Pesquisa da FMUSP mostra que diagnóstico atual sobre audição de idosos é incompleto

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Paloma Rodrigues / Agência USP de Notícias

A avaliação da audição periférica em idosos não é suficiente para diagnosticar todas as possíveis alterações auditivas por que eles passam. Pesquisa realizada na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) realizou testes de avaliação comportamental e eletrofisiológica do processamento auditivo central. O trabalho propõe que testes de avaliação comportamental sejam incluídos na bateria de exames realizada rotineiramente.

O Transtorno do Processamento Auditivo Central corresponde a um déficit no processamento da informação auditiva, que pode interferir até na compreensão da fala, principalmente em ambientes ruidosos. A fonoaudióloga Tatiane Eisencraft Zalcman explica que “de fato, às vezes, os pacientes escutam bem, mas muitas vezes não conseguem identificar o que escutam. Essa falha na compreensão gera uma série de dificuldades, piorando a qualidade de vida desses idosos.”

A ideia inicial da pesquisa era comparar dois grupos de idosos por meio da análise comportamental – o primeiro grupo com comprometimentos cognitivos leves (pessoas funcionalmente normais, mas com queixas de memória mais avançados e um maior potencial para desenvolver Alzheimer) e o segundo sem nenhum problema cognitivo identificado – e ver se a análise poderia ser um bom instrumento na identificação desse tipo de problema. A surpresa do estudo foi encontrar nos dois grupos uma alta incidência de idosos com alterações no processamento auditivo central. “O resultado dos dois grupos foi muito semelhante. Em 85% dos casos encontramos problemas no processamento auditivo”.

Dentre essas dificuldades estão, por exemplo, problemas para se concentrar em ouvir uma história enquanto há ruídos no ambiente, problemas para compreender certas palavras quando elas não são ditas de maneira bastante clara ou a demora para identificar sons e reagir a eles.

“O que nos surpreendeu foi a alta incidência de pessoas com problemas dentro do grupo normal. Isso mostra que os exames realizados atualmente podem não estar conseguindo identificá-los de uma maneira completa”, diz Tatiane. Ela ainda afirma que esses problemas interferem diretamente na qualidade de vida do idoso. “Muitas vezes ele se isola em uma discussão, porque ele não consegue distinguir as falas, já que elas estão sendo ditas ao mesmo tempo. Isso pode causar isolamento e depressão”.

Um teste que se destacou pela quantidade de alterações – em quase todos os pacientes – foi o teste de processamento temporal, que avalia o tempo de resposta à um estímulo ou informação.

Essas alterações podem ser trabalhadas e consequentemente revertidas por meio de treinamento auditivo em cabine acústica. Há tarefas específicas para cada uma das habilidades que se encontram alteradas, como por exemplo, expor o idoso a diferentes tipos de ruídos, em diferentes intensidades. As dificuldades vão aumentando conforme o idoso apresenta melhora.

Exame rotineiro

O exame rotineiro na avaliação da audição do idoso é a audiometria, que analisa a audição periférica. “Isso não é suficiente, mas os profissionais não estão habituados a solicitar a avaliação do processamento auditivo central. A prática mais comum ainda é indicar, quando necessário, a colocação de uma prótese.”

“O que pretendemos com este estudo é alertar sobre a necessidade da inclusão dos exames que avaliam o processamento auditivo central, para que essa população possa ser diagnosticada e tratada de forma adequada, melhorando assim a sua qualidade de vida e autoestima”, diz Tatiane, que foi orientada pela professora Eliane Schochat, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP.

Todos as pessoas diagnosticadas com comprometimentos cognitivos leves foram encaminhados pelo serviço de Geriatria da FMUSP. A pesquisa foi realizada junto ao departamento de Fisitoterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional.

Mais informações: email tatianeft@gmail.com, com Tatiane Eisencraft Zalcman

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