribui para a construção de um panorama das experiências e saberes desses trabalhadores. É ver a história contada por outro ângulo.”

Nosso trabalho contribui para a construção de um panorama das experiências e saberes desses trabalhadores. É ver a história contada por outro ângulo.

Sobre a questão de a tecnologia ser inserida muito cedo à criança em detrimento da oferta de brinquedos artesanais, Marchezin diz que não se trata de um ser bom e outro ruim ou de uma coisa ser substituída pela outra. As brincadeiras mais antigas têm seu espaço dentro do contexto tecnológico que se vive hoje. Em um segundo momento do projeto, quando as crianças tiveram contato com os personagens dos livros contando suas histórias, elas vibraram e se mostraram bastantes interessadas em partilhar com o adulto os brinquedos confeccionados por eles mesmos.

O projeto “Memórias – brincadeiras de muitos tempos e lugares” teve outros desdobramentos além do livro – um site e documentários. Todo o material poderá servir de instrumento para ampliação dos repertórios de atividades de escolas do ensino básico e fundamental. No site são encontradas as trajetórias de vida, brincadeiras e práticas pedagógicas baseadas nestes conhecimentos e experiências.

O projeto foi financiado pelo edital Memória das Sociabilidades, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, e desenvolvido por integrantes da Creche Pré-escola Central da USP, da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação (FE) da USP e do Centro de Memórias da Educação da FE, nos anos de 2013 e 2014, sob coordenação geral da professora Maria Cecília Cortez Christiano de Souza.

Lançamento

O evento de lançamento do livro Brincadeiras de muitos tempos e lugares será no dia 23 de outubro, das 18 às 21 horas, no Auditório Stván Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, localizada na Rua da Biblioteca, s/n – Cidade Universitária, em São Paulo.

Mais informações: (11) 3091-3201 / 3091-3228, email crismara@usp.br

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