E-Science resgata pesquisadores do ‘dilúvio’ de dados

Publicado em Ciências, Tecnologia, USP Online Destaque por em

Para se fazer ciência até os anos 1990, um aluno tinha muito que estudar. Com base em suas leituras e análise de outros trabalhos, ele deveria propor uma hipótese, realizar uma infinidade de experimentos e mensurar seus resultados para, com uma dose de perspicácia, transformar suas suspeitas em uma teoria. Nos anos 2000, com a democratização da informática, das redes e a multiplicação de fontes de informações, o caminho pelas etapas do método científico continua semelhante, mas o volume de dados com que é preciso trabalhar cresceu exponencialmente.

O Núcleo de Pesquisa em eScience da USP vai ajudar a tornar esta tarefa menos árdua. Institucionalizado em 2012, o NAP (Núcleo de Apoio à Pesquisa) é coordenado pelo professor Roberto Marcondes Cesar, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP. Sua principal preocupação é realizar análise, armazenamento e visualização de grandes quantidades de dados. “Até a década de 1990, grande parte dos problemas estava em adquirir esses dados”, explica o docente. Nos últimos 15 anos, graças aos avanços da computação, “a área de eScience surgiu como uma resposta para prover novos modelos e tecnologias na análise de dados de diferentes ciências”, completa.

E-Science (ou eScience), termo criado em 1999 pelo diretor do Gabinete de Ciência e Tecnologia do Reino Unido, John Taylor, é a ciência que utiliza conjuntos de dados imensos que requerem esforços da chamada computação em grade. A computação em grade, por sua vez, é feita quando uma rede permite que os recursos de cada computador sejam compartilhados com toda e qualquer máquina no sistema.

Formado por um grupo de aproxidamente 20 professores, o Núcleo concentra esforços de diversas unidades da USP. “Temos pesquisadores do próprio IME, da Faculdade de Medicina, do Instituto de Biociências, Instituto Oceanográfico (IO) e dos Institutos de Física (IFSC), e de Matemática e Ciências de Computação (ICMC) de São Carlos. Além de parcerias fora da USP com a Unicamp, Unifesp, Instituto Butantan, Federais do ABC e da da Amazônia”, enumera o docente.

Dilúvio de dados

Conscientes de que a grande quantidade de informação é uma grande vantagem, e ao mesmo tempo, dificuldade para se fazer ciência na atualidade, os idealizadores do Núcleo esperam que o esforço conjunto de todos os envolvidos venha facilitar a vida de pesquisadores em todo o país.

Dentre os projetos mais abrangentes do NAP está o scriptlattes. Desenvolvido como parte do software Tycho, um dos sistemas utilizados para a gestão acadêmica da USP, o scriptlattes é um programa capaz de explorar dados a partir da plataforma Lattes (site que integra as bases de dados de currículos, grupos de pesquisa e instituições do Brasil, em um único sistema de informações, das áreas de Ciência e Tecnologia) e gerar relatórios que apresentam padrões de colaboração entre áreas do conhecimento.

“Precisávamos de um software que ‘mastigasse’ os dados do Lattes. Somente na USP são mais de oito mil currículos de docentes”, salienta o coordenador. Tendo como meta expandir seu escopo para abranger os currículos de pesquisadores de todo o País, o software criado com base na eScience pretende analisar um contingente que ultrapassa os 50 mil currículos ligados à Fapesp e que são atualizados frequentemente.

O futuro já chegou

Adotado em diversas partes do mundo para se resolver problemas práticos da pesquisa, a eScience tem se tornado cada vez mais relevante para as grandes descobertas da ciência.

O astrofísico Brian Schmidt, prêmio Nobel em 2011 por ter fornecido evidências de que a expansão do universo está se acelerando, revelou no encontro internacional sobre eScience (7th IEEE International Conference on e-Science) ano passado a importância do conceito e suas aplicações durante a formulação de sua pesquisa.

Na próxima semana, durante a oitava edição da IEEE International Conference on e-Science em Chicago, três pesquisadores do NAP apresentarão trabalhos realizados pelo núcleo sediado na USP. “Existem vários grupos que trabalham com essa área no Brasil, mas a USP é a primeira a dedicar um núcleo de pesquisa para a eScience”, revela Roberto.

Com a missão de explorar e compartilhar dados, os idealizadores do Núcleo de Pesquisa em eScience esperam não apenas fomentar novas redes de colaboração e interação, como também contribuir para o futuro de todas as ciências.

Mais informações: email roberto.cesar@vision.ime.usp.br, com o professor Roberto Marcondes César

.