Povos Tupi e Aruak já habitavam Pará desde o século III, afirma arqueóloga

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Giovanni Santa Rosa / Agência USP de Notícias

Povos indígenas falantes de línguas do tronco Tupi começaram a se estabelecer na região do rio Cateté, no Pará, por volta de 250 d.C. (século III, ano 250 da Era Cristã), quando populações falantes do tronco Aruak já habitavam a região. Essa é a conclusão da pesquisa da arqueóloga Lorena Gomes Garcia, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Artefatos arqueológicos suscitam outras narrativas entre os grupos indígenas atuais

“Uma hipótese levantada por essa pesquisa é a de que parte dos grupos de línguas Aruak da região do Cateté se direcionaram para o Alto Xingu, onde sítios arqueológicos correlacionados estão datados de 800 d.C”, afirma a autora da dissertação de mestrado Arqueologia na região dos interflúvios Xingu-Tocantins: a ocupação Tupi no Cateté, apresentada em março de 2012 no MAE e orientada pela professora Fabíola Andrea Silva. O trabalho foi financiado pela Scientia Constultoria Científica, empresa especializada em estudos de licenciamento ambiental.

Lorena estudou coleções de vasilhas cerâmicas provenientes de escavações arqueológicas e de coleções museológicas.

“Foram mapeadas as escolhas de produção que refletem as características formais das vasilhas cerâmicas, como a pasta produtiva (argila), resultados da queima das vasilhas, aplicação das pinturas e desenhos pintados, inscrição de traços (incisões) formado desenhos geométricos que lembram figuras como trançado de cestarias e pintura corporal observada entre os grupos indígenas contemporâneos”, conta a pesquisadora.

“Grande parte das informações arqueológicas sobre a configuração dos territórios indígenas na Amazônia Antiga, pré-colonial, partem do estudo dos artefatos cerâmicos, e mais especificamente das vasilhas cerâmicas confeccionadas e utilizadas nas práticas cotidianas, mortuárias, rituais, trocas comerciais, dentro outras. Esses artefatos refletem identidades culturais, na medida em que denotam a manutenção de conhecimentos tradicionais que se revelam nas características formais das vasilhas cerâmicas.”

Arqueologia e região

O Rio Cateté, onde há mais de cem anos vivem os índios Kayapó-Xicrín, faz parte dos inferflúvios do médio Xingu e baixo Tocantins. “Essa extensa região é conhecida como parte da Amazônia Oriental e é amplamente conhecida, do ponto de vista etnográfico e, de maneira mais tímida, do ponto de vista histórico, como ‘província dos povos Tupi-Guarani’, denominação usada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro [professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)]”, informa Lorena.

Apesar do vasto conhecimento etnográfico sobre a região, a pesquisadora destaca a importância dos estudos arqueológicos. “Uma das principais contribuições de pesquisas como essa é agregar conhecimento sobre um passado indígena que permanece silenciado sem a pesquisa arqueológica. A arqueologia traz à tona aspectos inerentes a história de ocupação indígena que são inexistentes na documentação histórica e identifica, através da cultura material, práticas sociais que por fatores diversificados como os processos de colonização, sofreram rupturas ao longo do tempo, e se fazem ausentes no próprio contexto etnográfico.”

No entanto, o conhecimento trazido pelas pesquisas sobre o passado indígena não é a única contribuição. “É importante frisar que artefatos arqueológicas, como a cerâmica, suscitam outras narrativas entre os grupos indígenas atuais. É o caso dos Xicrín do Cateté, que possuem uma explicação própria para a existência dessas artefatos nos locais habitados por eles hoje”, afirma a arqueóloga.
Lorena diz que esse é um “contexto peculiar das regiões amazônicas”, áreas que “denotam redes sociais complexas e diversificadas de um passado que ainda pode ser observado no presente.”

Imagens cedidas pela pesquisadora

Mais informações: email lorena.arque@gmail.com, com Lorena Gomes Garcia

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