Mostra e depoimento de vítimas resgatam memória de ataque nuclear

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Nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América bombardearam as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, acontecimento que se tornou um dos piores atentados com bombas nucleares da história mundial. Cerca de 140 mil pessoas morreram em Hiroshima e 80 mil em Nagasaki, além das mortes por doenças que ocorreram posteriormente devido à exposição radioativa.

É um pouco dessa história que não pode ser esquecida que o Instituto de Psicologia (IP) da USP buscar resgatar com a exposição Hiroshima e Nagasaki em São Paulo: testemunho, inscrição e memória das catástrofes, que acontece de 11 a 21 de setembro na Biblioteca Dante Moreira Leite, no IP.

“O evento quer colocar em pauta a discussão em torno das catástrofes. Para isso, organizamos atividades que suscitam a memória desses eventos e a reflexão sobre os mesmos”, afirma Artur Rafael Theodoro, da comissão organizadora da exposição.

Painéis

A exposição é composta por 30 painéis cedidos pelo Museu Memorial da Paz de Hiroshima, com fotografias, gráficos e pequenos textos.

Inicialmente são apresentadas fotos e dados sobre a destruição causada pelas bombas e a quantidade de mortos e feridos, seguidas por informações sobre as duas cidades antes do bombardeio. Além disso, conta com seis desenhos feitos por sobreviventes retratando eventos logo após as explosões.

Ao fim, a mostra volta-se à atual condição das armas nucleares no mundo, apresentando dados sobre países que as possuem e sobre os que estão livres delas. Ainda, propõe diretrizes para a abolição desse tipo de armamento e apresenta artefatos atingidos pelas bombas e a história de vida de seus proprietários.

“Uma explosão dessas tem consequências graves, detrói milhares de vidas, é um trauma social e histórico. Trazer isso para o Brasil é uma forma de sensibilizar a população sobre o que é a experiência de guerra”, comenta Davi Romão, mestrando do IP.

Evento de abertura

Para abrir a exposição, acontece no dia 11 um evento que contará com mesas redondas compostas por pesquisadores que estudam o tema. Ainda, os presentes poderão ouvir testemunhos orais de três sobreviventes do ataque atômico que residem em São Paulo, falados em japonês (haverá tradução simultânea).

“O Brasil é a maior colônia de japoneses fora do Japão, e poucos descendentes sabem o que aconteceu na própria pátria. Existe uma grande censura nessas situações catastróficas.”.

A advertência é de Cristiane Nakagawa, também mestranda do IP. “Nossa ideia é trazer esse conhecimento a um público grande”, completa Cristiane, que realiza um trabalho de literatura dos testemunhos.

Em sua ida à Hiroshima, a pesquisadora coletou depoimentos e pediu ao Memorial que cedesse o material para uma exposição itinerante. Além dos pôsteres, ela recebeu uma caixa com bonequinhas da paz, feitas com quimonos de sobreviventes – artefato que estará na exposição.

Resgate do passado

Mais do que mostrar dados quantitativos e fotos, a exposição vem com a ideia de resgatar um passado que não está completamente esclarecido, já que ainda hoje muitas pessoas desconhecem os reais acontecimentos e motivos do atentado. Segundo Romão, “ela vai um pouco na linha do que está acontecendo agora no Brasil, com a Comissão da Verdade. É um movimento de apropriação do passado”.

Além de trazer à tona verdades sobre o bombadeio, a mostra possibilitará uma reflexão sobre as armas nucleares hoje, estabelecendo vínculos com outros acontecimentos que ameaçam a sociedade, como ressalta Romão:

“A ditadura, por exemplo, tem uma proximidade muito maior com o povo brasileiro, mas o bombardeio é um ponto importante da história mundial que afeta a todos”.

“As discussões desse passado sobre o qual não falamos são importantes, porque têm efeitos na sociedade de hoje”, finaliza.

A exposição é coordenada pelo professor Paulo Cesar Endo, do IP, e tem como apoiadores, além da Biblioteca Dante Moreira Leite, a Casa do Psicólogo, o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, a Japan Foundation São Paulo, a Editora Artmed, e do Núcleo Diversitas, da FFLCH.

O endereço do IP é Av. Prof. Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária, São Paulo. O evento é aberto ao público e gratuito, sem necessidade de inscrição prévia. Mais informações e a programação completa da abertura podem ser vistas no site do evento.

Imagens desta matéria:

  • 1 e 3.  Ruínas de um prédio atingido pela explosão atômica de Hiroshima, hoje conhecido como Domo da Bomba Atômica. Ele está situado a cerca de 160 metros do epicentro da bomba.
  • 2. Monumento construído em 1958 no Parque Memorial de Hiroshima, em memória à estudante Sadako Sasaki. Ela tinha dois anos quando a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima. Aos 12 anos ela desenvolveu leucemia, um dos efeitos da exposição à radiação nuclear, e faleceu.

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