Pesquisa da FFLCH mostra que coleção garante visão dos africanos sobre sua história

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Igor Truz / Agência USP de Notícias

Estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostra como a coleção “História Geral da África”, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) foi além de garantir que intelectuais da África construíssem a história do continente. De acordo com o historiador e autor da pesquisa Muryatan S. Barbosa, mais do que apenas dar voz aos africanos, a coleção criou uma nova maneira de olhar para a história do continente, um novo método científico, a Perspectiva Africana.

As pesquisas da UNESCO para o projeto tiveram início em 1964, com a participação de cerca de 350 pesquisadores dirigidos por um comitê formado por 39 especialistas, dos quais dois terços eram africanos.

Sob orientação da professora Marina de Mello e Souza, Barbosa reconstruiu parte do percurso que culminou nas publicações de todas as oito edições da coleção, concluídas mais de quatro décadas depois. A tese de doutorado A África por ela mesma: a perspectiva africana na História Geral da África (UNESCO) avaliou mais de 90 documentos, atas das reuniões do comitê organizador da obra, além de fazer a leitura sistemática de todos os oito exemplares da coleção, que contém quase 8 mil páginas no total.

Perspectiva Africana

Os intelectuais responsáveis pela obra tentaram cobrir toda a história da humanidade, desde a origem do homem até a recente década de 1980. “Vale ressaltar que História Geral da África é fruto da pressão política exercida pela União Africana sobre a UNESCO”, explica Barbosa.

O estudo demonstra que, para tanto, a coleção não ficou somente a mercê da simples opinião dos africanos sobre os fatos. Os intelectuais do projeto criaram uma maneira própria de análise da história, o que Barbosa chama de “Perspectiva Africana”. Trata-se de uma nova postura teórico-metodológica que tenta explicar a história do continente a partir de fatores internos a própria África.

O método é baseado em três tipos de abordagem: a ‘Regionalista’, onde a história é construída baseada na adequação das populações ao meio ambiente durante um período de longa duração, que pode durar milênios; a ‘Difusionista Intra-Africana”, na qual são analisados aspectos históricos conjunturais de um modo internalista, como trocas culturais e migrações, onde alguns povos africanos influenciaram outros povos também africanos; e, por fim, o ‘Sujeito Africano’, uma abordagem que tenta analisar a ação política do homem africano, sempre em contraposição ao outro (ocidental).

“A Perspectiva Africana está alicerçada em pressupostos científicos. Se não o fosse, seria apenas mais um relativismo, facilmente criticável”, justifica o historiador.

Ensino de África

No dia 9 de janeiro de 2003 foi aprovada no Brasil a lei n°10.639, que alterou os currículos oficiais da rede de ensino e tornou obrigatório o ensino de História da África e dos afrodescendentes no Brasil. Desde então, especialistas em educação discutem sobre qual a melhor maneira de incluir o tema no cotidiano escolar.

Pensando nisto, o Ministério da Educação (MEC), em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a UNESCO traduziram, no ano de 2010, os oito exemplares de História Geral da África. Hoje, a parceria está produzindo um material de adequação didática do conteúdo da obra. Dos oito exemplares, sairão dois volumes menores, resumidos, com cerca de 350 páginas cada um, voltado para consulta de professores da educação básica.

Para Barbosa, a adequação didática resolve também um problema moral, de reconhecimento da autonomia e das liberdades africanas. “Quando estudamos história do Brasil, lemos somente o que os franceses, ingleses ou estadunidenses escrevem sobre o assunto. Por que haveríamos de fazer isto com a história africana?”, questiona.

Mais informações: email murybarbosa@usp.br, com o historiador Muryatan S. Barbosa

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