Voluntários no IPq recebem atendimento de excelência e ajudam a medicina a avançar

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A perspectiva de participar de pesquisas médicas ainda pode soar como assustadora. Conhecer experiências como a do programa de voluntários do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), porém, desmistifica totalmente a ideia de “cobaia humana”, erroneamente carregada por algumas pessoas.

Mais do que isso, para portadores de transtornos psiquiátricos que não podem custear um tratamento, ou não têm respondido aos tratamentos convencionais, a participação nas pesquisas do Instituto pode representar uma real chance de melhora – para a própria pessoa e para outros milhares de pacientes em situação semelhante, que se beneficiarão da nova abordagem.

Voluntária em uma pesquisa sobre depressão e menopausa do Programa Pró-Mulher do Instituto, R. C. [a identidade foi preservada] diz que a participação foi uma oportunidade que ela não teria por outros meios. “Não teria condições financeiras de fazer terapia com profissionais tão conceituados e tomar os melhores medicamentos como estou tendo agora”, conta. E elogia: “fiquei boba quando conheci o IPq, tudo é maravilhoso, desde o atendimento e os funcionários até as condições do prédio. Quero que outras pessoas tenham essa oportunidade e recomendo a todos que precisam”, empolga-se a aposentada, que viu a falta de ânimo causada pela depressão ser substituída por uma viva energia. “Fiz curso de artesanato e agora vou montar um ateliê”, planeja.

No Centro de Pesquisas Clínicas (CPC) do IPq vem sendo desenvolvida uma grande variedade de estudos sobre diferentes doenças psíquicas e seus tratamentos, indo da prescrição de medicamentos até a psicoterapia e reabilitação. Neste contexto, a participação de voluntários como R. C. tem sido fundamental, e o início das pesquisas do gênero coincide com a própria inauguração do Instituto, em 1952.

Naquele ano, foi realizado um dos primeiros ensaios clínicos com um medicamento chamado clorpromazina, o primeiro a ser empregado no tratamento de psicoses e, a partir dele foi lançada uma série de outros psicofármacos, graças a estudos clínicos mais aprofundados que testaram remédios hoje muito utilizados, como os antidepressivos, os ansiolíticos e os estabilizadores de

O psiquiatra Helio Elkis, coordenador do CPC e presidente do Centro de Apoio à Pesquisa (Ceapesq) do IPq, confirma que este tipo de pesquisa colabora em grande medida para o desenvolvimento da medicina. “O ensaio clínico é o ‘padrão ouro’ para se testar, entre outras coisas, a eficácia dos medicamentos. Vemos uma série de propagandas de vitamina C para ‘prevenir a gripe’, mas não há nenhuma prova que isso seja verdade, já que não há nenhuma pesquisa clínica neste sentido”, exemplifica o professor da FMUSP.

Como funcionam as pesquisas

Entre as patologias pesquisadas no CPC do IPq, estão os transtornos do humor (depressão e transtorno bipolar), transtorno obsessivo compulsivo, transtornos dos impulsos (agressividade patológica, comportamento impulsivo, uso de álcool e drogas), psicoses, como a esquizofrenia, ansiedade, e jogo patológico. Também são realizadas pesquisas básicas, epidemiológicas e genéticas.

Pelo modelo seguido, o pesquisador deve submeter seu projeto à aprovação do Departamento de Psiquiatria da FMUSP, e obrigatoriamente, à Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do HC (Cappesq). Também é indispensável que o paciente ou um familiar responsável, quando ele mesmo não tiver condições, assine um termo de consentimento livre e esclarecido.

“O paciente deve ser informado de todos os passos da pesquisa. A colaboração dele é voluntária, também no sentido de que ele pode sair do estudo no momento em que quiser, sem nenhum prejuízo, e deve estar ciente dos benefícios e possíveis riscos que todas as pesquisas têm inerentemente”, diz Elkis.

No caso de medicamentos, o professor afirma que não há no Brasil estudos com placebo puro (em que pílulas sem nenhuma droga são fornecidas), pois esta modalidade é proibida pela  Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Segundo ele, os melhores estudos em termos metodológicos são randomizados, duplo-cegos e controlados.

Para se comparar um novo medicamento a um já utilizado, por exemplo, o paciente fica sabendo que ao entrar, participará de um sorteio, e poderá receber tanto o novo medicamento quanto o medicamento antigo. Ele e muitas vezes o próprio medico não saberão qual o caso durante o estudo, para manter a chamada “cegagem”, evitando que a informação influencie nos resultados. O coordenador do CPC lembra ainda que os ensaios clínicos não envolvem só medicamentos, sendo empregados também para, por exemplo, testar novas técnicas de psicoterapia ou de reabilitação em psiquiatria.

Pesquisadores e “pesquisados”

O psiquiatra Marco de Tubino Scanavino, que realiza um estudo com portadores de comportamento sexual compulsivo no IPq, explica que neste caso, não há outra forma, além da pesquisa com voluntários, de se levantar evidências. “É algo muito falado, mas com poucos estudos clínicos no mundo”.

Segundo o pesquisador, o tema delicado dificulta um pouco a procura dos interessados. “O tabu é muito grande e a informação acerca da questão é pouca.” Ele ressalta, porém, que a pesquisa é realizada com total sigilo e respeito ao anonimato, e que os pacientes recebem todos os cuidados psíquicos, psicológicos e clínicos.

O caso da clozapina

Um exemplo de uma grande descoberta que dependeu do estudo clínico foi a clozapina. Ministrada sem maiores investigações prévias nos anos 1970, nos quadros de esquizofrenia refratária a outros tratamentos, o medicamento provocou algumas mortes, porque não se sabia que ele poderia causar queda de glóbulos brancos. Seu uso foi então abolido.

Porém, no final dos anos 1980, sabendo-se que só a clozapina funcionava para os casos mais graves de esquizofrenia, ela voltou a ser utilizada em um ensaio clínico, sendo comparada à droga mais antiga, a clorpromazina. Formaram-se então dois grupos, cada um tomando uma das drogas, e todos os pacientes faziam exames de sangue semanalmente, para averiguar o risco de redução de glóbulos brancos.

A clozapina demonstrou grande superioridade em relação à clorpromazina, e acabou voltando, mas com a aplicação de exames de sangue periódicos em pacientes que fazem uso dela – assim, o risco de queda de glóbulos brancos pode ser detectado, e em geral é mínimo. “A clozapina continua sendo a melhor opção para o tratamento da esquizofrenia refratária, é muito segura. A partir dela, deu-se início a uma verdadeira revolução, com a introdução no mercado dos antipsicóticos de segunda geração, que são um grande avanço para o tratamento da esquizofrenia”, conta o professor Elkis.

Ceapesq/CPC: estrutura

Ceapesq e CPC, criados em 2006, reúnem no mesmo local dezoito equipes e mais de cem pesquisadores (vinculados a grupos especializados), assim como Laboratórios de Investigação Médica (LIMs), em que são desenvolvidas as atividades dos pós-graduandos, docentes da USP e pesquisadores colaboradores. Conta também com um serviço de estatística, uma sala de monitorias, uma sala de medicamentos, um centro de coletas, dois consultórios e um laboratório de patologia clínica.

A infraestrutura recebeu o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia, e auxílio do Ministério da Saúde e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Saiba mais em www.ceapesq.org.br.

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