Pesquisador da FSP debate aids no país e fala em ‘epidemia silenciosa’

Publicado em Saúde, USP Online Destaque por em

No mês passado, foi lançado o manifesto “O que nos tira o sono?”, assinado por 54 docentes, pesquisadores e ativistas da sociedade civil, sobre a presença de uma epidemia relativa de Aids no Brasil. O documento faz referência à declaração de dirigentes do Ministério da Saúde do país, durante a 19ª edição da Conferência Internacional de Aids, realizada no mês de julho, em Washington (Estados Unidos), em que afirmaram que “no Brasil, nada em relação à  Aids tira o sono deles”, considerando que o problema está controlado no país.

Um dos responsáveis pelo documento é o professor Ivan França Junior, chefe do Departamento de Saúde Materno-Infantil, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Em entrevista recente à Rádio CBN, ele já havia afirmado a opinião de que “existe uma resposta inadequada aos casos da doença por parte dos programas de tratamento, nas esferas federal, estaduais e municipais, pois eles apresentam defasagem”.

Também membro do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids (Nepaids), que funciona na USP há mais de 20 anos, o professor conta os fatores que levaram à criação do manifesto.“Primeiramente, já havia 22 anos desde a última conferência como esta nos Estados Unidos, por causa da proibição da entrada de pessoas portadoras do vírus HIV no país. Mas o que chamou mais atenção foi a interpretação apenas parcial, por parte do Ministério da Saúde, dos dados que vem sendo obtidos”.

Em nota divulgada à imprensa em resposta ao Manifesto, o Ministério argumenta que tem investido na ampliação do diagnóstico precoce do vírus da aids. “Em sete anos, o número de testes rápidos anti-HIV distribuídos aos serviços de saúde em todo o país mais que dobrou. Passou de 528 mil unidades, em 2005, para 1,2 milhão, de janeiro a junho de 2012”, diz o relato, acrescentando que  “o investimento na atenção à saúde de quem vive com HIV/aids se reflete na estabilidade da média de notificação de casos da doença. Em 2010 foram notificados 34 mil casos novos de aids no Brasil (com taxa de incidência de 17,9 casos por 100 mil habitantes). Há sete anos (2005), a notificação era de 33 mil novos casos, com taxa de incidência de 18 casos por 100 mil habitantes.” Mesmo assim, o órgão reconhece que “ainda há vários desafios a superar.” (Leia nesta página a nota na íntegra).

Análise

Desde 2001, é apresentado pelo Governo Federal um boletim epidemiológico anual (disponível na página eletrônica do Programa), em que são mostradas informações, por exemplo, de coeficiente de casos de aids, de óbitos decorrentes da doença, entre outros. Esses dados são filtrados por critérios como região do país, sexo, faixa etária e raça da população, e são exatamente estes “filtros” que podem, na opinião de França Júnior, gerar uma sensação imprecisa de “situação de controle”, conforme a figura abaixo:

O pesquisador explica como os dados foram analisados. “De fato, este gráfico de coeficiente de mortalidade por ano e região, mostra que desde o ano 2000, houve uma ligeira queda no número de óbitos por aids no Brasil, a cada 100 mil habitantes – de quase 6,5 para menos de 6. A falha está justamente em não percebermos que se trata de um coeficiente, ou seja, os números são diretamente ligados à quantidade de habitantes do país. Como podemos perceber, a região que ‘puxa para baixo’ o índice é a Sudeste, que de longe é mais populosa do Brasil. Nas demais regiões, há estabilidade no Centro-Oeste, mas aumento dos óbitos no Sul, Nordeste e também no Norte, onde o índice praticamente dobrou. É o que chamamos de uma epidemia silenciosa”.

Segundo o especialista, houve importantes adesões ao manifesto. “Além dos ativistas da sociedade civil, dos estudiosos e profissionais da saúde, também assinaram o documento várias associações e ONGs”.

Do contágio ao tratamento

França Júnior comenta que diversas áreas de estudo estão presentes no Nepaids. “Temos os professores da USP Alessandro Santos e Vera Paiva, do IP [Instituto de Psicologia], Aluísio Segurado e José Ricardo Ayres, da FMUSP [Faculdade de Medicina], Gustavo Venturi, da FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas], além de Cássia Maria Buchalla e eu, da FSP”.

Por conta desta variedade, são desenvolvidas pesquisas a respeito de todos os estágios da doença, desde a prevenção, para que não haja transmissão do vírus, até os momentos de suspeitas, negação de testes, descoberta da doença e início e sequência de tratamentos. “O que buscamos principalmente é esclarecer os aspectos psico-sociais da aids no país. Ainda é muito complicado para um indivíduo que teme ter sido contaminado admitir este risco, procurar ajuda, suportar os vários momentos difíceis que se seguem”, esclarece o professor.

Ainda é muito complicado para um indivíduo que teme
ter sido contaminado admitir este risco, procurar ajuda,
suportar os vários momentos difíceis que se seguem.

Apesar destas dificuldades, o docente revela que comumente há boa aceitação das pessoas para participarem deste estudos. “O brasileiro é um povo receptivo, solidário, mas infelizmente outra causa para eles aceitarem conversar conosco é o modo como são vistos pelo resto da sociedade. Existe ainda muita discriminação e estigmatização de soropositivos [portadores do vírus HIV], sobretudo profissionais do sexo, homossexuais, que se sentem envergonhados e humilhados perante os demais, e muitas vezes escondem sua situação”.

Os pesquisadores e alunos que ingressam no Nepaids recebem treinamento para lidarem com os indivíduos, além de realizarem reuniões posteriores à divulgação dos resultados finais, para debater outras maneiras de melhorar e facilitar o contato, ainda mais por conta dos temas delicados que o grupo aborda, como sexualidade, uso de drogas, orfandade – o que, de acordo com o especialista, “inibe um pouco mais a população mais jovem”.

Perspectiva para o futuro

Atualmente, segundo o professor, não é possível afirmar que a Aids está próxima da erradicação, no Brasil ou em qualquer parte do mundo.  França  Júnior afirma, porém, que é possível pensar em impedir completamente a transmissão do vírus. “Já existem diferentes métodos para se impossibilitar a transmissão, como o conhecido uso do preservativo, mas também por controle sanguíneo e tratamento de carga viral, por exemplo”.

O professor ressalta a importância do trabalho das universidades como um todo. “Se estes trabalhos ocorrerem no sentido de identificar os maiores focos do problema, e os governos direcionarem o investimento, poderemos interromper a difusão do HIV, e a partir de 50, 60 anos [expectativa de vida de um soropositivo, se tratado precocemente] depois, acabar de vez com a aids”.

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