Docente do IP lança ‘melhor dicionário do mundo’, para surdos e ouvintes

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Com mais de 50 livros publicados e prestando consultoria para diversas secretarias da educação, o professor Fernando Capovilla, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, atua há 25 anos em pesquisas sobre o desenvolvimento e os distúrbios da linguagem. Esta semana, o pesquisador lança uma nova edição do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue (Edusp), que traz a ilustração do significado de cada palavra e a ilustração da forma do sinal usado em libras.

Os trabalhos de Capovilla à frente do Laboratório de Neuropsicolinguística Cognitiva Experimental foram sempre no sentido de avaliar e intervir, buscando prevenir distúrbios e remediar condições já existentes – tanto em linguagem oral, como escrita e de sinais.

Os asssuntos estudados incluem paralisia cerebral e problemas neurolinguísticos, como dislexia e alexia (dificuldade para ler causada por lesão cerebral em pessoa que dominava previamente a leitura). “Nós realizamos pesquisas para descobrir como a criança pensa, qual a natureza da dificuldade linguística e do que a criança precisa para ter menos dificuldade, além de treinarmos professores”, enumera o pesquisador.

Alfabetização eficaz

A escola, como explica, serve como ambiente para que seja possível comparar o atraso de uma criança em relação à sua turma. Para ter em mãos uma metodologia ainda mais eficaz de avaliação, os pesquisadores fizeram um mapeamento completo do português e da libras. Foram analisados todos os fonemas, grafemas e fanerolaliemas – leitura orofacial das palavras – bem como as relações entre eles. O trabalho foi realizado com o uso de hardware e software desenvolvidos pelo próprio grupo em parceria com a Fatec.

“Foi o maior e melhor mapeamento de uma língua que já existiu no mundo. Nós descobrimos qual é exatamente o grau de dificuldade de leitura e de escrita de qualquer palavra do português durante o primeiro ano de escolarização da criança”, afirma Capovilla. E deste modo, completa:

“Desvendamos como alfabetizar essas crianças de uma maneira extraordinária, com um método muito melhor do que esse que é desenvolvido atualmente e que deixou o Brasil na última posição no ranking de educação.”

Além de tudo, como ressalta, o método contempla não só ouvintes, como surdos; e não só crianças sem lesão cerebral, como as com lesão.

Na área de libras, foram analisados os radicais semânticos, o modo como os sinais são alterados de acordo com o contexto onde estão inseridos e os morfemas – unidades mínimas de significado de uma língua. “Em ‘retroprojetor’, estão inseridas as palavras ‘recolher’ e ‘projetar’. Compreendendo os morfemas de uma língua a pessoa é capaz de decodificar um sinal”, esclarece o professor.

Crianças surdas, escolas específicas

A partir do mapeamento descrito anteriormente, foram decodificados todos os morfemas da libras e desenvolvido um sistema de busca de sinais que permite resgatar qualquer sinal a partir de seus componentes formacionais. “Você pode selecionar um mesmo sinal que está presente em diferentes palavras, como a ‘mão em y’. Então você escolhe ‘palma para trás’, ‘movimento para trás’, ‘local: queixo’ e aparece o que significa aquele sinal”, descreve.

Com o método, o professor realizou a pesquisa com mais de nove mil crianças surdas ao longo de todo o território nacional por cerca de 15 de anos e chegou a resultados com aplicações na área de educação.

Estudando o grau de legibilidade orofacial do português, o grupo descobriu que uma criança não consegue ler lábios até que esteja alfabetizada, e que ela se alfabetiza melhor com os significados dos sinais. Para Capovilla, o dado demonstra que crianças surdas aprendem melhor em escolas específicas do que em escolas convencionais. “Crianças surdas não podem ser incluídas em escolas convencionais. 95% das crianças surdas nascem em lares ouvintes, então elas não aprendem libras em casa, elas aprendem na escola. Se é suprimida a escola, elas não têm libras”, explica.

“O melhor dicionário do mundo”

Capovilla, em conjunto com a Edusp, lança nesta semana, antes da Bienal, os dois volumes expandidos da segunda edição do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue. “É o melhor dicionário do mundo. Ele traz a ilustração do significado e a ilustração da forma do sinal”, descreve o professor.

O Novo Deit Libras, surgido a partir da aliança com o mapeamento de libras e português, foi inicialmente compilado em 1995 e contou com cerca de mil colaboradores. Sua primeira edição foi lançada em 2009, e teve distribuição gratuita pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDES) para 70 mil crianças espalhadas pelo país.

A nova edição traz o verbete, a classificação gramatical, a tradução para o inglês, a definição, a descrição da forma do sinal, a forma de utilização, a interpretação da natureza dos morfemas, um histórico do sinal e diferentes sinais utilizados nos estados brasileiros para cada palavra.

Além da parte linguística, o livro traz um capítulo sobre um novo paradigma universal de dicionarização da língua de sinais baseado nas neurociências cognitivas, falando da importância do cerebelo. A obra conta ainda com um novo capítulo analisando a oralização, a escrita e os sinais.A intenção do professor é distribui-la, novamente, pelo FNDES. “Queremos ajuda da livre-iniciativa, do governo e das ONGs para atingirmos ainda mais crianças”, salienta.

Por fim, o pesquisador adianta que lançará ainda no próximo ano a terceira edição do Dicionário, com três volumes expandidos. Capovilla anuncia, porém, que será seu último trabalho na área. “Não temos mais fôlego, mas temos certeza de que nosso trabalho será muito bem feito. Os professores certamente acharão útil e serão capazes de usá-lo em sala de aula”.

Mais informações: site www.ip.usp.br/lance/, email fcapovilla3@gmail.com, com o professor Fernando César Capovilla. 

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