Viagens longas propiciam uso de drogas por caminhoneiros

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A rotina agitada e sem descanso faz parte da realidade da maioria dos caminhoneiros profissionais no País, que atravessam as estradas durantes dias para a entrega dos mais variados produtos com curtos prazos. Com esse dia-a-dia sobrecarregado, não é incomum relacionarem os caminhoneiros ao uso de entorpecentes, inclusive os ilegais, para se manterem acordados durante longas viagens ou para se acalmarem frente ao estresse da profissão. A dissertação de mestrado da bióloga Daniele Mayumi pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) procurou comprovar o uso de drogas por caminhoneiros no estado de São Paulo, além de identificá-las e procurar variáveis que determinam a tendência ao uso ou não da droga pelos profissionais das estradas.

Também funcionária do Departamento de Medicina Legal da FMUSP, no Laboratório de Toxicologia — supervisionado pela professora Vilma Leyton —, Daniele realizou seu mestrado em uma parceria com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Convidada em eventos de saúde da Polícia, recolhia amostras de urina de caminhoneiros que eram parados na estrada para, posteriormente, realizar testes toxicológicos e comprovar a existência ou não de drogas nas amostras, além identificar as mais presentes. O evento Comandos de Saúde na Rodovia ocorre desde 2006 e é realizado pela PRF quatro vezes ao ano, concomitantemente em todo o Brasil (no mesmo dia e no mesmo horário), em estradas federais próximas a grandes cidades, com o objetivo de melhorar a saúde do motorista, que possui uma rotina agitada e, muitas vezes, não tem tempo de realizar uma consulta médica.

A pesquisadora ressalta que não havia nenhuma intenção punitiva na realização do evento: “não havia nenhum propósito de prejudicar o motorista, os dados eram sigilosos e as pessoas não eram identificadas”. Os próprios pesquisadores realizavam a coleta e buscava-se desvencilhar da figura do policial, não buscando sinais clínicos do uso de drogas no momento da coleta. Os pesquisadores eram convidados do evento da PRF e estavam em um espaço separado, sendo que o papel da polícia na hora da coleta se resumiu em ceder o espaço e promover a segurança do local.

Para o estudo, a pesquisadora considerou a coleta de 1.316 amostras, entre 2008 e 2012, em 14 idas a eventos da PRF no estado paulista. Segundo Daniele, a taxa de recusa foi baixa (3,8%) e ela não levou esse fator em consideração, por não ser expressivo. “Eles alegavam pressa e não realizavam o teste”, cita a principal causa dessa recusa.

Após a coleta, as urinas eram refrigeradas e armazenadas até o fim do evento e levadas ao laboratório. Em até três dias era realizada uma triagem das urinas, com a utilização de uma fita-teste para a presença ou não de seis drogas. Colocada direto na urina, a fita dava um resultado positivo ou negativo para certo entorpecente. Após essa triagem, as amostras que alegaram resultado positivo na triagem eram preparadas para um teste de confirmação em um aparelho, a partir do processo de cromatografia gasosa — técnica de separação utilizada para identificação de compostos em misturas. No estudo não havia o interesse na quantificação do uso da droga, mas apenas saber se ela fora utilizada ou não.

As drogas que tiveram um maior número de resultados positivos foram a maconha, a anfetamina e a cocaína, drogas já presentes na literatura como de alto uso pelos profissionais do transporte de cargas. Outras três que também estiveram presentes na pesquisa foram a morfina, a metanfetamina e os benzodiazepínicos, ansiolíticos (remédios contra a ansiedade) que podem ser encontrados em farmácias. De acordo com a pesquisa, 7,8% das amostras coletadas deram resultado positivo para o uso de drogas.

Variáveis

Daniele buscou relacionar parâmetros para o uso ou não de entorpecentes. Em relação ao motorista, variáveis que foram estatisticamente relevantes no uso ou não de droga foram a idade, estado civil e tempo de profissão. Fatores como escolaridade, etnia e número de pessoas no veículo não foram estatisticamente relevantes para o uso ou não de entorpecentes. As hipóteses são que com o tempo de profissão e a idade mais avançada fazem o motorista evitar pegar cargas maiores e com maior tempo de viagem. A preocupação com o cônjuge, dependendo do estado civil, faz com que o caminhoneiro evite usar entorpecentes ou viajar longas distâncias.

Já em relação à viagem em si, independentemente de quem dirige, fatores que têm relevância estatística são a distância total percorrida e o tempo de descanso noturno. O desgaste de uma longa viagem e a necessidade de entregar no prazo ou o mais rápido possível potencializam o uso de drogas pelos caminhoneiros (se o motorista for autônomo, quanto maior o número de entregas mais ele recebe no final, o que também pode aumentar o caso de uso de entorpecentes).

Daniele já tem o plano traçado para o doutorado, que contemplará todo o Brasil: “farei uma análise por região, com a coleta de dados em pelo menos um estado por área”, cita. Analisar questões de fronteira, por exemplo, é também um dos planos para pesquisas futuras. Para a pesquisadora, é importante que essas pesquisas cheguem até as autoridades e às empresas de transporte para que algo seja feito além das campanhas de prevenção e conscientização, a fim de melhorar as condições de trabalho dos caminhoneiros profissionais do País.

Leandro dos Santos Bernardo/Agência USP de Notícias

Mais informações: email daniele.mayumi.sinagawa@gmail.com 

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