Raves trouxeram diferentes consequências a frequentadores, aponta antropóloga da FFLCH

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João Ortega / Agência USP de Notícias

As festas raves, que acontecem no Brasil desde a década de 1990, trouxeram experiências particulares e foram parte importante da juventude que a frequentou. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a antropóloga Carolina de Camargo Abreu procurou descrever o universo destas festas de longa duração, com música eletrônica, realizadas em locais afastados dos grandes centros urbanos. Para tanto, recolheu depoimentos de quem já foi frequentador das raves.

A pesquisa Experiência Rave: entre o espetáculo e o ritual é a tese de doutorado de Carolina e foi orientada pelo professor John Cowart Dawsey. Entre as experiências marcantes documentadas, existem algumas que exemplificam a importância das raves para quem já foi frequentador e não é mais. “Aprendi a amar na rave, disse uma das entrevistadas”, revela a antropóloga. “Muitos falaram sobre as raves como uma passagem entre a infância e a vida adulta”, conta. Neste sentido, houve comparação com o que foi o Woodstock — festival de música realizado em 1969 numa fazenda nos EUA — para as gerações anteriores. Carolina ressalta, porém, que “a pesquisa não procurou por um diagnóstico, um quadro geral sobre as consequências dessas festas, mas sim compreender as possibilidades e os riscos que existem nesses espaços sociais”.

O estudo é também, em certa medida, autobiográfico, já que Carolina foi uma frequentadora de raves durante a década de 1990. “Trata-se de uma experiência peculiar de interação social, de interação sensual com o mundo, de compartilhamento com outras pessoas”, relata.

Ritual

Muitos dos frequentadores das raves autointitulam-se como membros de uma Global Tribe (Tribo Global), especialmente nas festas de trance music, um segmento da música eletrônica. Nestas festas e festivais há aproximações da rave com rituais indígenas. Entretanto, mesmo mimetizando as celebrações indígenas, as raves utilizam particularmente tecnologias industriais disponíveis a partir da década de 1980.

A música eletrônica tem sua base na batida feita pelo computador, enquanto as canções indígenas utilizavam a percussão. A pintura corporal também está presente nas raves, mas é feita com tinta fluorescente, que é fruto de tecnologia química recente. Muitas pessoas, nesses locais, utilizam máscaras e adereços que remetem a culturas indígenas. Totens são construídos, sendo geralmente luminosos. Em alguns dos festivais, inclusive, tribos indígenas são chamadas para participar, tendo sua passagem e estadia paga pelos organizadores.

A Global Tribe procura, mais do apenas diversão, transcender a realidade cotidiana da vida urbana. Esta busca, que também é de autoconhecimento, acontece por meio da experimentação de interações com a música, com as pessoas presentes e com o ambiente.

Os eventos sempre acontecem longe dos centros urbanos, muitas vezes em locais paradisíacos como praias e cachoeiras. Nos festivais, as pessoas têm o costume de dividir suas posses e interagir com as outras como se fossem conhecidos de muito tempo. “Apesar da experiência comunitária das raves normalmente não se desdobrar imediatamente na estrutura da vida cotidiana, é algo potencialmente transformador “, relata a antropóloga.

Psicoativos

No espaço social da festa de música eletrônica diversos mecanismos são acionados para a alteração da percepção: música, dança e psicoativos. Peculiar das raves é a articulação da música eletrônica com o ecstasy, psicoativo disponível a partir de meados nos anos 1980 que foi emblematicamente apropriado por essa forma de festejar.

Carolina conta que essa é uma questão delicada de ser tratada, mas que não poderia ser deixada de lado numa tese de antropologia . “Não existe rave sem psicoativos”, constata. “Não são todos os presentes que fazem uso, mas a maioria sim”. No universo das raves, como em outras festas e carnavais, a experimentação festiva é permissiva com o exagero. O assunto, carregado de tabus, requereu da pesquisadora uma postura que não pendesse nem para apologia, nem para a condenação das raves.

Como qualquer droga, os psicoativos utilizados nas raves apresentam riscos. Uma das pessoas ouvida na pesquisa diz: “Amadureci nas raves, mas corri muitos riscos”. Para Carolina, o principal risco do qual falam os frequentadores não é a morte, mas a submissão a um tratamento psiquiátrico.

Entretanto, muitas das pessoas que participaram das raves e contaram ter usado o ecstasy afirmam que foi uma parte importante para seu autoconhecimento, pois mostra um lado próprio que antes não havia sido revelado. A pesquisadora explica: “Passa o efeito do ecstasy, mas a experiência fica e tem repercussões nas pessoas”.

Mais informações: email caroldca@usp.br

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