Avaliação de telenovelas diverge entre público e crítica, revela pesquisa da ECA

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Mariana Melo / Agência USP de Notícias

Enquanto jornalistas e acadêmicos consideram fatores estéticos como mais importantes para análise da qualidade da ficção televisiva brasileira, o público em geral – crítica popular – leva em conta a importância do enredo e a agilidade e criatividade com que ele é desenvolvido. “Os especialistas consideram critérios técnicos, como fotografia, iluminação e composição”, conta a publicitária Clarice Greco. Para saber as opiniões sobre quais seriam as melhores minisséries, série e telenovelas produzidas entre 2008 e 2010, Clarice realizou o estudo Qualidade na ficção televisiva brasileira: as críticas especializada e popular, apresentado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

A pesquisa foi realizada por meio de questionários e obteve 207 respostas da crítica popular, 8 respostas dos jornalistas e 9 dos pesquisadores. As questões foram enviadas para um grupo “popular”, ou seja, o público consumidor das produções; um grupo de jornalistas ou colunistas que comumente debatem telenovelas; e um grupo de acadêmicos que estudam ficção televisiva. Justamente por fundamentar o conceito de qualidade à subjetividade, Clarice deixou espaço em seu questionário para uma avaliação mais ampla. “O questionário abriu espaço para que as pessoas falassem de outras ficções que tivessem, para elas, qualidade.”

Além disso, a publicitária também estudou aspectos que podem constituir uma base para avaliação da produção televisiva brasileira, além da preocupação em buscar definições do conceito de qualidade e gosto, baseados no estudo de teóricos como Pierre Bourdieu e Immanuel Kant. O estudo, que foi orientado pela professora Maria Immacolata Vassallo de Lopes, recebeu menção honrosa entre as dissertações finalistas do Prêmio Compós em 2012, divulgado no dia 21 de maio.

Clarice diz que a qualidade tem três pilares relativos: a ética, a estética e a sociologia. No entanto, ainda que a pesquisadora tenha se apoiado em teóricos que defendem a qualidade como uma questão subjetiva, lembra que “a subjetividade mencionada no conceito de qualidade não é um oposto à objetividade científica, mas uma escolha metodológica que preferiu considerar as diferenças sociais que influenciam o julgamento das críticas”.

Preocupação social e ética

Algo que coincidiu nas opiniões entre os grupos foi não destacar como mais importante a preocupação em abordagem de temas éticos. Para Clarice, “o fato de julgarem esses mesmos elementos como pouco importantes apenas reflete que o próprio público muitas vezes não se dá conta de que está sob influência da ficção sobre a qual emite seu juízo.”

Ainda que estudiosos afirmem a importância da televisão nas construções sociais e culturais da população, na avaliação dos jornalistas, aspectos estéticos foram mais determinantes para qualificação do que a preocupação social ou ética. “Ao avaliar uma produção televisiva, os jornalistas aparentemente não ponderam sobre a função social da TV” disse Clarice.

A televisão é considerada em alguns estudos como um aparato midiático de construção de valores e, em alguns casos, alvo de julgamento preconceituoso devido a ser um produto de apreciação popular. Por isso, Clarice sugere em seu trabalho uma aproximação ao popular e mostra o quanto é opinativo o público brasileiro. “A crítica tem valor independente do emissor” segundo ela, e “combinar as opiniões e críticas de jornalistas, acadêmicos e público foi a maior contribuição do meu trabalho”.

Mais informações: email claricegreco@gmail.com 

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