Estudo do IP revela que autoproteção marca posição de PMs sobre foco de seu trabalho

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Bruna Romão / Agência USP de Notícias

Após entrevistar dez soldados de uma companhia da Polícia Militar do Estado de São Paulo, a psicóloga Erika Ferreira de Azevedo observou que a proteção da própria vida do policial e seus companheiros é uma das marcas do posicionamento discursivo dos oficiais quanto ao foco último de seu trabalho. A pesquisa desenvolvida por Erika, no Instituto de Psicologia (IP) da USP, buscava, a partir da análise do discurso desses profissionais, entender a história e posicionamento do policial quanto à sua clientela, hierarquia, o criminoso e si mesmo a partir de seu próprio ponto de vista.

“Costumamos ver policiais posicionados no discurso externo a eles”, lembra a pesquisadora. As questões abordadas nas conversas, que ocorreram no primeiro semestre de 2010, giravam em torno do dia a dia e situações por eles vividas, bem como a influência do trabalho em sua vida e o significado de pertencer à PM.

A pesquisadora utilizou um método que, na psicologia, é chamado de Análise Institucional de Discurso, não interpretando a fala dos sujeitos, mas constatando a partir dela os lugares ocupados pelos elementos associados a seu pertencimento e relação com a instituição. “Por meio desse posicionamento, existem relações reconhecidas e desconhecidas e que mostram um pouco do policial e da instituição também”, explica.

Clientela e meliante

A percepção demonstrada pelos soldados a respeito de seus “clientes” não foi única. “A clientela era classificada, para facilitar o trabalho do PM”, conta Erika. Assim, foi observada certa diferenciação em duas partes, uma “boa” e outra “ruim”. A parcela “boa” corresponderia a aqueles que não reclamam e elogiam as ações do policial, levando-o a uma posição heroica. É uma população de certa forma despossuída, ignorante e que precisa ser salva pela PM. Os clientes “ruins”, por sua vez, seriam aqueles que criticassem e se posicionassem contra as ações da polícia.

Há também uma diferenciação quanto à posição social do cliente, identificado em dois tipos. Um deles é a pessoa de uma camada mais elevada e influente da sociedade ou que possuísse algum cargo oficial, que, por um lado, pode humilhar o policial, mas é um cliente para o qual, quando identificado, recebe atendimento de acordo com a sua posição. O outro tipo corresponde à massa popular, na qual também se incluem e se misturam, em um entendimento bastante confuso, os criminosos em potencial, identificados, por exemplo, como moradores de comunidades.

Ser policial

“O PM se colocava na posição de alguém que era um alvo ambulante por ser policial”, relata a psicóloga. Quando questionados a respeito do tema violência, ela ressalta, os soldados situavam-se como as pessoas contra quem os atos violentos dirigiam-se. “Sempre tinham histórias de amigos de farda que sofreram violência.”

Como braço do Estado, a Polícia Militar deve, como função oficial, zelar pelo bem da população. Apesar de tornar-se um amigo ou herói de parte desta clientela, também é dela que partem uma série de ataques, sejam críticas ou ações criminosas dos “meliantes”, contra o policial. Desta forma, ele se volta para a proteção de si mesmo e de seu “amigo de farda”, como pessoas que “tem família”, se contrapondo ao meliante que “não tem nada a perder e não segue códigos”.

Sua autoproteção, no entanto, parece ser dificultada pela organização hierárquica e pelas regras da instituição. O soldado não pode agir nos mesmos termos do meliante. “O policial às vezes encontra-se em uma situação ambígua, deslizando entre o criminoso, por estar à beira de cometer algum crime, ao mesmo tempo em que é normatizado e corrigido pela hierarquia”, relata Erika. A hierarquia deixa-os, de certa forma, desamparados em sua defesa. “Policial se sente na posição de alguém que tem que se defender, mas não pode”, completa.

O lugar da farda

Os policiais, por sua função de proteção a sua clientela, a si próprios e aos colegas, apresentam certa noção de “faz tudo”, o que é “validado pela farda”, que se sobrepõe  às outras pessoas e mostra a influência institucional sobre seu posicionamento. A psicóloga ressalta que isto não significa que o soldado seja “uma vítima da farda”, mas, sim, de certa forma a incorpora em sua fala, ações e identidade.

Todavia, a identificação ou não como membros da instituição varia conforme as situações relatadas. “O policial tem uma relação com essa farda, de a tirar e a colocar”, resume Erika. A psicóloga destaca o posicionamento inclusivo quando relacionado a ações e efeitos positivos ao vestir a farda. Quando, porém, tratam a respeito de questões negativas, os policiais despem-se da farda e relacionam tais fatos com autores individuais, criticando generalizações.

Mais informações: email erikazevedo@gmail.com, com Erika Azevedo

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