Na USP, catadores aprendem a melhorar a renda identificando resíduos de informática

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Recolhendo e separando materiais em uma cooperativa de catadores de recicláveis há sete anos, José Carlos Almeida [foto], de 48 anos, conta que no começo achava constrangedor trabalhar com o lixo, mas com o  tempo passou a valorizar sua profissão – não só pela renda, “que não é aquela coisa” mas permite seu sustento, como pelos benefícios que a atividade traz ao planeta.

“Hoje eu não tenho vergonha do que eu faço. É um trabalho como qualquer outro – aliás, até melhor que outros, porque a reciclagem é algo que nosso planeta está precisando, apesar de estarmos descobrindo isso um pouco tarde”, diz.

José é um dos 180 catadores que devem passar pelos bancos da USP desta segunda-feira (4) até o final do ano, participando de um curso que vai capacitá-los a lidarem com materiais de informática. Referência em gestão ambiental, o Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir) e o Laboratório de Sustentabilidade (LASSU) da Escola Politécnica (Poli) da USP organizaram o projeto em parceria com o Instituto GEA – Ética e Meio Ambiente.

O curso deve contribuir no incremento da renda dos profissionais, por meio da especialização, e colaborar para resolver também o problema do acúmulo de material no Cedir, que atualmente é um dos poucos locais no país a receber e destinar adequadamente este tipo de resíduo.

De acordo com a coordenadora do Cedir, professora Teresa Cristina Carvalho, a primeira semana do curso, que é ministrado por professores da USP e técnicos, explicará o funcionamento básico dos equipamentos de informática, suas peças e desmonte, onde estão e como lidar com as substâncias tóxicas, além de demonstrar como se organiza um pequeno plano de negócios. O segundo módulo será prático, sendo oferecido nos laboratórios do Cedir e com os próprios materiais que aguardam tratamento no Centro.

 

 

Lixo eletrônico: saiba aqui o que fazer com ele

 

 

“O projeto foi criado com base na ideia de segurança e renda a partir do lixo eletrônico, para que os alunos aprendam a manusear os resíduos sem prejuízo para sua saúde, e também a comercializar este lixo, vendido atualmente como sucata comum, quando sabemos que se corretamente separado e direcionado, poderia trazer ganhos muito maiores”, explica a docente. Além de alunos ouvintes da comunidade em geral, os participantes foram selecionados em cooperativas de catadores que já trabalham com o Instituto GEA.

Ana Maria Domingues Luz, presidente da ONG, explica:

“Queremos que os alunos formados funcionem como multiplicadores do conhecimento adquirido para outros catadores nas cooperativas em que atuam”.

Para isso, haverá ainda um trabalho de acompanhamento nas cooperativas, visando garantir que os catadores saibam aplicar o que aprenderam na USP.

O projeto tem financiamento da Petrobras, na modalidade de programas de desenvolvimento e cidadania, e deve capacitar 180 catadores até o final de 2012, em turmas de 10 alunos regulares com duração de duas semanas cada.

Expectativa

José Carlos Almeida quer extrair o máximo da oportunidade que está tendo de frequentar aulas na USP. “Parei de estudar na sexta série, mas estou procurando retomar os estudos, até para facilitar conversar com pessoas com um grau de educação maior, e porque o próprio trabalho como cooperado de uns anos para cá tem exigido isso”, relata.

O catador acredita também que o curso contribuirá em ganhos para os cooperados, “porque é um material que a cooperativa recebe há muito tempo, mas não tinha como negociar diretamente com compradores específicos”, explica.

Desafios

Para os alunos, os desafios do curso são muitos. Começam com a própria chegada na USP, até então desconhecida da maioria deles. “Se hoje acordaram às cinco da madrugada e chegaram atrasados, amanhã teremos que acordar às quatro para começarmos na hora”, brinca Ana Maria, do Instituo GEA. Os participantes recebem do projeto auxílio para transporte e alimentação.

Além disso, o nível educacional da turma é bastante heterogêneo, havendo de participantes semi-alfabetizados até outros com nível superior. O que é um desafio também para os organizadores e professores. “Para mim, trabalhar com este público é uma novidade”, conta o professor do curso Walter Akio Goya, especialista em sistemas de informação. O Lassu contratou uma pedagoga para orientar a montagem do curso.

As recompensas, por sua vez, também serão colhidas de ambos os lados. “Foi muito surpreendente, eles realmente se interessaram. Já tinham uma noção do que seria o curso e um objetivo certo na cabeça em estar aqui: aumentar o valor agregado dos materiais e trabalhar com segurança”, afirma Akio sobre os participantes.

O professor enfatiza ainda estar aprendendo muito conhecendo a realidade destas pessoas que não tiveram muitas oportunidades, e “mesmo assim, têm feitos muito grandes”. “Sabemos que podemos conversar na mesma altura”, destaca.

Confira como está sendo o curso oferecido no Lassu-Poli e a experiência de uma catadora de materiais recicláveis nesta profissão.

 

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