Foto: Marcos Santos

Em dia dedicado à alimentação, FSP convida comunidade a refletir sobre o ato de comer

Publicado em Saúde, USP Online Destaque por em

As escolhas que fazemos diariamente sobre o que comemos envolvem, para além do simples aspecto de sobrevivência, questões políticas, culturais, de saúde e sustentabilidade. Na última sexta-feira, dia 16 de outubro, em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação, a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP convidou autoridades, pesquisadores e a comunidade em geral para debater e vivenciar estas questões no evento Há verdade na comida da cidade?.

O tema é inspirado na quinta Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que acontece no próximo mês em Brasília. As atividades, espalhadas nos diversos espaços da Faculdade, envolveram temas como redução do consumo de carne, desperdício de alimentos, produtos ultraprocessados e hortas comunitárias, e buscaram, a partir das discussões, levantar propostas para a conferência. “Essa interação é um dos papeis da universidade pública, pensar e produzir conhecimento de acordo com as demandas da sociedade”, afirma o professor Leandro Luiz Giatti, presidente da Comissão de Cultura e Extensão da FSP.

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Em um auditório lotado, o prefeito da cidade de São Paulo Fernando Haddad destacou a alimentação como alavanca para o desenvolvimento social, como atividade que dialoga com outras dimensões importantes da vida urbana. Na palestra de abertura, o prefeito, que é também professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, falou sobre as políticas municipais voltadas à nutrição, como a adoção de produtos de agricultura familiar nas merendas escolares. “Oferecemos 2 milhões de refeições por dia por meio do sistema educacional e, neste ano, nós chegaremos a 25% de alimentos provindos da agricultura familiar”, afirmou, lembrando que a meta é chegar aos 30% até o próximo ano. Haddad comentou também a importância de estimular a produção de alimentos orgânicos, mencionando as feiras orgânicas e o resgate da área rural na cidade.

Comida de verdade

Diretor da Faculdade de Saúde Pública, o professor Victor Wünsch Filho lembrou que boa parte da população mundial, incluindo a brasileira, ainda tem acesso restrito à alimentação, levando-as a uma situação de risco nutricional. Por outro lado, outra parcela da população, em especial das grandes cidades, corre riscos relacionados ao excesso de alimentação e à alimentação inadequada, problema que sempre traz à tona o tema dos ultraprocessados.

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Para a nutricionista Larissa Baraldi, trata-se de produtos que apenas imitam comida. Compostos de açúcar, corantes e óleos, estes “alimentos” também representam uma perda de conexão com histórias e sentimentos ligados à comida. “Quando compramos estes produtos prontos, compramos também uma ideia pronta”, afirma Larissa, que é doutoranda da FSP e membro da comissão organizadora do evento. Na Tenda Paulo Freire, montada no jardim central da Faculdade, a especialista coordenou uma atividade sobre emoção e comida, em que os participantes compartilharam receitas e experiências ligadas a elas. O objetivo é registrar estas histórias em um livro de receitas a ser disponibilizado online. 

Mais à frente, ao lado da Horta da FSP, uma grande roda se formava em torno de temperos como hortelã, cebolinha, manjericão e orégano. A proposta era realizar uma atividade sensorial sobre cheiros, saberes e sabores. Colocados em pequenos copos plásticos tampados, com apenas alguns orifícios para poderem ser reconhecidos pelo aroma, os temperos passavam de mão em mão entre os participantes. A atividade coordenada pela professora Cláudia Maria Bógus incluiu também uma conversa sobre plantio de mudas e uso de temperos naturais, como os cultivados na horta da Faculdade, nos preparos diários.

Foto: Marcos Santos
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Para quem acompanhou o Dia da Alimentação na FSP, com programação intensa das 9 até às 18 horas, era possível fazer um intervalo para comer nos food-trucks instalados próximos à entrada da biblioteca, que ofereciam comida nordestina e pratos com polenta. A comida de rua sobre rodas vem ocupando diversos espaços na cidade e foi lembrada pelo prefeito em sua fala. Junto às feiras livres e aos mercados municipais, os food trucks foram apontados por Haddad como forma de ocupar o espaço público com a comercialização de alimentos – uma forma de baratear custos e de revitalizar espaços.

Comida de verdade também era oferecida pelas meninas do projeto Nutritiva, que exibiam barrinhas de cereais e geleias em seu pequeno estande. O objetivo do projeto, idealizado por estudantes da FSP, é promover uma alimentação mais saudável à comunidade, com produtos a preços acessíveis, disponíveis toda quinta-feira na Faculdade.

Guia Alimentar

A Faculdade de Saúde Pública, por meio do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), colaborou com a segunda edição do Guia Alimentar para a População Brasileira, publicação do Ministério da Saúde em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde. A principal novidade do guia, elogiado inclusive por especialistas de fora do país, é dar orientações simples, úteis para todas as pessoas, não apenas para nutricionistas e profissionais da área. Em vez de falar em termos de nutrientes e vitaminas, a publicação dá exemplos com base na realidade brasileira e nos alimentos mais consumidos pela população.

Foto: Divulgação
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Para o professor do Departamento de Prática de Saúde Pública Marco Akerman, um dos anfitriões do evento na FSP, o guia incentiva a construir um novo relacionamento com a comida e com a mesa, resgatando a importância da alimentação não como um fim em si mesmo, mas também como forma de convivência. Entre as dicas para manter uma alimentação adequada e saudável, o Guia indica comer com regularidade e atenção em ambientes apropriados, e desfrutar, sempre que possível, da companhia de amigos e familiares. Recomenda ainda desenvolver habilidades culinárias e, ao comer fora, dar preferência a refeições feitas na hora.

A alimentação, destacou o prefeito de São Paulo, tem uma dimensão social muito importante. Haddad mencionou o programa “De Braços Abertos”, implementado na região da Luz conhecida como cracolândia, que ofereceu trabalho remunerado, habitação e assistência médica aos usuários de drogas. “Mas o elemento fundamental, o que mais mudou a vida daquelas pessoas, foi a alimentação. A vulnerabilidade social se resolve primeiro com o pão de cada dia, você resgata as pessoas a partir disso”, afirmou.

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